Social Icons

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Uganga - Discografia Comentada

De alguns anos pra cá, tem emergido com a força de um furioso pé na porta um número de bandas brasileiras que compartilham certas características em comum: Metal (ou alguma vertente Core) aliado a um clima de periferia, ilustrado ainda com "letras cabeça". É uma onda de bandas interessadas em fazer um som identificado com o povo, com o subúrbio, acrescentando ainda uma especial preocupação com as letras, procurando retratar a realidade e protestar contra os sofrimentos da vida cotidiana e moral, e também contra o sistema, sempre com a eficácia de um tiro a queima-roupa. Bandas como Project46 e Worst são grandes representantes atuais desse modelo sonoro, mas não as únicas, é claro - há outras, sobretudo uma bem mais antiga, cujo som galgou com ainda mais intimidade pela atmosfera periférica: o Uganga.
Veterano, o quinteto das cidades de Araguari e Uberlândia, no Triângulo Mineiro, construiu um forte nome para si, acumulando quatro álbuns e um live lançados, excelente repercussão principalmente dos discos mais novos e duas turnês europeias. Toda a safra de frutos maduros e positivos não veio fácil, nem por acaso: é resultado do entrosamento de uma formação estável há mais de 10 anos, maturidade e constante refinamento da sonoridade. Falar neste último atributo é interessante, já que a banda começou fazendo algo parecido, mas sensivelmente diferente do que é feito atualmente. Migraram de uma postura fortemente calcada no Skate Rock, Ska, Punk Rock e Hip Hop para outra mais agressiva, assentada no balizamento do Groove Metal, Thrashcore e Hardcore, sem se desgarrar completamente dos antigos elementos. A mudança fez bem, embora a banda sempre tenha demonstrado bastante qualidade. Por isso, é um dos nomes a ser lembrados nessa onda de bandas que exploram os diversos tipos de Core (Thrashcore, Metalcore, Hardcore, Deathcore).
Formada no ano de 1993, a banda composta atualmente por Manu "Joker" (vocal), Christian Franco (guitarra), Thiago Soraggi (guitarra), Raphael "Ras" Franco (baixo) e Marco Paulo Henriques (bateria) começou com o nome Ganga Zumba e dessa forma lançou três demos: "Antes Que O Mal Cresça", em 1997; "100 Pressa, 100 Medo", em 1998; e "Couro Cru", em 1999.
Após a terceira demo, algumas mudanças aconteceram nos interiores da banda, inclusive no que tange ao próprio nome. Foi quando passaram a ser conhecidos como são atualmente, porém com grafia ainda diferente: U-ganga. Sob o novo título, enfim veio o álbum de estreia em 2003, nomeado "Atitude Lótus" e lançado de forma independente.
O desavisado que ouve esse disco pode chegar a uma de duas conclusões, talvez ambas: ou se trata de uma banda santista, ou de um compilado de músicas pouco conhecidas do início de carreira do Charlie Brown Jr.. É cristalino como a banda de Chorão é a principal referência dos mineiros, muitas vezes de forma até abusiva. Pra quem gosta, como eu, isso não é exatamente um problema - até faz ter vontade de, ao fim dos 53 minutos de álbum, pegar o "Nadando Com Os Tubarões" (2000) ou o "Transpiração Contínua Prolongada" (1997) para ouvir. Por outro lado, também revela uma banda que demonstrava potencial, mas ainda tentava se encontrar.
A primeira tentativa do Uganga foi bastante diversificada, assim como foi o Charlie Brown Jr, naquele tempo. Cada acorde, cada detalhe das percussões, cada elemento musical exalam brasilidade em empolgadas composições - e digo empolgadas pela criatividade, não pelo astral das músicas, necessariamente. O andamento das faixas varia de acordo com a passagem, ou com o modelo rotular da música. Em toda sua trajetória, o disco apresenta forte calcamento no Skate Rock, no Ska e no Rapcore, com ocasionais inclinações ao Reggae, Hardcore e Punk Rock, entre outros elementos menos frequentes. Ou seja: temos Rock de fato - mas sem acordes complexificados - cantado em vocal limpo de estilo Rapcore, num jeitão um tanto "gangsta", gerando um clima de subúrbio aguçado por incidências samples de DJ que chegam a vagamente lembrar o Linkin Park também daquela época.
Vinhetas marcam presença entre faixas, sejam instrumentais ou em diálogos, e essa característica seguiria acompanhando a banda durante toda a carreira.
