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domingo, 7 de agosto de 2016

Manu “Joker” Henriques (Uganga) - Entrevista

Um fã de cabeça aberta é sempre uma coisa benéfica e interessante, já que o livra das amarras de dogmas "tribais", enriquece o gosto musical, faz compreender a pluralidade desse universo sonoro e leva ao respeito aos diferentes estilos. Mas melhor ainda é quando os músicos são mente aberta e se mostram aptos a experimentar, a buscar algo externo ao estilo central executado, a usufruir de tudo o que for interessante na música, pois ela está aí livre para todos. Isso os mineiros do Uganga fazem sem medo, resultando em inegável personalidade.
Recentemente tive a oportunidade de entrevistar o vocalista Manu "Joker" Henriques, fundador e líder da banda, na labuta há mais de 20 anos com muita paixão, dedicação e confiança. O bate-papo transcorreu a história do Uganga, desde seu início, passando por suas influências, conceitos, turnês europeias, até o álbum mais recente e também o futuro.
Manu falou tudo em detalhes e com muito carisma! Confira abaixo na íntegra:

WOTM: Manu, antes de mais nada, obrigado pelo seu tempo!
É notável a metamorfose musical que a banda apresenta ao longo da discografia, muito embora aquele clima suburbano sempre tenha sido uma constante. No início de tudo, quando a banda foi fundada em 1993, quais eram os planos e influências?
MANU "JOKER" HENRIQUES: Cara, quando começamos o lance era mais diversão do que qualquer outra coisa. Todos integrantes tinham outras bandas, no meu caso tocava bateria no Nuts, e montamos o então denominado Ganga Zumba para tocar alguns covers que curtíamos. Grupos como Rollins Band, Butthole Surfers, Fugazi, Rage Against The Machine entre outros estavam em nosso repertório e acabaram nos influenciando, uns mais que outros. Com o tempo começamos a compor alguns sons em português e por volta de 96 a coisa ficou mais séria. Lançamos duas demos e em 2002 saiu o primeiro full, “Atitude Lótus” (independente), já com o nome Uganga. Realmente é um trabalho muito diferente musicalmente do que fazemos hoje apesar de, por outro lado, também ter muitas coisas em comum com o Uganga atual. É um álbum muito experimental de uma banda que ainda buscava sua identidade e tinha um processo de composição meio caótico (risos). Pra você ter uma ideia eu entrei no estúdio sendo baterista e saí vocalista (mais risos)! Enfim, mesmo sendo um trabalho um pouco confuso eu ainda o acho um bom álbum e ele precisava sair pra banda não acabar. Antes mesmo de colocarmos o CD na praça o Uganga passou por uma reestruturação total, tanto de integrantes como musical, e de maneira natural fomos pesando nossa música, tocando, ensaiando, compondo e deixando rolar... Quatro anos depois, com nosso segundo álbum, “Na Trilha do Homem De Bem” (Incêndio Discos/2006), traçamos esse rumo que foi ratificado no terceiro trabalho, “Vol. 03: Caos Carma Conceito” (Incêndio Discos/Freemind/2010). Desde então o Uganga vem aprimorando essa fórmula, porém nunca deixando de olhar pra frente e sempre fazendo música livre de amarras. Particularmente foi algo como voltar as minhas raízes de Metal e Hardcore/Punk, mas acrescentando o background adquirido nos primeiros anos da banda. Precisei passar por essa fase, da qual me orgulho muito, pra renovar minhas energias e voltar a fazer o que realmente está no meu sangue.

