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domingo, 4 de dezembro de 2016

Maestrick - Discografia Comentada

O que entendemos como Arte? Certamente, esse conceito está presente corriqueiramente em nossas vidas em sociedade, de tal maneira que ele é totalmente naturalizado e absorvido - porém, isso não quer dizer que é exatamente compreendido. O conceito de Arte é bastante amplo, tornando impossível defini-lo de apenas uma maneira. Entretanto, podemos entendê-lo, grosso modo, como tudo aquilo que resulta da tentativa do ser humano de expressar empiricamente o que lhe afeta os sentidos (como suas emoções, percepções, ideias...), seja através de abordagens linguísticas, plásticas ou sonoras. Ainda assim, o conceito não deixa de ter um forte tom subjetivo, já que está diretamente ligado à sensação do maravilhamento, algo bem individual. Portanto, o que é considerado arte para um, pode não sê-lo para outro.

Apesar de haver a possibilidade de definir Arte de algumas maneiras, o conceito é abstrato e absorvido por uma sociedade de maneira cultural, levando a determinadas manifestações humanas serem consideradas quase invariavelmente artísticas (desde que mexam com as emoções, causem maravilhamento), como a pintura, as artes cênicas, a dança e, certamente e o que nos interessa aqui, a música.

Direto de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, uma banda faz uso de uma das diversas manifestações artísticas - a música - e leva o conceito ao limite, numa abordagem "artisticamente interdisciplinar" que os próprios integrantes chamam de "aquarela musical" e conquistou expressivos elogios não apenas no Brasil, mas no mundo afora: o formidável Maestrick.

Demorei muito para finalmente ouvir os trabalhos dos paulistas, e a oportunidade de me encontrar com as obras veio graças à Som do Darma, que os assessora. Não sei o que pensar sobre: me arrependo por ser um trabalho tão espetacular que eu poderia ter ouvido há anos, ou me conforto na ideia de que esse foi um bom momento para ouvi-lo, pois se fosse num momento anterior, eu poderia não ter compreendido musicalidade tão complexa e madura? No fundo, talvez seja uma reflexão que não importa.

O Maestrick foi fundado em 2006 e executa basicamente Progressive Rock, mas o rótulo em si é vazio diante da complexa viagem artística que o atualmente trio permite ao ouvinte embarcar. Não apenas sua musicalidade exala as influências dos nomes mais clássicos do estilo, mas também é uma brilhante aproximação a diferentes segmentos artísticos, como o cinema, a dança, a pintura, a literatura e as artes cênicas, tudo com aura surrealista e banhado ainda a muita brasilidade.

Levou quatro anos para o Maestrick finalmente lançar seu primeiro registro, que veio na forma do EP "H.U.C.", de duas faixas, lançado em 2010. Era apenas uma demonstração parcial e introdutória de como viria a ser o álbum de estreia, que seria lançado um ano mais tarde. Introdutória mesmo; afinal, "H.U.C." e "Aquarela" são justamente as faixas de abertura do debut.

Portanto, em 2011, através da Die Hard Records e sob formação contando com Fábio Caldeira (vocal, piano e teclados), Danilo Augusto (guitarra), Maurício Figueiredo (guitarra), Renato Montanha (baixo, baixo fretless e guturais) e Heitor Matos (bateria e percussão), sai o trabalho de estreia "Unpuzzle!", causando grande rebuliço entre público e mídia especializada.

E não é pra menos - trata-se de uma conceitual jogada de mestre! Extremamente bem produzido, "Unpuzzle!" é um museu musical de artes antiga e moderna fundidos com altas doses de inteligência e ambição. Aqui, a banda resgata a essência do Progressive Rock setentista, trazendo-o para a modernidade em destilação com Progressive Metal, Heavy Metal, música nordestina e música brasileira cinquentista, tudo em invejável nível de coerência.

Cada canção tem sua personalidade e mensagem instrumental próprias, sem que isso signifique, em contrapartida, que elas fiquem deslocadas e provoquem a sensação de não pertencerem a um mesmo contexto conceitual. São diferenciadas, baseadas em diferentes influências, mas a aura Maestrick se mantém pulsante, ganhando vida graças à linda voz de Fábio Caldeira, cujo timbre é alto e cristalino, e sua postura é absolutamente teatral, como se espera de tamanha manifestação artística e progressiva.