Os vocais de Manu "Joker", por sua vez, são idênticos aos de Chorão, isso há de ser dito. São bem reverberados e oscilam na velocidade e no tom com bastante frequência, dando energia ou cadenciando, mas sem exageros, já que o vocalista não exige de si mesmo. Nos momentos mais amenos, canta grave, mais como se estivesse narrando. O efeito é bem "mano".
Trocando em miúdos, o disco é bem diferente do que se tornaria o Uganga mais tarde, e nem por isso deixa de ter qualidade, apesar da produção que deixa um pouco a desejar. As músicas são fáceis de assimilar, identificáveis já na primeira ouvida. Realmente, "Atitude Lótus" é um disco muito agradável, e talvez se não fosse o primeiro trabalho dos mineiros ou tivessem conseguido maior repercussão imediatamente, poderia até receber um "Acústico MTV". Ele clama por isso!
Três anos mais tarde é lançado o segundo álbum de estúdio, "Na Trilha do Homem de Bem", agora através da Metal Soldier Records. O nome do selo é uma boa pista sobre o que é feito nesse trabalho - começa a transição sonora.
Agora a banda soa mais vigorosa e pesada, além de mais objetiva. Aquela excessiva atmosfera Charlie Brown Jr. perde espaço para uma sonoridade que dialoga de perto com o Metal, mas que encontra seu lugar ao sol num integral Hardcore/Punk Rock - e isso de certa forma se reflete na duração do álbum, que tem pouco mais de meia hora. No entanto, muitos elementos remanescentes de "Atitude Lótus" ainda se escancaram sem qualquer timidez, como a presença de samples de DJ, muitas passagens de Rapcore e até alusões ao Ska e ao Reggae. Ainda assim, nada que prejudique as canções - pelo contrário, torna elas ainda mais completas e ricas.
Claramente, o ainda "U-ganga" ganhou mais personalidade e força musical com esse disco. Aquela clara brasilidade do disco anterior foi embora, mas o clima de periferia se manteve através da manutenção das letras "cabeça" e a preservação da timbragem e estilo do vocalista Manu "Joker", que ainda canta de maneira bem "mano". No entanto, as mudanças que a banda começou a empregar não afetaram apenas o instrumental, que ficou mais pesado e com riffs melhor trabalhados, mas também o vocal, que começou a aplicar drives e elevar ainda mais os tons. Era o prelúdio mais bruto do que a banda esmerilharia melhor em discos posteriores.
Novamente, trata-se de um excelente álbum de uma banda mais madura, convincente e segura. Dá gosto de ouvir e poderia até ter duração mais longa. "Na Trilha do Homem de Bem" aproxima a banda do público roqueiro, punk e metaleiro, e os integra no rol de bandas da periferia que conquistariam o país mais tarde.
Mais quatro anos se passaram e então mais um álbum chegou. Novamente através da Metal Soldier Records, "Vol. 3: Caos Carma Conceito" foi lançado em 2010 e conquistou não apenas o Brasil, mas também o outro lado do Atlântico.
Não é pra menos: o disco é absolutamente convincente e expressa energia, confiança e vigor nunca antes demonstrados pela banda de maneira tão fantástica. A partir daqui, não apenas a grafia do nome se atualizou (agora sem hífen), mas também a musicalidade, que migrou para o que os tornou especialmente conhecidos e ainda praticam hoje. O que é exposto em "Vol. 3" é um agressivo Thrashcore/Groove Metal de forte ascendência Hardcore/Punk, trazendo ainda lampejos instrumentais de Death Metal e Thrash Metal. Claro, aquele pé suburbano segue chutando cadeiras e mesas, mas dessa vez esse clima está muito melhor aproveitado e trabalhado.
O instrumental se inflamou. É Metal. É Core. Seu engrandecimento se dá através de composições empolgadas, com riffs groovados, bem arquitetados e vigorosos, empregados em músicas acaloradas, de andamento pegado, que chamam o moshpit. Os elementos dos primeiros álbuns ainda aparecem, mesmo com a supremacia das guitarras distorcidas, do pulsante baixo (cujas linhas são compostas com beleza e muito bem inseridas, diga-se de passagem) e da violenta bateria. Passagens mais brasileiras emergem ocasionalmente em quebras de ritmo, samples enfeitam aqui e acolá, interlúdios dialogais sintonizam o ouvinte com as faixas...
