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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Konad - Discografia Comentada

Creio estarmos acostumados a uma realidade onde muito se precisa batalhar para ter seu trabalho reconhecido, e recorrer à parcerias com sites e blogs tem se mostrado uma ferramenta comumente utilizada e também efetiva. Em um mundo com maior circulação de informações graças ao advento da internet, cresce também o número de bandas querendo provar seu melhor e, consequentemente, a concorrência. Sabemos: aqui no Brasil, além de muita concorrência, há também dificuldade de apoio, e as bandas se lançam em batalhas diárias para se reafirmar. Algo similar acontece em Portugal, onde boas bandas têm dificuldade de chegar ao conhecimento de mais pessoas, mas procuram, dia após dia, firmar-se no circuito local, para então conseguir brecha no âmbito nacional e, por que não?, no mundial.

Uma dessas boas bandas lusitanas que provam ter valor mas infelizmente não chegam a nós é o Konad. Formado em Vila Franca de Xira, em Lisboa, no ano de 1996, inicialmente sob o título Konad Moska, o conjunto aposta, ao longo de sua discografia, em diferentes maneiras de manifestar o Punk Rock, sempre com algo a mais para acoplar positivamente à musicalidade, até que, certamente, chega à sua melhor fase até o momento com o álbum "Irae Dei", de 2015.

O início o grupo não foi dos mais agitados. Apesar de ter começado tudo em 1996, somente em 1997 aconteceu a primeira apresentação ao vivo, realizada no Lusideia Bar, em Samora Correia, mas pouco depois as atividades cessaram definitivamente e a banda se extinguiu.

Três anos mais tarde, em 2000, após trocar alguns parafusos na formação, seus amplificadores voltaram a funcionar em consonância, devido à reativação dos trabalhos. A formação esteve fixa ainda até 2006, embora as atividades musicais oscilassem por motivos diversos. De qualquer forma, essa fase marcou o início das composições dos dois primeiros trabalhos dos portugueses: as demos "Mundo de Merda", lançada em setembro de 2007, e "Demo 2007", lançada no mês seguinte, já com a banda nomeada simplesmente como Konad.

Ambas as demos têm como similaridade a execução da forma tradicional e pegada do Punk Rock, aliada a letras que em parte são críticas sociais e econômicas, e em parte têm cunho humorístico, seja em revolta focalizada em algum assunto pertinente, ou mesmo a cólera pela graça de arrancar risadas. Vide a canção "O Kão do Anão", penúltima da segunda demo; muito bem humorada, faz uso até de efeitos de acordeão para dar ainda mais o ar da graça! Apesar de alguns detalhes interessantes de solos, ou da escolha excêntrica de recursos externos pro estilo (como na cômica faixa já citada), as construções composicionais são como se espera do estilo: simples e rápidas. A abordagem vocal é majoritariamente 'driveada', mas vozes limpas também são utilizadas em algumas faixas.

O fato de se tratarem de demos de quase 10 anos atrás acaba demonstrando também as limitações de equipamento, por isso a sonoridade é um tanto abafada, de gravação amadora. No entanto, rústico como o Punk tradicional se propõe a ser, isso acaba por não ser exatamente um problema, muito embora, se a gravação fosse limpa, a coisa seria boa também. A primeira demo traz em torno de 16 minutos de música, enquanto a segunda, um pouco menos: 13 minutos totais.

Mais um longo tempo de quatro anos se estendeu até que o próximo lançamento tomasse forma - o EP "Terror TV" só foi concebido em 2011. O tempo fez bem à banda. Com cinco faixas e 15 minutos de duração, este EP se mostra mais bruto. De produção um pouco melhorada, é aqui que os portugueses começam a inserir elementos de Thrash Metal na sonoridade, o que agregou peso à proposta. A postura está mais séria e a sonoridade está mais pesada. O Punk continua sendo o elemento central, mas o Thrash Metal presente em especial nas três primeiras faixas torna as composições mais firmes e dinâmicas. A postura vocal está ainda mais agressiva, mas mantém as características de ritmo e pronúncia do Punk. Um detalhe que retrocedeu concerne à ausência de solos, que são algo que sempre sinto falta, pois os encaro como clímax das músicas. Eles estão presentes apenas em "Ké Keu Faço", e a postura é excelente, remetendo ao Thrash.

"Terror TV" foi um aquecimento para o tardio lançamento do primeiro álbum de estúdio completo da banda, intitulado "Café Beirute" e lançado em 2012. Esse registro de estreia consolida a musicalidade da banda como uma coerente fusão entre Punk Rock, Hardcore, Thrash Metal e Crust. Os estilos se encontram em invejável harmonia, gerando canções que, embora rápidas, são um verdadeiro ataque de peso e velocidade aos ouvidos. A postura é realmente frenética, levada à base de riffs pesados, pegados e caóticos, bateria insana, baixo pulsante e uma abordagem vocal mais rasgada, aproximando-se daquela executada no Black Metal. Talvez uma das bandas que mais se assemelhem ao que é feito aqui pelos portugueses seja o Toxic Holocaust.