WOTM: O primeiro nome do Uganga foi Ganga Zumba, certo? Por que essa escolha atípica, e o que levou à mudança de nome?
MANU: O nome Ganga Zumba foi sugerido pelo Leospa, nosso primeiro vocalista. Eu e ele praticávamos capoeira e nas rodas tinha uma ladainha bem legal que falava de Ganga Zumba, líder do Quilombo dos Palmares e tio de Zumbi. Pesquisamos um pouco sobre sua história, achamos interessante e aceitamos batizar a banda assim. Ficamos com esse nome até 99, quando, em meio a várias tretas internas, descobrimos que havia outro grupo detentor desse registro. Se não me engano era uma banda de Reggae da Bahia. Pra não perder a conexão com o primeiro nome eu dei a ideia de mudarmos para U-ganga, inicialmente grafado com hífen. Era uma variação de como as pessoas mais próximas se referiam ao Ganga Zumba, “O Ganga”, porém mudando a letra “o” por “u” de união. Sem união uma banda não se mantém. Uganga não significa nada, mas anos depois descobrimos que a deusa hindu do rio Ganges (Índia) se chama Ganga. Achamos isso bem legal (risos).

WOTM: Geralmente as bandas de Metal, seja lá de qual país sejam oriundas, optam por compor letras em inglês, tanto pela estética da língua se aplicar ao estilo quanto pela presença global da língua, sobretudo no mercado fonográfico. Por que o Uganga optou por compor em português?
MANU: Antes de tudo, não nos vejo como uma banda puramente Metal. Com certeza o estilo é parte da nossa base, das nossas raízes mais profundas, mas o Punk e o Hardcore são igualmente importantes pro som do Uganga. Sobre cantar em português, essa sempre foi nossa opção desde o início. Eu escrevo a maioria das letras e me expresso melhor na nossa língua, apesar de já ter composto e tocado em bandas que optam pelo inglês. No caso do Uganga, é parte da nossa identidade e seguiremos assim independente de onde estiver indo a maioria. Concordo que o inglês é a língua predominante no estilo, mas hoje em dia é comum você ver bandas cantando em finlandês, sueco, espanhol, norueguês, entre vários outros idiomas, e sendo muito bem recebidas em todo o mundo.


WOTM: Que tipo de obstáculos já sentiram, mesmo que de forma implícita, por cantarem em português? Vocês sentem alguma resistência por parte de público ou mesmo mídia?
MANU: Cara, obstáculos para bandas underground são vários, mas em relação especificamente a cantar em português, não me lembro de enfrentarmos resistência. Claro que tem uma parcela do público de música pesada que não aceita nada fora dos clichês, fora do óbvio, e criticam tudo o que não entendem. Porém pessoas assim não nos interessam. Fazemos música para nós seis, antes de tudo. Fora disso gosta quem quiser.

WOTM: A formação do grupo permanece intacta há mais de dez anos, sendo que as alterações não modificaram um por outro, e sim somaram. O que era um quarteto à época do primeiro álbum (“Atitude Lótus”, 2003) é hoje um sexteto. Qual o segredo?
MANU: Sinceramente, não sei (risos). Fazer música, ainda mais música pesada no Brasil, não é algo fácil de explicar. Se for pensar em uma palavra pra definir esse segredo, eu diria que é amor. Se o seu coração não está naquilo, não adianta buscar a fórmula perfeita. O Rock 'n' Roll não é uma ciência exata. Temos uma unidade muito forte e, enquanto for assim, a banda seguirá firme.

WOTM: Em “Atitude Lótus” (2003), a banda tem uma orientação mais leve, posicionada em estilos como Ska e Skate Rock, ainda com íntimos flertes com o Rap. A partir de “Na Trilha do Homem de Bem”, a sonoridade muda quase completamente, situando-se mais no Hardcore, Punk, e isso se desenvolveria até o Thrashcore e Groove Metal atuais. Mudanças naturalmente levam à indagação: por quê? Quais foram os incentivos para uma mudança que altera não apenas a musicalidade em si, mas também o público-alvo?
MANU: Nunca buscamos um público-alvo - isso é fato. Já dividimos palco com Racionais MC’s, bandas de Black Metal ou grupos de Indie Rock (risos). Na real, isso rola até hoje! É claro que se você curte Rock pesado, é mais fácil gostar do Uganga, mas fazemos música para nós mesmos e para quem quiser curtir, independente de tribo, seita ou clã (risos). Nesses mais de 20 anos, nós deixamos a nossa vontade nos guiar e nada mais além disso. Concordo com sua análise sobre o primeiro álbum, ele realmente é bem mais leve que os outros trabalhos e, como disse, é fruto de outra formação e de uma banda que ainda buscava se encontrar. Já no segundo CD, realmente a veia Hardcore/Punk é bem latente, mas nele tem uma faixa como “Procurando O Mar”, que é puramente Thrash Metal. Assim como em “Opressor”, o Hardcore se apresenta forte numa música como “Guerra”. Evolução técnica também é algo que fez nossa música ficar mais trabalhada, talvez mais Metal.  Acho que hoje sabemos condensar melhor nossas diversas influências no som do Uganga e soar de maneira mais uniforme e pessoal. Criar uma assinatura leva tempo.