Solos de guitarra eram coisas escassamente praticadas pelo Uganga, mas aqui eles dão o ar da graça com mais liberdade. Sempre achei solos essenciais, por isso a presença deles aqui, sobretudo num disco porrada, é muito bem-vinda. Eles são muito bem executados e aparecem em faixas como "Fronteiras da Tolerância", "ISO 666" e "Sua Lei, Minha Lei".
Toda essa excelente agressividade é acompanhada de perto pelo vocal, que também teve qualidade elevada. As linhas são cantadas quase integralmente com furiosos drives, rasgados que expressam o sentimento, a revolta, a indignação. Poucas vezes o vocal é limpo e em tom mais baixo. Notáveis são também os constantes acionamentos dos backing vocals que, assim como no Punk, entram em coro gritando palavras-chave das letras. O aproveitamento dessa artimanha só vem a trazer mais refinamento, tornando a característica da banda ainda mais acentuada.
A excelência de "Vol. 3 Caos Carma Conceito" pôs o Uganga em merecida evidência e rendeu à banda sua primeira turnê europeia. Foram 27 dias de excursão através de sete países: Bélgica, Polônia, Suíça, República Tcheca, Alemanha, Espanha e Portugal.
Em 2013, a banda voltou à Europa para mais uma bateria de shows em países como França, Suíça, Polônia, Eslovênia, Áustria, Itália e Hungria. Tal marco não poderia passar em branco. Por isso, algumas apresentações foram registradas e inseridas no disco ao vivo "Eurocaos", lançado mais tarde, naquele mesmo ano, pela Metal Soldiers Records. O trabalho compreende apresentações no Razorblade Festival em DatteIn, na Alemanha, e no Side B Lounge Live Club em Benavente, Portugal.
Agora de contrato assinado com a Sapólio Rádio, o Uganga apresentou mais um relevante lançamento. Distribuído pela Som do Darma, "Opressor", o quarto álbum de estúdio dos mineiros e apresenta uma atmosfera carregada, com pesar.
Se "Vol. 3" foi um álbum intenso e "desenfreado" musicalmente, como um verdadeiro atropelamento, o mesmo não pode ser dito na mesma proporção sobre "Opressor". Dessa vez, a banda está de postura um pouco diferente, embora se aproveite dos mesmos recursos. Vemos uma banda mais dosada, interessada em riffs bem desenhados e variados, sem deixar o bem-vindo peso de lado. Claro, uma vez que a musicalidade apresentada aqui é primordialmente um Thrashcore com fortíssimos grooves nos riffs, dificilmente o resultado seria fraco e leve. A aura é densa, realmente carregada, negra, como nunca havia sido antes. Há um claro gerenciamento da maturidade acumulada ao longo de mais de 20 anos de carreira, levando a uma musicalidade realmente pensada desde a arquitetura das composições às expressivas letras.
Certamente a transposição do ambiente suburbano não poderia faltar na musicalidade. Os grooves são "streeteiros", e o vocal, mais grave e 'driveado', imprime uma abordagem obscura, acompanhando a densidade instrumental. Manu "Joker" aplica tom mais baixo do que o aplicado no disco anterior, em excelente comunhão com um disco que esbanja solidez. Backing vocals também são ativos, sempre nos conhecidos coros que, fortes, chegam a fazer o peito estufar.
"Opressor" compreende uma coleção de 13 músicas de personalidade, cobertas pelo manto da experiência de uma banda entrosada há muito tempo. Entre brasilidades, percussões, samplers, interlúdios dialogais e muito peso, o disco convence verdadeiramente com seus 40 minutos de duração. Temos direito a até um excelente cover de "Who Are The True?", do Vulcano, banda pioneira do Metal Extremo no Brasil e uma das referências dos rapazes do Uganga.
Gravado no estúdio Rocklab em Goiânia (GO) e produzido por Gustavo Vazquez (que já trabalhou com bandas como Black Drawing Chalks, Krow, Hellbenders e Macaco Bong), o disco teve sua detalhada capa e contracapa desenhadas pelo talentoso Bento Andrade.
A discografia dos mineiros do Uganga - embora seja curta em relação ao tempo de estrada da banda - é uma prova de que entrosamento, maturidade e anos de estrada fazem a diferença. A banda está em constante evolução, constante esmerilhamento de suas habilidades e ideias musicais, ao mesmo tempo em que permanece leal às suas origens e ao estilo. Todos os discos são de muita qualidade, e merecem a ouvida que a Som do Darma auxilia pra que aconteça.