Certamente a fusão é inteligente e madura no álbum, mas a heterogeneidade foi meio que posta de lado. As 16 faixas que compreendem os 34 minutos totais do trabalho são demasiadamente similares entre si, tornando o trabalho denso, embora bom e de produção excelente. Não há muita variação na base rítmica, as bases são frequentemente similares e os solos de guitarra foram praticamente extintos, bem como aquela antiga faceta humorística. Solos de guitarra só podem ser ouvidos em "Não Submisso" e "Burako Negro", enquanto o humor só está presente, com toda sua irreverência lusitana, na última faixa, "Vaka Cinzenta" - o próprio nome já alude a isso.

Trata-se de um ótimo álbum, mas retilíneo demais, com homogeneidade em excesso. A única exceção é a própria faixa-título, que é muito bem trabalhada, com uma introdução limpa e misteriosa e andamento cadenciado quando o peso das distorções enfim entra. Seu clima misterioso e obscuro é fantástico, como se algo de ruim estivesse prestes a acontecer!

A avaliação geral é positiva, sem dúvidas, apesar de alguns detalhes. "Café Beirute" é um ponto de paradigma, já que lança as bases definitivas da musicalidade do Konad, que está mais à vontade, tendo encontrado seu perfil. O desenvolvimento da proposta veio em 2015, com o lançamento do excelente "Irae Dei" e a consolidação da formação atual, contando com Kampino no vocal, Frazão na guitarra, Márcio no baixo e André na bateria.

Gravado no Rec In Red Studios, em Vila Franca de Xira, e masterizado na Suécia por Magnus Andersson em seu Endarker Studio, "Irae Dei" é um pouco mais enxuto (28 minutos de duração), ainda mais homogêneo, e especialmente mais agressivo e próximo do Toxic Holocaust. O vocal de Kampino se apresenta em guturais rasgados plenos, cantados com feracidade de modo que as palavras se tornam difíceis de compreender. O Crust atrelado ao Punk/Hardcore/Thrash Metal está mais evidente, tornando essa avassaladora sonoridade mais crespa e crua. Com distorções menos claras, o álbum perdeu peso em relação a "Café Beirute", mas ganhou velocidade e uma sonoridade apocalíptica, que entrega ainda mais ira ao ouvinte - algo sugerido pelo próprio título, latim para "Ira de Deus"; logo, uma sonoridade apocalíptica, repleta de ferocidade, como uma ira divina.

Foram pelo menos 16 anos até que finalmente os portugueses lançassem o primeiro álbum de estúdio. Apesar da demora, ocasionada por inúmeros imprevistos, a banda acumulou experiência e esse tempo de estrada e a determinação em não desistir de fazer música são fatores que contam a favor dos caras. A sonoridade se consolidou, uma personalidade foi alcançada - e continuará sendo refinada - e os discos começaram a fluir em seus lançamentos. A linearidade composicional é marca de parte dos estilos executados por eles e, apesar de, para ouvintes mais adeptos de outros estilos (como eu) isso ser um ponto contra, a sonoridade é muito boa e a agressividade é matadora. Se procura bandas na linha do Hardcore/Punk/Thrash, é certo que o Konad satisfará suas necessidades.

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E-mail: konad2007@gmail.com

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 Mundo de Merda (Demo) (2007)

01 - Eu Sou Vesgo!
02 - Mundo de Merda
03 - Kem Paga A Cirrose?
04 - O Kão do Anão
05 - Filho da Puta
06 - Vaka Louka
07 - Konad Moska Kom Kapa (Demo)
08 - Kasal Ventoso

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 Demo 2007 (Demo) (2007)

01 - Vendedor de Almas
02 - KGB
03 - Putiklube
04 - O Kão do Anão
05 - Filho da Puta

Ouvir (Bandcamp)

 Terror TV (EP) (2011)

01 - Mundo Incerto
02 - Ser Livre
03 - Ké Keu Faço
04 - Detalhes
05 - Kaos Total (Versão Kaos09)

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 Café Beirute (2012)

02 - Komboio Fantasma
03 - Porcos Malabaristas
04 - Luta ou Morre
05 - Devotos
06 - Filhos do Ódio
07 - Mentekabra
08 - Soldado do Inferno
09 - Café Beirute
10 - Alienação
11 - Choque Global
12 - Não Submisso
13 - Assim É Ke Estou Bem
14 - Burako Negro
15 - Manifesto
16 - Vaka Cinzenta

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 Irae Dei (2015)

01 - Revelação
02 - Predestinação
03 - Irae Dei
04 - Enclaustro Mental
05 - Necroritual
06 - Um Veneno
07 - Retratos de Uma Vida Banal
08 - Crimes de Guerra
09 - Irmãos de Sangue
10 - Apocalipse
11 - Direito À Raiva
12 - Arde No Inferno
13 - Vlad
14 - Inverno Nuclear

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