WOTM: Em “Opressor” (Sapólio Rádio/2014), o Uganga claramente amadureceu bastante; o som ganhou consistência e coerência que se destacam em meio aos discos anteriores, que são excelentes. Por sinal, a capa seguiu o passo, pois é belamente elaborada e conceitual. Qual a mensagem que ela visa transmitir?
MANU: A ideia da capa veio de uma entidade imaginária, o Opressor, algo como uma versão Punk da deusa da destruição Kali (risos). O conceito é esse, uma entidade criada e fortalecida a partir das fraquezas do ser humano, dos vícios, da luxúria, da violência, da corrupção, da fé cega, enfim, de toda essa merda que convivemos dia a dia. A capa foi criada pelo Beto Andrade, um artista de Belo Horizonte, e o encarte ficou por conta do Marco (batera do Uganga e meu irmão). Ambos souberam retratar muito bem o conceito do álbum.


WOTM: O disco apresenta também algumas passagens dialogais, aparentemente extraídas de filmes, entrevistas e afins. Quais as origens desses trechos? As músicas foram compostas em torno deles?
MANU: Desde o início usamos vinhetas de ligação em nossos trabalhos. Não em todas as músicas, claro, mas de forma pontual em determinadas partes. Essas ideias vêm depois das composições finalizadas, quando montamos o tracklist e decidimos onde e o que usar. No “Opressor” temos trechos de filmes nacionais e estrangeiros, uma parte de um documentário sobre nossa área e até instrumentos tocados por nós mesmos, como os atabaques na faixa “Noite”.

WOTM: Quais as referências musicais para o desenvolvimento da sonoridade em “Opressor” (já que é o disco mais Metal da discografia), e que tipos de assuntos influenciaram a composição das letras?
MANU: Eu diria que as nossas referências são as mesmas, porém melhor inseridas em nossa música. Temos gostos musicais variados e estamos sempre ouvindo muita coisa, muita velharia, mas também muita banda nova, depende do integrante. Em se tratando especificamente de Metal/Hardcore/Punk, algumas bandas devem ser citadas quando falamos do Uganga: Black Sabbath, Motörhead, Faith No More, Venom, Exodus, Discharge, Dorsal Atlântica, Suicidal Tendencies, Helmet, Prong, Celtic Frost, Sarcófago, Mayhem, Sepultura, Metallica, Vulcano, Biohazard, entre várias outras são e sempre serão grandes influências pra gente. Sobre as letras, a inspiração desde o início é o que está a minha volta e as minhas percepções, positivas ou não, dessas coisas. No caso do “Opressor”, acho que o planeta vive um momento de imbecilidade muito grande, no qual incluo todos nós, e isso ditou os rumos do texto.