|    Official Website    |    Facebook Page    |    Twitter    |
|    YouTube Channel    |    MySpace    |

SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: ugangamg@gmail.com
ugangamail@yahoo.com.br
eliton@somdodarma.com.br

Assessoria de Imprensa: Som do Darma
E-mail: contato@somdodarma.com.br


 Atitude Lótus (2003)

01 - Língua Nos Dentes
02 - Sai Fora
03 - Mar da Lembrança
04 - VG
05 - Prekol
06 - Não Ponha Tudo A Perder
07 - Ouro de Julho
08 - Sibipiruna
09 - Loco (Fim de Tarde)
10 - 2000 É Pouco
11 - Couro Cru
12 - Aquática
13 - Confluência

 Na Trilha do Homem de Bem (2006)

01 - Pagar Pra Ser Feliz
02 - Procurando O Mar
03 - Tri
04 - Loco II
05 - Corrida
06 - Falando de Igualdade
07 - Chaves
08 - A.C.
09 - Altos e Baixos
10 - Lado A Lado

 Vol. 3: Caos Carma Conceito (2010)

01 - Kali-Yuga (Caos 1)
02 - Fronteiras da Tolerância (Caos 2)
03 - 3XC (Caos 3)
04 - Meus Velhos Olhos de Enxergar O Mal (2 Lobos) (Caos 4)
05 - Asas Negras (Caos 5)
06 - ISO 666 (Caos 6)
07 - Velas (Carma 1)
08 - Sua Lei, Minha Lei (Carma 2)
09 - Encruzilhada (Carma 3)
10 - Milenar (Carma 4)
11 - Zona Árida (Carma 5)
12 - P.A.X. (Carma 6)
13 - Primeiro Inquilino (Conceito 1)

 Eurocaos Ao Vivo (Live) (2013)

01 - Kali-Yuga (Caos 1)
02 - Asas Negras (Caos 5)
03 - 3XC (Caos 3)
04 - Meus Velhos Olhos de Enxergar O Mal (2 Lobos) Caos 4)
05 - Sua Lei, Minha Lei (Carma 2)
06 - Zona Árida (Carma 5)
07 - Fronteiras da Tolerância (Caos 2)
08 - Van
09 - Troops of Doom
10 - Nightmare (Short Version)
11 - Não Desista
12 - Desespero
13 - Antwerpen Dub

 Opressor (2014)

01 - Guerra
02 - O Campo
03 - Veredas
04 - Opressor
05 - Moleque de Pedra
06 - Casa
07 - L.F.T.
08 - Modus Vivendi
09 - Nas Entranhas do Sol
10 - Aos Pés da Grande Árvore
11 - Noite
12 - Who Are The True?
13 - Guerreiro

Ouvir (Spotify)

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Pop Javali - Discografia Comentada