Variadas influências são sentidas ao longo do trabalho: vide "H.U.C.", onde a postura alia Progressive Metal ao estilo Dream Theater e Progressive Rock numa forte conotação Yes, e ainda traz um momento sublime de quebradeiras progressivas nas cordas enquanto a percussão, na base, é brasileiríssima - e ainda vem, na sequência, vocais guturais, performados pelo baixista Renato Montanha. Ou então, note como "Aquarela" - que apesar do nome, é cantada em inglês - se assenta numa pegada Prog Rock mais sentimental, cujos momentos de maior intensidade se manifestam através de corais gospel de sensação inconfundivelmente Queen - algo também sentido vibrantemente mais adiante, em "Radio Active".

Climatização mais brasileira passa a ser mais apropriadamente explorada a partir de "Pescador", belíssima canção cantada em português, cuja base instrumental é ditada por instrumentos como viola caipira, bongo, chocalho, flauta e triângulo, exalando influências nordestinas extremamente bem aproveitadas. E já que Arte é o conceito lei aqui, não poderia faltar uma pegada circense, que chega a lembrar músicos como Gogol Bordello. A rápida "Sir Kus" - ótimo título! - absorve parte da atmosfera regional apresentada em "Pescador", e prepara terreno para "Puzzler", que vem na sequência, já com ritmização circense no talo.

Outros destaques singulares recaem sobre "Disturbia", mais densa e agressiva, apelando pro Progressive/Heavy Metal moderno; "Treasures of The World", uma linda balada brasileira composta em ritmo de mantra; e, sem dúvidas, "Yellown of The Ebrium", talvez uma das faixas mais únicas do registro, especialmente pela pesada carga MPB impressa na composição, com violão tocando ao velho e clássico estilo Bossa e passagem em português.

Seria estranho se "Unpuzzle!", sendo um disco progressivo, não tivesse uma longuíssima faixa. Ele é encerrado com a intensa e ótima "Lake of Emotions", de 21 minutos, que apresenta diferentes sensações e tonalidades de corais - inclusive o lírico.

Aqui e ali, participações especiais deixam suas contribuições, sendo a mais notável as vozes femininas em "Aquarela" e "Yellown of The Ebrium", executadas nesta última por Yana Roberta.

Embora seja possível destrinchar as canções e notar suas particularidades, trocas culturais entre elas são frequentes, e sensações de Pink Floyd, Beatles, Jethro Tull, Rush e até Angra pipocam no decorrer da obra, além de toda a já mencionada brasilidade e as fortes referências a segmentos artísticos como artes cênicas, pintura, literatura, dança, entre outros, enriquecendo um trabalho genial.

"Unpuzzle!", ainda por cima, é um álbum conceitual, contando uma história situada em um museu onde acontece uma exposição artística "entre várias dimensões, e os personagens que vivem dentro dos quadros são ajudados por dois seres nascidos das tintas do artista criador das obras". As letras são muito bem compostas - além de bastante complexas, por serem muito abstratas. O disco foi gravado no AR-15 Studios, em Bebedouro/SP, e mixado e masterizado por Gustavo Carmo (que deixou várias contribuições instrumentais e composicionais) no mesmo estúdio, e no AK-47 Studio, em Seattle, nos Estados Unidos.

Excêntrico e esplêndido, o debut colheu pesadas críticas positivas que colocaram "Unpuzzle!" entre os melhores álbuns de 2011 e o Maestrick entre as melhores bandas, segundo veículos como Jornal Estadão, Whiplash, Roadie Crew e Rock Brigade, ao longo de 2011 e 2012. A banda acabou chamando a atenção lá fora, fazendo com que o trabalho fosse lançado mundialmente pela Power Prog Records em 2013. Além disso, participações em diversos festivais importantes entraram pro rol de memórias e conquistas do grupo, como no Roça 'n' Roll em Varginha (MG), e no ProgFest II em Lima, no Peru.

Em 2016, a banda começou a gravar o sucessor de "Unpuzzle!", que se chamará "Espresso Della Vita: Solare", e será lançado, provavelmente, em 2017. No entanto, enquanto material novo não é apresentado e já como um trio após as saídas dos guitarristas Danilo Augusto e Maurício Figueiredo, o conjunto aproveitou o ano para lançar o EP "The Trick Side of Some Songs", uma grande homenagem às suas maiores e mais clássicas influências.