WOTM: Vocês já realizaram duas turnês europeias, algo que nem sempre bandas brasileiras conseguem – e ainda por cima graças a músicas cantadas em português. Como foi a recepção dos europeus nos shows? Como foi serem os gringos da vez?
MANU: Não sei se foi graças a cantar em português que essas tours rolaram, mas com certeza isso não nós atrapalhou em momento algum. A recepção nas duas vezes foi excelente, sem demagogia nenhuma. Claro que sei que a maioria das bandas fala isso quando volta de lá, mas no nosso caso é a mais pura realidade e os vídeos estão aí pra provar isso, assim como nosso CD ao vivo, gravado no “Razorblade Festival” (Alemanha), quando de nossa primeira tour gringa. Tocamos em vários países para casa cheia, casa vazia, de segunda a segunda e pra plateias distintas. Não importa se eram punks, roqueiros das antigas, thrashers, a galera do Metalcore ou 'trues' da velha guarda, nós sempre fomos bem recebidos. Acho que em parte se deve a realmente sermos uma banda energética e verdadeira no palco e as pessoas percebem isso, mas também devemos muito ao caminho pavimentado na Europa pela cena clássica nacional dos anos 80. Bandas como Vulcano, Taurus, Overdose, Dorsal Atlântica, Ratos de Porão, Holocausto, Cólera são adoradas por um público enorme.

WOTM: E o futuro? Há planos para um novo álbum? Um eventual novo disco seguiria a linha de “Opressor” como um ponto de referência conceitual, ou as composições tomam forma de maneira mais natural e livre, como se elas pegassem a mão do compositor e o guiassem – e consequentemente a personalidade Uganga seria resultado inevitável?
MANU: Estamos neste momento focados na composição do próximo álbum que já está bem adiantado. Ainda temos algumas datas da tour do “Opressor”, tocaremos em alguns festivais aqui no sudeste/centro-oeste, faremos duas semanas no nordeste, mas de novembro pra frente vamos parar e nos dedicar 100% a finalizar o novo álbum. Acho que ele será uma continuação natural do “Opressor” porém com três guitarras e algumas novidades, pois zona de conforto não nos interessa. O novo guitarrista, Murcego González, trouxe uma pegada mais clássica que se encaixou muito bem com o estilo mais Thrash do Christian e do Thiago. Será nosso primeiro trabalho como sexteto e está soando muito bem. Com certeza podem esperar um álbum bastante pesado! O CD deve sair ainda no primeiro semestre de 2017 aqui e muito provavelmente na Europa. Antes, porém, a Sapólio Rádio lança até o final do ano um DVD comemorando mais de duas décadas de banda com um documentário e um show bem especial aqui na nossa área .

WOTM: Para finalizar, Manu, informe como o fã pode proceder para adquirir o merchandising oficial da banda.
MANU: É só acessar o site da Incêndio Shop que cuida do nosso merchandise www.incendioshop.com.br. No Facebook do Uganga também tem um link pra loja virtual ou você pode ir direto no site da banda www.uganga.com.br e conferir outras coisas também tipo vídeos, agenda, fotos, etc.

WOTM: Certo! Manu, muito obrigado pelo momento dedicado a essa entrevista. Desejo sucesso à banda, que faz som de qualidade. Que venham novas músicas e novas turnês ao Uganga! O espaço está livre para você deixar uma mensagem aos leitores:
MANU: Eu agradeço a oportunidade de poder falar um pouco, ou bastante, sobre o Uganga (risos). Se cuidem e nos vemos na estrada!

Mais informações:
www.uganga.com.br
www.twitter.com/uganga
www.youtube.com/ugangamg
www.facebook.com/ugangaband
www.sapolioradio.com.br

Entrevista por:
Walker Marques
Warriors Of The Metal

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- Todas as novidades sobre o Uganga podem facilmente ser acompanhadas através da página no Facebook, onde publicam fotos, agenda, e todo tipo de informações relacionadas à banda! O disco mais recente, "Opressor", pode ser encontrado para audição também no Spotify!