Vivemos uma era onde, mais do que nunca, as informações chegam a nós como uma verdadeira torrente, dificultando nossa assimilação, memorização e até nosso aprofundamento em algum tema. A internet tem, como tudo na vida, dois lados de uma mesma moeda: enquanto ela auxilia na divulgação de bandas que de outra forma não chegariam a nós, também atrapalha o mesmo fim, já que todas buscam a mesma efetividade no mesmo meio. Isso faz com que ou não nos aprofundemos no conhecimento das músicas das bandas, ou não tenhamos disposição para ouvir algumas em meio a tantas. Com isso, deixamos algumas boas bandas passarem. Talvez pelo nome estranho e pela quantidade de bandas se divulgando, o trio do Pop Javali seja mais um a passar batido pela maioria, mesmo que seja uma ótima banda.
Natural de Americana, no interior de São Paulo, o Pop Javali oferece um Hard Rock genérico de qualidade, capaz de envolver o ouvinte em músicas boas de ouvir que unificam força e sentimento.
Por enquanto são apenas dois álbuns de estúdio, ambos lançados recentemente. Ainda assim, a banda é cascuda e está junta, em atividade com formação intacta, faz muito tempo - há mais de duas décadas. Formado em 1992, o trio consiste em Marcelo Frizzo no vocal e baixo, Jaéder Menossi na guitarra e Waldemar Rasmussen na bateria. As duas primeiras décadas podem não ter presenciado nenhum lançamento da banda, mas viu muitos de seus shows. Parte da ausência de lançamentos se dá pelo fato de Jaéder e Waldemar estarem mais engajados ao Mystical Warning durante os anos 90, tendo inclusive lançado o álbum "Third Millenium" através da Megahard Records em 1998. Mas o Pop Javali nunca parou. Composições fluíam ao longo dos tempos, até que o amontoado delas resultou no lançamento - tardio, é verdade - do álbum de estreia "No Reason To Be Lonely" em 2011, via Oversonic Music.
O disco apresenta de maneira bem clara a proposta dos músicos: um Hard Rock que se deixa levar pelo legado que os anos 70 e 80 deixaram. Superficialmente, a arquitetura musical pode parecer simples, até pelo clima ameno e envolvente que as músicas transmitem, mas um pouco mais de atenção torna possível notar o interessante detalhamento estrutural. Tratam-se de riffs bem elaborados, dinâmicos e carregados do espírito Hard oitentista, algumas vezes atraindo influências Progressivas que complexificam ainda mais a musicalidade, mas que perdem parte de sua força de impacto por questões produtivas. Mesmo assim, a experiência é positiva, e essa positividade é maximizada nos momentos de solo de guitarra nas canções que os têm - são empolgantes destruições velozes que clamam por bateção de cabeça! Mas nem só de peso é feito o trabalho, já que passagens tranquilas e exploração de efeitos limpos de guitarra também pincelam cores leves nesse registro.
"No Reason To Be Lonely" é um álbum cuja variação tem um raio de extensão limitado no que diz respeito à sensação que as canções passam ao ouvinte. Mas no que diz respeito ao microuniverso dos arranjos, há bastante variação e a dedicação conferiu qualidade. Aqui, a banda não se mostra tão segura, embora estivesse em sua zona de conforto, mas o resultado final é ótimo. De qualquer forma, esse ponto de partida amadureceria a banda - e muito - para o que estaria por vir mais tarde.
Entre shows e ensaios, os tempos que sucederam o disco de estreia foram marcados pela dedicação à novas composições, já visando a concepção de um segundo álbum. Sentindo-se mais confiantes durante o processo e gostando da recepção que os fãs davam às novas músicas nos palcos, os rapazes finalizaram mais 11 composições e as lançaram através do álbum "The Game of Fate" em 2014.
Não há dúvidas: trata-se de um salto de qualidade em relação ao "No Reason To Be Lonely". Dessa vez, o trio transmite muito mais maturidade, além de dose maior de segurança, convicção no que está sendo feito e ousadia para experimentar variações composicionais ainda mais complexas.
"The Game of Fate" é uma continuação direta do debut. Mesma atmosfera, mesma proposta sonora, mesmo sentimento. No entanto, é muito mais convincente, com músicas mais dinâmicas - além de pesado. Pois é. Com a produção a cargo dos irmãos Andria e Ivan Busic do Dr. Sin, as canções ganharam um pouco mais do poder de fogo que faltou no registro anterior. O Hard Rock praticado aqui exala pleno vigor, esmagando os ouvidos e enchendo de vida canções que são boas não somente pelo trabalho notório e espetacular do guitarrista Jaéder Messoni, mas também pelo amadurecimento das linhas composicionais vocais. Elas melhoraram, e bastante. São trechos charmosos, de fácil memorização, com refrões que elevam as músicas e que só não são ápices absolutos porque guerreiam com os fascinantes e frenéticos solos de guitarra.
Mas o peso do trabalho não provém apenas do Hard Rock. Influências de Heavy Metal também são claras, além do cristalino Progressive Metal que se manifesta com alguma frequência, especialmente em faixas como "Enjoy Your Life" e "I Wanna Choose". De modo geral, água das mesmas fontes que o debut bebeu, mas com mais minerais. Trabalho excelente.
O som do Pop Javali contém peso, contém técnica, contém os atributos necessários para registros de qualidade. Mesmo com tudo isso, não é incomum o ouvinte ter uma sensação de leveza bastante característica, como em bandas de Soft Rock. Tal sensação se deve sobretudo à postura não agressiva e até cadenciada do vocalista Marcelo Frizzo. Seu timbre é agudo e a técnica é um tanto nasal, conferindo um vocal que lembra exageradamente ao Phil Collins (Genesis) e, por vezes, Steve Perry (ex-Journey). A sonoridade, por sua vez, embora tenha seu pilar central firmado em solo Hard, não transmite os contornos inconfundíveis e bem delineados das bandas que de fato se afundam de cabeça no gênero, o que revela inclusive influências de Dr. Sin.
De qualquer forma, a banda é muito, muito boa. É gostosa de ouvir. Não é das que mais se sobressaem (algo auxiliado pelo nome pouco convidativo, que leva à subestimação por mais que não queiramos), mas faz um excelente trabalho e espera-se que estejam em uma crescente criativa. Notavelmente, com exceção do guitarrista Jaéder, a banda trabalha dentro de sua zona de conforto. Ainda falta um 'punch', algo que faça o ouvinte apontar o dedo e dizer "esses são os caras e esse álbum é insano!". Quem sabe no futuro? Novos trabalhos certamente virão. O primeiro ao vivo já está a caminho, intitulado "Live In Amsterdam". Será lançado no fim do primeiro semestre de 2016 e foi gravado durante a turnê europeia realizada em outubro de 2015, que foi a primeira e passou por Alemanha, Inglaterra, Itália, Suíça, além, claro, da Holanda.
Ao longo de sua trajetória, o trio já realizou shows ao lado de bandas como Uriah Heep, Deep Purple e Ugly Kid Joe e certamente mais gigantes ainda estão por vir. A turnê europeia é prova do bem-sucedimento da banda, bem como a positivíssima repercussão de "The Game of Fate" em veículos de imprensa como Roadie Crew e UOL.