Lançado novamente pela Die Hard Records, esse registro de 39 minutos de duração (contando a faixa bônus) busca ter o mesmo peso de um álbum completo, já que lança as bases de uma transição entre "Unpuzzle!" e o vindouro "Espresso Della Vita: Solare". A intenção, aqui, além da homenagem, é de criar um centro de inspiração para a própria banda, e ainda deixar registrado tudo aquilo que já vinham tocando ao vivo com frequência desde os primeiros tempos da banda.

Embora se trate de um trabalho "cover", ele não se limita a meramente reproduzir as canções originais, não - trata-se de uma verdadeira repaginada, com direito a novos arranjos, acréscimos do próprio estilo Maestrick, além de muitos medleys e referências ao álbum subsequente.

Calibrados, os caras já iniciam o EP com a introdução "Near-Brain Damage", adaptação de "Almost A Brain Damage", dos gigantes do Pink Floyd. Inclusive, mais adiante, a adaptação também interessantemente encerra o EP, concedendo à principal banda de Progressive Rock o devido destaque por abrir e encerrar um importante trabalho de puro tradicionalismo progressivo.

Após o "Pink Maestrick Floyd" abrir mostrando qual será a pegada e proposta do trabalho, vem um excelente medley do Yes, sensatamente intitulado "Yes, It's A Medley!". Trata-se de uma junção das canções "Soon", "Close To The Edge", "Roundabout", "Changes" e "Give Love Each Day" onde as versões originais parecem distantes, mas de um modo positivo. São nove minutos de uma ode à uma das principais influências do conjunto, algo já claramente notado anteriormente em "Unpuzzle!".

Na sequência de canções bastante alteradas, vem a dobradinha "The Ogre Fellers Master March Part I: The Battle" e "The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen", cujas durações são mais curtas e a inspiração orbita outra grande influência sentida na musicalidade do conjunto: o Queen e as canções "The Fairy Fellers Master Stroke" e "The March of The Black Queen".

Após os grandiosos tributos e ainda antes do encerramento com Pink Floyd, posicionam-se covers de "Aqualung", do Jethro Tull, e "While My Guitar Gently Weeps", dos Beatles, que flertam mais com as versões originais e concedem um clima mais ameno ao andamento do trabalho.

Por fim, ainda vem uma passional faixa bônus. Com participação da Orquestra Belas Artes, "Rainbow Eyes", originalmente gravada pelo Rainbow, homenageia os cinco anos desde o falecimento de uma das maiores lendas do Heavy Metal mundial: o eterno Ronnie James Dio!

Apesar dos paulistas terem buscado se livrar das cruas amarras das ideias originais e enriquecer clássicos absolutos com seu próprio estilo - o que eventualmente ocorreu -, "The Trick Side of Some Songs" não comporta a mesma atmosfera intensa de "Unpuzzle!", e ouvi-lo esperando aquela mesma pegada seria um erro. As expectativas devem se posicionar no meio-termo entre o debut e as próprias bandas-referência do conjunto para que essa ótima obra não provoque qualquer tipo de quebra de expectativas. O EP pode ser baixado gratuitamente através do site oficial do Maestrick. Clique aqui.

Bom gosto e profissionalismo definem o Maestrick. Não se trata de aventureiros fazendo música apenas pelo esporte, mas verdadeiros músicos, cultos, com atitude, composição e gerência profissionais - e é muito bom ver uma banda brasileira nesse calibre e seriedade. Se você, assim como eu, levou uma eternidade para finalmente ouvir essa musicalidade genial, não perca mais tempo - adquira os trabalhos!

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 H.U.C. (EP) (2010)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela

 Unpuzzle! (2011)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela
03 - Pescador
04 - Sir Kus
05 - Puzzler
06 - Disturbia
07 - Treasures of The World
08 - Radio Active
09 - Smilesnif
10 - Yellown of The Ebrium
11 - Lake of Emotions

 The Trick Side of Some Songs (EP) (2016)

01 - Near-Brain Damage
04 - The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen
05 - Aqualung
07 - Near-Brain Damage (Reprise)
08 - Rainbow Eyes (Bonus Track)

Baixar (site oficial)

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