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Roadie Metal Volume 7 (2016)

Quantas coletâneas lançadas em formato físico, mesmo promovidas por gravadoras, chegam a sete edições? Provavelmente, bem poucas. Essa marca, o idealizador Gleison Junior conseguiu alcançar com louvor através das coletâneas Roadie Metal, e não parará por aqui; o Volume 8 já se encontra em fase de seleção de bandas, e o primeiro DVD da coletânea de videoclipes (projeto inédito no país) já está com o setlist fechado. Todo esse empenho vem do sucesso repercutivo de um projeto criado por uma pessoa comprometida com o evidenciamento do Metal e Rock nacionais, preocupada em inserir os nomes das bandas envolvidas nos mais diversos veículos de imprensa especializados.

Lançada em junho de 2016, a coletânea "Roadie Metal Volume 7" é, como de costume, distribuída gratuitamente para os veículos de imprensa do Brasil e também no exterior, e o público em geral também pode obter cópias ao participar de sorteios realizados durante o programa de webradio Roadie Metal, A Voz do Rock. Novamente, trata-se de uma coletânea dupla, com 17 bandas no primeiro CD e 18 no segundo, totalizando mais de duas horas e meia de muito Rock 'n' Roll.

Normalmente, nos volumes anteriores, bandas de diferentes gêneros se misturavam ao longo dos dois CDs, havendo alternâncias entre algo considerado mais leve e algo considerado mais pesado. No entanto, no Volume 7, Gleison Junior optou por dividir o setlist mais ou menos em blocos, de modo que se tenha bandas de um mesmo estilo seguidamente, e poucas alternâncias rotulares. Como consequência, o CD 1 se mostra mais calcado no Heavy Metal e no Hard Rock, enquanto o CD 2 se especializa nas bandas que exploram os gêneros mais extremos, com guturais. É destacável também a grande quantidade de bandas cantando em português presentes aqui, uma tendência que aparentemente só cresce.

O primeiro disco começa, de cara, com uma excelente quadra de Heavy Metal, através das bandas Syren, Tropa de ShockVálvera e Dolores Dolores. As duas primeiras, pegadas, apresentam claras referências ao Iron Maiden em suas formas de compor (e isso é bem sabido por quem conhece o Syren, já que a banda carioca não é nenhuma desconhecida), enquanto o Válvera traz a primeira música em português do set (e que competência!). Já o Dolores Dolores, embora faça majoritariamente Heavy Metal, apresenta também nuances de Hard Rock por meio de sua canção "I Was Wrong", que quebra o ritmo forte que vinha sendo imposto pela trinca anterior, funcionando tanto como um descanso aos ouvidos quanto como introdução à sessão de Hard Rock que vem a seguir graças à sua própria tendência Hard.

É aí que vem duas canções de Hard Rock: "Let It Go", do Underload, que tem o clima mais festivo e dançante dos anos 70, e "Eleição ou Gozação", do Makinária Rock, que, com letras em português, entrega uma canção irônica com um Hard mais energético e agressivo que flerta com aquele dos anos 80, encaixando-se perfeitamente no que pode ser chamado, de forma genérica, de Rock 'n' Roll. Na sequência, o Heryn Dae quebra a rápida sessão Hard Rock ao trazer de volta o Heavy Metal, porém com uma pegada mais tradicionalista, digna do NWOBHM, mas também apresentando uma veia épica no refrão, mais "manowariana".

A oitava música, que dá nome à própria banda Overhead, resgata o Hard interrompido anteriormente com direito a letras em português e ainda mais peso do que as primeiras do estilo, de instrumental a vocais - esses últimos bem raivosos. Os estilos que até então se encontravam sendo executados separadamente se unem com a canção "Lost Seasons", do Normandya. Trata-se de um típico Hard 'n' Heavy, porém, não tão chamativo de um modo geral, infelizmente.

Até aqui, a coletânea segue uma linha lógica que deixa o ouvinte preparado para cada vez mais peso tradicional. Contudo, o Fenrir's Scar se insere em meio a toda essa tradicionalidade para provocar surpresa com seu inesperado Symphonic/Gothic Metal cantado com vocais femininos e ocasionais masculinos. A produção poderia ser melhor, mas a música é boa e contribui com uma brisa de diferenciação com toda essa suavidade feminina e a "atmosferização" dos teclados.