|    Official Website    |    Facebook Page    |    Twitter    |
|    YouTube Channel    |    Soundcloud    |

SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: eliton@somdodarma.com.br
popjavali@gmail.com
williamdeoliveira@wwaegroup.com

Assessoria de Imprensa: Som do Darma
E-mail: contato@somdodarma.com.br

 No Reason To Be Lonely (2011)

01 - Silence
03 - Sacrifice My Dreams
04 - Believe
05 - Anything You Want
06 - Do For Me
07 - Not Enough
08 - My Own Shield
09 - Disillusions of Mind
10 - No Reason To Be Lonely

Ouvir (Soundcloud)

 The Game of Fate (2014)

01 - Lie To Me
03 - Mindset
05 - Free Men
06 - Time Allowed
07 - A Friend That I've Lost
09 - Enjoy Your Life
10 - I Wanna Choose

Ouvir (Soundcloud)

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Terrordome/Chaos Synopsis - Intoxicunts (Split) (2016)

Bandas: Terrordome e Chaos Synopsis
Álbum: Intoxicunts (Split)
Ano: 2016
Gênero: Crossover/Thrash Metal e Death/Thrash Metal
Países: Polônia e Brasil
Membros Terrordome: Uappa Terror (vocal e guitarra), Paua Siffredi (guitarra), The Kapitzator (baixo e backing vocal) e Murgrabia Mekong (bateria).
Membros Chaos Synopsis: Jairo Vaz (vocal e baixo), JP (guitarra), Luiz Ferrari (guitarra) e Friggi MadBeats (bateria).

Entre os dias 14 e 31 de janeiro de 2016, os poloneses do Terrordome efetuaram uma bateria de shows no Brasil, passando por diversas cidades dos estados de São Paulo e Minas Gerais. O fruto dessa excursão foi muito além dos shows (nos quais bandas como os paulistanos do Andralls aproveitaram para abrir), materializando-se na forma de um disco split em parceria com o Chaos Synopsis, excelente banda de Death/Thrash Metal de São José dos Campos (SP). A união entre duas notáveis e emergentes bandas do cenário metálico se mostrou poderosa nesse trabalho, que oferece muito peso e energia ao fã que gosta de Thrash Metal de uma forma ou de outra.

Nenhuma das duas bandas passaram o ano de 2015 em branco: de um lado, o Terrordome divulga o lançamento de sua segunda obra de Crossover/Thrash Metal, intitulada "Machete Justice"; de outro, o Chaos Synopsis vem de uma exímia peça artística de Death/Thrash Metal inspirada na malevolência do Império Romano que atende pelo nome de "Seasons of Red" - o terceiro álbum da carreira. Logo, trata-se de duas bandas aquecidas e inspiradas que fizeram questão de fazer com que isso seja latente nesse split chamado "Intoxicunts" e lançado no dia 10 de janeiro, via Defense Records.

São apenas 22 minutos totais de duração, mas muito bem investidos. Oito faixas listam o set: cinco do Terrordome e três do Chaos Synopsis. Dois covers também figuram o repertório (cada banda com um), e as seis restantes são inéditas e autorais, o que é especialmente excitante tendo em vista que splits geralmente são utilizados pra apresentar material já lançado. Não bastasse as músicas terem acabado de conhecer a luz do dia, elas ainda são produzidas com maestria. O trabalho tem propósitos sérios e vale a pena ser ouvido, esteja certo disso.

Os poloneses é que tomam a dianteira da pancadaria. Eles têm mais músicas no set, mas estamos falando de uma banda de Crossover/Thrash - logo, são canções rápidas. "Reflux" mesmo é uma intro de 39 segundos, que já abre o disco a mil preparando o terreno para "Polidicks", que mantém a pegada alucinada, energética e batida do gênero. A postura veloz se estende às demais canções da banda, já que se trata de uma fortíssima e obrigatória característica do estilo, intensamente presente em bandas como Municipal Waste, Nuclear Assault, Suicidal Tendencies, entre outras. O cover executado é "The 'Hood", da extinta banda estadunidense Evildead, que também tocava a vertente em seus tempos de atividade.