O Blessed In Fire, por sua vez, com sua música autointitulada, apresenta outro tipo de tradicionalidade: a do Speed Power Metal. Sua abordagem mais energética motoriza o estilo calmo da canção do Fenrir's Scar e prepara terreno para um canção que, se o tempo de duração for visto antes, pode provocar desânimo, especialmente por estar em uma coletânea. "The Dance of Fire", do Apeyron, tem nove minutos e seu inconsciente diz que será uma experiência Progressiva e talvez chata... mas que nada! Interessantemente, é um dos destaques do disco um. A primeira metade é repleta de um misterioso e épico Heavy/Doom Metal de claras raízes sabáticas, cantada heroicamente enquanto teclados se manifestam na base. A canção ascende em ritmo a partir da segunda metade, convertendo-se em uma pegada pesada e melódica que bebe em fontes de Heavy Metal tradicional!

O S.I.F. já entrega em "Puritania" mais uma canção destoante na coletânea com um revoltado Hardcore cantado por uma mulher. É a segunda participação feminina e a quarta canção em português. O estilo tem sequência com Gravis em "Ladrão", mais uma canção em português, mas de Hardcore mais dinâmico e heterogêneo do que o do S.I.F.. Excelente trabalho.

A trinca final Vate Cabal, com um bom Rock, Underhate, com um Thrash Metal similar ao do Metallica, e Eduardo Lira, com um lindo Heavy Metal/Shred instrumental encerra bem a primeira parte da coletânea, disposta a entregar estilos considerados mais leves (tendo o Extremo como comparação antônima) e vocais limpos, com ou sem drives.

O segundo CD, por sua vez, como supracitado, desbrava as áreas mais mortíferas do Metal. O Metal Extremo começa com expressiva classe Death/Thrash Metal através da faixa "Juggernaut", da conhecida banda Voodoopriest, do vocalista Vitor Rodrigues (ex-Torture Squad). Até a quinta faixa, temos alternâncias entre Death Metal e Thrash Metal, mas sempre com algo mais. A excelente banda fluminense Monstractor, por exemplo, acopla Southern Metal ao seu Thrash, não abrindo mão também da geração de uma sensação Death metal bem lá no fundo. O Forkill executa Thrash Metal mais tradicionalizado; o Kryour une, assim como o Voodoopriest, Death e Thrash Metal, mas ainda com o acréscimo de estilos modernos, aproximando-se do Metalcore (vale ressaltar a excelente produção da música); o Criminal Brain, por outro lado, contribui com Death Metal puro, mas bem mais profundo do que tudo o que estava em execução até então. Avassaladora e densa, "Victim" é uma cansão bem dinâmica e cavernosa.

Não bastasse todo o esmagamento das cinco primeiras bandas, a sexta, Handsaw, ainda se destaca por investir nos subgêneros mais "nojentos" do Death Metal. Absolutamente visceral, "Supreme Being" é uma faixa de Technical/Brutal Death Metal interpretadas com técnicos vocais beirando o pig squeal. Matador.

O Dying Silence já deixa a peteca cair um pouco no que diz respeito à produção, mas mantém viva a coerência Death Metal que vinha sendo estabelecida. Juntamente do rótulo, a banda ainda hibrida o Hardcore e apresenta a primeira música em português no disco dois.

A partir da oitava faixa começa a sessão mais centrada no Thrash Metal em si. Ela é aberta pela banda Demolition, que, por meio da canção "Infected Face", executa um Thrash Metal mais aberto, com riffs melodiosos e bem construídos, flertando com o Heavy Metal mais longe da velha guarda. Sequenciando o Thrash, vem então o conjunto Deadliness com "Guerreiros do Metal", a segunda em nossa língua no CD 2. Trata-se de um Thrash Metal mais desenhado e dinâmico, a exemplo do Demolition. Já o Hellmotz, décima banda, insere bastante Southern Metal na musicalidade, deixando o Thrash Metal como estilo complementar. Som que, de certa forma, remete ao faroeste. Porradeiro e técnico.