A parte do Terrordome equivale à metade do tempo total do disco, apesar da vantagem numérica de faixas. Encerrada "Beerbong Party", entra em ação uma musicalidade diferente, com riffs cortantes e um tanto mais cadenciados: é a vez de "Serpent of The Nile", abrindo a metade do Chaos Synopsis. Os paulistas certamente entregam violência sonora, mas ao contrário da musicalidade lunática dos poloneses, a banda de São José dos Campos aposta em seu costumeiro Death/Thrash Metal bem trabalhado, bem dosado, alicerçando peso e arte. "Serpent of The Nile" é uma canção que reafirma o potencial artístico do conjunto, capaz de sintetizar uma musicalidade temática com maestria, sem precisar recorrer ao auxílio de teclados ou instrumentos extras. É possível sentir o clima, entender a proposta. Entre ela e "Fire On Babylon", vemos uma banda que alterna sua postura: ora as composições se condensam inteiramente no Death Metal, ora ganham velocidade e energia e se convertem num Thrash Metal com ares Death. Toda essa potência é interpretada pelo coronelista vocal de Jairo Vaz, que impõe comando com oscilações entre intensos drives e guturais. Fechando o trabalho, é apresentada uma versão mais violenta de "Damage Inc.", do Metallica.

Ao fim dos 22 minutos, sente-se que o trabalho merecia ser maior. Muito embora, sensivelmente falando, a parte do Terrordome passe voando e a do Chaos Synopsis se prolongue devido à densidade de suas canções, o disco pede um pouco mais... ou, na atual condição, pede um 'repeat'. Esteja certo: esse provavelmente será o melhor split que você terá ouvido nos últimos tempos, se tiver ouvido algum - caso contrário, "Intoxicunts" ganha o título de melhor por W.O.. Tome o belíssimo trabalho gráfico do artista Łukasz Jaszak como incentivador e sente o dedo no 'play'. Grandes bandas, grande trabalho.

Chaos Synopsis:

|    Official Website    |    Facebook Page    |    YouTube Channel    |

CONTATO, SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: chaossynopsis@gmail.com.br
shows@islandpress.com.br

Assessoria de Imprensa: Island Press
E-mail: romel@island-press.com

01 - Terrordome: Reflux
02 - Terrordome: Polidicks
03 - Terrordome: Nothing Else Fuckers
04 - Terrordome: The 'Hood (Evildead Cover)
05 - Terrordome: Beerbong Party
06 - Chaos Synopsis: Serpent of The Nile
07 - Chaos Synopsis: Fire On Babylon
08 - Chaos Synopsis: Damage Inc. (Metallica Cover)

Ouvir (Bandcamp)

Hagbard - Vortex To An Iron Age (2016)

Banda: Hagbard
Álbum: Vortex To An Iron Age
Ano: 2016
Gênero: Pagan Death Metal
Origem: Juiz de Fora, Minas Gerais (Brasil)
Membros: Igor Rhein (vocal), Danilo "Marreta" Souza (guitarra), Rômulo "Sancho" Piovezana (baixo), Everton Moreira (bateria) e Gabriel Soares (teclados e vocais limpos).
Membros adicionais: Lívia Kodato (vocal feminino), Maurício Fernandes (backing vocal), Luqui di Falco (violão) e Vinícius Faza Paiva (violino).

Geralmente é assim: por mais que uma banda já aparente ter nascido sonoramente pronta, com membros, proposta e público bem definidos, sempre há mais o que remanejar, aperfeiçoar, moldar. É mais ou menos o que vem acontecendo com os juiz-foranos do Hagbard, que lançam nesse mês de junho seu mais novo álbum, "Vortex To An Iron Age".

O novo título é o segundo full-length da discografia, sucedendo o excelente e bem criticado debut "Rise of The Sea King", que saiu há três anos, e o EP promocional "Tales of Frost and Flames", do ano passado. Diante da crescente que vinha recebendo com seus trabalhos, era de se esperar uma banda que preservasse suas características e exalasse qualidade em cada detalhe composicional... e felizmente é o que tivemos!

"Vortex To An Iron Age" é um registro que melhor define os contornos do que é o Hagbard de fato. Aqui a banda demonstra segurança, estabelecendo claramente sua zona de conforto - que é de difícil execução, isso há de ser ressaltado - e indicando uma personalidade que já vinha tomando forma com o EP anterior. Digo, "Rise of The Sea King" foi um álbum bastante vigoroso, uma notável obra de Pagan Death Metal; no entanto, em "Tales of Frost and Flames" o conjunto densificou sua atmosfera e atribuiu forte característica épica à ela, além de certa dose de sentimentalismo. Essa diferença entre os dois trabalhos é pouca, mas sensível, e "Vortex To An Iron Age" é a sequência sonora direta do EP quase que por osmose.

O disco foi gravado em Juiz de Fora (MG) entre julho e dezembro de 2015 e novamente mixado e masterizado por Jerry Torstensson (Draconian) em seu Dead Dog Farm Studio localizado em Säffle, na Suécia. Diferente de "Rise of The Sea King", que foi lançado e distribuído pelo selo russo SoundAge Productions, "Vortex To An Iron Age" está sendo lançado no Brasil em formato digipack através do selo Heavy Metal Rock, que também dispõe do primeiro título em seu catálogo. A bela arte gráfica é de autoria de Marcelo Vasco, que se tornou especialmente famoso após criar as capas de bandas como Slayer e Borknagar.

Trata-se de um álbum intenso onde cada elemento instrumental se mescla à luz da aura epicista dos teclados. Os instrumentos tradicionais como a guitarra de Danilo "Marreta", o contrabaixo de Rômulo "Sancho" e bateria de Everton Moreira se mostram firmes, conferem peso e fazem jus ao nome "Pagan Death Metal" do rótulo. Eles não são sempre pegados, entretanto, já que linhas mais melódicas são introduzidas - em duradouro casamento com a atmosfera mágica - assim como as músicas, no geral, não são de todo violentas, mesmo com todos os atributos para sê-lo. O ritmo delas é mais constante, mas com naturais transições para algo mais pegado ou algo mais calmo, de acordo com o momento ou a música. Claro, há potência e vigor, mas certamente a alma do trabalho é o encanto que a incidência dos teclados de Gabriel Soares e a ampla exploração de violinos do convidado especial Vinícius Faza Paiva proporcionam - e como esses instrumentos dão o ar da classe!

É sempre muito interessante também a preocupação dos mineiros com as linhas vocais. Nunca introduzem apenas um tipo de técnica, nem têm discos sempre lineares. Os guturais rasgados de Igor Rhein são a técnica mais explorada, tal como precisa ser. Mais do que anteriormente, aqui seu vocal soa mais pagão, já que a produção não o deslocou do instrumental e sim o "fundiu" a ele, deixando-o um pouco mais baixo, porém conectado com o ambiente. O leve reverb na voz faz parecer que Rhein esbraveja em uma floresta neblinada ao crepúsculo - o que é perfeito para os heroicos propósitos Folk da banda. Inclusive, backing vocals em cadenciados corais são frequentemente acionados, aumentando o tom épico e dando dinâmica às canções. Nesses corais, participam o convidado Maurício Fernandes e o tecladista Gabriel Soares, cuja voz se destaca. Como em todos os outros trabalhos, Gabriel apresenta seu belo vocal limpo em mais uma faixa tranquila, estrategicamente posicionada em meados do set e intitulada "Last Blazing Ashes". A faixa conta inclusive com a participação de Luqui di Falco (Glitter Magic) no violão. Coroando as participações especiais, Lívia Kodato empresta suas cordas vocais em "Inner Inquisition", elevando o repertório de vozes do trabalho.

"Vortex To An Iron Age" é um registro foda de uma banda madura que encontrou sua identidade mesmo em meio a um estilo difícil de se destacar. A atmosfera é densa e mais "fechada", é verdade, o que reduz o potencial assimilativo logo na primeira ouvida, mas vale ouvir mais uma vez e se deixar imergir nessa sonoridade que fantasia bem o teor lírico inspirado nos "valores de eras antigas, de um mundo onde a força e o ferro eram aliados ao orgulho e à honra", conforme conta a própria banda. É uma experiência pagã quase cinematográfica.

Gostaria de deixar, uma vez mais, meus agradecimentos ao Hagbard pelo reconhecimento e amizade de sempre! Sinto-me extremamente feliz e honrado por ter meu nome mencionado nos agradecimentos especiais do disco! A banda está de parabéns pelo excelente trabalho, seriedade com a qual encara a boa música e pela ousadia de executar um estilo tão incomum, especialmente no Brasil.

Para adquirir as versões físicas dos discos, basta entrar em contato através dos veículos oficiais da banda!

|    Official Website    |    Facebook Page    |
|    Soundcloud    |    Bandcamp    |    YouTube Channel    |

SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: contact@hagbardofficial.com

01 - Intro
02 - Never Call The Sage To Drink In Your Home
03 - Bridge To A New Era
04 - Iron Fleet Commander
05 - Last Blazing Ashes
06 - Death Dealer
07 - Relic of The Damned
08 - Inner Inquisition
09 - Deviant Heathen
10 - Shield Wall
11 - Outro

Ouvir (Spotify)