Death Metal volta a emergir com o destacável trabalho da banda Death Chaos na música "House of Madness". O destaque não se faz merecido apenas pela música ser boa em si, mas pela clara noção de melodia que a banda tem, distanciando-se de retilinidades e tornando o Death mais interessante e harmônico. Tem cadência sem perder peso, sem falar dos guturais, impressionantemente cavernosos. Grande trabalho.

Com o Melanie Klain e a faixa "Lavagem Cerebral", Thrash Metal e letras em português ascendem novamente. Mas enquanto todo o disco era cantado em gutural até aqui, esses paulistas trazem vocais fora desse campo monstríaco, mas ainda assim sujos, com ampla carga de drives. A sonoridade é moderna e pegada, exibindo um Thrash com gratas influências de Nu Metal que exalam interessantes referências ao Slipknot em uma bem feita música, cheia de momentos diferentes.

O Psychosane abre alas para o trecho Stoner Metal do CD. "Road" é uma música pesada e interessante, também cantada no âmbito limpo driveado. Pegada forte e solo de guitarra simplesmente foda. Agregou muito ao disco. Nessa mesma linha Stoner, mas com mais cadência e alternâncias entre vocais driveados e guturais fechados, a molecada do As Do They Fall deixa sua marca. "Nemesis" é uma faixa coerente e inteligente, onde cada técnica vocal aparece em seu devido momento, sem provocar sensações de deslocamento.

De volta ao Thrash Metal, já ouviu um Speed Thrash cantado em português? Pois é. É isso que o Dioxina faz na faixa "Sombras". A naturalidade da língua é tanta que você nem perceberia. A seguir, é a vez da trinca final de bandas Heavenly Kingdom, onde a produção deixa a desejar mas o Thrash é bom e tem Slayer como referência; South Hammer, cujo Death Metal motoqueiro faz parecer que a capa do disco foi elaborada pensando neles; e Crush, que encerra definitivamente o Volume 7 da forma como ele se propõe a ser: brasileiro e em português.

São um total de 35 bandas, e naturalmente algumas se destacam em meio a outras, sempre resguardados os gostos pessoais. No CD 1, destacam-se Syren, Válvera, Underload, Apeyron, Gravis e Eduardo Lira, enquanto no CD 2 vale ressaltar as bandas Voodoopriest, Monstractor, Kryour, Handsaw, Death Chaos e Psychosane.

A arte gráfica ficou novamente a cargo do artista Marcelo Nespoli, que fez um ótimo trabalho, como se espera dele. O encarte não ficou em um compartimento separado, a exemplo das edições anteriores, precisando ser guardado atrás de um dos CDs em seus compartimentos. O livreto também não tem verniz no material, dando aquele conhecido brilho de papel fotográfico, mas ainda assim, ficou muito bonito, e até mais fácil de manusear. Nele estão informações sobre todas as bandas envolvidas, bem como páginas de agradecimentos, onde é uma felicidade para mim ter meu nome mencionado. Apoio totalmente o projeto, que deixa a zona do "queria fazer" e entra na zona do "eu faço". Atitude.

A coletânea Roadie Metal Volume 7 é mais uma realização da Roadie Metal, que também é um site de notícias, assessoria de imprensa de bandas e programa de webradio. As transmissões acontecem sempre ao vivo, através do www.canalfelicidade.com e pelo livestreaming na página oficial no Facebook, todas as quintas, das 20:45 às 23:00, e aos sábados, das 14:45 às 16:15.

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CONTATO:
E-mails: gleison@roadie-metal.com
walker@roadie-metal.com
lbrauna@roadie-metal.com

CD 1:
01 - Syren: Motordevil
02 - Tropa de Shock: Inside The Madness
03 - Válvera: Cidade Em Caos
04 - Dolores Dolores: I Was Wrong
05 - Underload: Let It Go
06 - Makinária Rock: Eleição ou Gozação
07 - Heryn Dae: Heryn Dae
08 - Overhead: Overhead
09 - Normandya: Lost Seasons
10 - Fenrir's Scar: Downfall
11 - Blessed In Fire: Blessed In Fire
12 - Apeyron: The Dance of Fire
13 - S.I.F.: Puritania
14 - Gravis: Ladrão
15 - Vate Cabal: A Extração da Pedra da Loucura
16 - Underhate: Revolution Day
17 - Eduardo Lira: Sunrise

CD 2:
01 - Voodoopriest: Juggernaut
02 - Monstractor: The 4th Kind
03 - Forkill: Let There Be Thrash
04 - Kryour: Chaos of My Dream
05 - Criminal Brain: Victim
06 - Handsaw: Supreme Being
07 - Dying Silence: Sem Conserto
08 - Demolition: Infected Face
09 - Deadliness: Guerreiros do Metal
10 - Hellmotz: Wielding The Axe
11 - Death Chaos: House of Madness
12 - Melanie Klain: Lavagem Cerebral
13 - Psychosane: Road
14 - As Do They Fall: Nemesis
15 - Dioxina: Sombras
16 - Heavenly Kingdom: Hungry Misery and Pain
17 - South Hammer: Harley My Motorcycle
18 - Crush: Pedrada

Download (CD 1)
Download (CD 2)
Download (os dois juntos)

Os downloads disponibilizados acima são diretamente autorizados pela Roadie Metal.

Ethernity - Discografia Comentada

O Ethernity é uma banda de Power Metal originária da Bélgica, fundada em 2000 e que tem em sua formação o diferencial de contar vocais femininos executados pela excelente Julie Colin, que ingressou no conjunto em 2005, ano em que lançaram sua primeira demo, All Over The Nations. Além de Julie, a banda com Thomas Henry (guitarra), Gregory Discenza (guitarra), François Spreutels (baixo), Nicolas Spreutels (bateria) e Julien Spreutels (teclados). Julien e Nicolas são irmãos e primos de François.

Já no ano seguinte, a banda lançou seu primeiro álbum, The Journey, de forma independente e seguiu na ativa em busca de uma oportunidade.

Em 2008, lançaram mais um trabalho de forma independente, dessa foi o compacto Quest Of Forgiveness.

No intuito de alcançarem um público maior e terem maior visibilidade, a banda lançou em 2015, o seu segundo disco, Obscure Illusions, em formato digital.

E acertaram em cheio, com um grande álbum, tanto na parte instrumental, quanto pelos ótimos vocais de Julie. O Ethernity escolheu divulgar as faixas Entities e Shadows On The Wall, mas todo o disco é muito bom.

Trata-se de uma banda que pode não ser inovadora, mas que executa muito bem a sua proposta e que merece um pouco mais de espaço na mídia, bem como mais atenção do público em geral.


 All Over The Nations (Demo) - 2005

01 - Introduction
02 - Mysteries Of My Life
03 - Come With Me
04 - In My Dreams, In Your Heart
05 - All Over The Nations

 The Journey - 2006


01 - Prelude
02 - Fly Away
03 - The Fallen One
04 - Winter Lullaby
05 - Dreamcatcher
06 - Starlight
07 - Last Wish
08 - The Revelation
09 - Miracles
10 - The Journey

 Quest Of Forgiveness (EP) - 2008

01 - Shadows On The Wall
02 - Alone
03 - Angels Are Calling
04 - Your Darkest Hour
05 - Back To Life
06 - New Horizon
07 - Ex Dominatus Ad Liberatio
08 - Quest Of Forgiveness

 Obscure Illusions - 2015

01 - False Lamentations
02 - Entities
03 - Shadows On The Wall
04 - Secret Door
05 - Never Thought (You Would Make Me Go)
06 - Rancor
07 - Alone
08 - Broken Memories
09 - After All Has Turned To Pain
10 - XIII
11 - Interlude
12 - Obscure Illusions

Ouvir (Spotify)