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domingo, 30 de outubro de 2016

Deadpan - Discografia Comentada

Costumo ser facilmente atraído por tudo que, de alguma forma, tenha a ver com alienígenas. Fico sempre curioso sobre o que um filme, livro ou música tem a falar sobre eles, como eles e os humanos são representados, que tipo de problemas (ou prováveis problemas) perpassam a inspiração para que ela recorra a seres de outras galáxias... a temática sempre transmite algum tipo de reflexão e expectativas de nossa sociedade. Exatamente por isso não foi difícil o power-trio catarinense do Deadpan capturar minha atenção, fazer-me travar os olhos na arte gráfica, folhear o encarte, ouvir e ler as músicas repetidas vezes.

Oriunda de Florianópolis, capital de Santa Catarina, a banda foi fundada em 2011, mas seu início efetivo pode ser considerado como tendo ocorrido apenas em 2014, já que questões de ordem pessoal levaram o conjunto a paralisar suas atividades por três anos. Renascendo com Gustavo Novloski no vocal e guitarra, André Barreto no contrabaixo e Igor Thiesen na bateria, com inspiração, criatividade e competência técnica, o power-trio trabalhou duro em seu primeiro álbum e o lançou já em 2015, sob o título "In Aliens We Trust".

Trata-se de um trabalho de estreia com qualidade como dificilmente se vê por aí em um primeiro momento, ainda mais em se tratando de um lançamento independente: a produção de Júlio Miotto é excelente e limpa, o encarte é bonito e detalhado nas informações, as letras realmente querem transmitir algo direcionado e aproveitável - ou seja, distante de temas aleatórios - e o afinamento técnico dos músicos é chamativo em seu muito bem trabalhado Progressive Thrash Metal. Tais atributos positivos e profissionais em uma banda que até então tem pouquíssimo tempo de estrada e ainda está em seu primeiro disco delineiam mentes ambiciosas e mãos experientes e talentosas.

Sabe aquela piada que dizemos quando alguém faz algo estúpido e falamos "é por isso que os aliens não visitam a gente"? É em torno dessa ideia de falha humana que a temática do disco está assentada. Ele conta a primeira parte da história de uma entidade alienígena chamada EoN, representante de uma raça de grande poder e sabedoria responsável pela manutenção do equilíbrio - aparentemente moral; o encarte não especifica - do universo. Uma vez que a humanidade, com sua ganância e a crescente impessoalidade, dirige-se gradativamente para o caminho do desespero e sua própria destruição, EoN viaja à Terra para estudar os costumes e ideias da raça humana e, com esse conhecimento, restaurar o equilíbrio com intervenções indiretas, tal como já havia feito em outros planetas. Para concretizar o objetivo, escolhe o menino Adam como experimento de contato indireto, e assim inicia seus estudos e planeja estratégias. A história, portanto, acompanha EoN e Adam.

Apesar do envolvimento alienígena na história trazer pré-concebidamente a ideia de que as letras serão futuristas e bastante alienígenas (meio que "distantes da realidade", digamos assim), as seis faixas do trabalho provam o contrário. O ano é 2015 e, na realidade, uma vez que se tratam de análises de EoN em sua tentativa de nos compreender, as músicas acabam por ser, na verdade, reflexões críticas de nossa própria sociedade atual, analisando a maneira como agimos em diferentes contextos sociais, o que pensamos, o que consideramos uma vida bem-sucedida (dinheiro realmente é tudo?), as doutrinações, entre outras coisas, sempre evidenciando as contradições e desumanizações emanadas de determinados pensamentos e atos modernos. Claramente, em apenas 24 minutos, temos uma enxurrada de críticas ao sistema capitalista, ao sistema educacional, às religiões, ao suposto esvaziamento da moralidade, à "mecanização" do pensamento - ou seja, ausência de filtro crítico ou a falta de preocupação em desenvolvê-lo -, aos vários padrões contextuais da cultura ocidental, etc.. Tal proposta define uma banda que inteligentemente cruza temática ficcional com críticas de embasamento empírico, tornando tudo bastante interessante. Os rapazes realmente querem passar algo com as letras e a inspiração, a vontade de se expressar, pode ser sentida em seus conteúdos. Okay - a composição e a inspiração lírica não são (ainda) apresentadas de forma a serem definidas como a oitava maravilha do mundo; há injustas generalizações, informações faltando que deixam o contexto aberto e demonstram maturidade ainda incompleta na elaboração de uma trama (é meio clichê, até), determinadas críticas, como a sobre a competitividade, não chegam a superar o senso comum e a própria crítica acaba até por desumanizar aquilo que eles criticam por estar se desumanizando... Enfim, algumas reflexões podem ser melhor refinadas e ampliadas. Mesmo assim, dificilmente uma banda se dispõe a colocar esses debates na mesa de forma tão atraente e eficaz. Não é à toa que a parte lírica por si só está recebendo grande e positiva atenção nesse texto.

Musicalmente, o Deadpan se diz influenciado pelo Death Metal e é divulgado como Progressive Death Metal. Porém, honestamente, dou-me a liberdade de discordar e defini-los como Progressive Thrash Metal. Aos meus ouvidos, se a complexidade da estrutura composicional e a rapidez diferentes notas fossem retirados, mantendo certa retilinearidade, velocidade de batida e a timbragem dos instrumentos, teríamos um exímio Thrash Metal puro e tradicional, de muita qualidade. A afinação não é tão grave, a produção não é tão densa, muito embora os vocais de Gustavo de fato estejam centrados nos guturais típicos do Death Metal. Acima dessa base, o Progressive Metal vem para complexificar, somar e dar ainda mais lucidez e personalidade para essa brilhante sonoridade.

Aquelas notas apelativas e velozes que são esperadas de uma banda de Prog Metal são encontrados no Deadpan, e o peso, rapidez e violência das músicas transformam o disco numa experiência bastante convincente e sugadora. A bateria de Igor, em ótima performance e timbragem, só vem a ditar com muito calor o ritmo das canções, levando à bateção de cabeça. Infelizmente, não há solos de guitarra e, apesar do Progressive Metal acoplado na arquitetura dos riffs, tal influência não se estende à duração das faixas, que têm, em média, 4 minutos de duração.

Em vista da quantidade de faixas (apenas 6) e da duração total delas (24 minutos), considero "In Aliens We Trust" um EP, muito embora seja divulgado como um full-length. Entretanto, rótulos são rótulos, e no caso do Deadpan, isso não importa. Uma grande banda sulista está em atividade no cenário nacional e ela deve ser ouvida. Não haverá arrependimentos, com certeza. Olho nesses caras, que ainda trarão mais lançamentos interessantes e ainda mais maduros no futuro!

A arte gráfica do registro tem o próprio vocalista/guitarrista Gustavo Novloski como responsável. Todas as letras foram compostas pela banda. O encarte traz breves notas antes de cada música, sempre escritas em português mesmo, de forma a situar o leitor/ouvinte sobre as inspirações e que o que está acontecendo naquele momento da história. As linhas de bateria foram gravadas no The Magic Place Studio e os demais instrumentos e vozes, no Calamar Studio, ambos em Florianópolis mesmo. A distribuição de "In Aliens We Trust" (título que brinca com o 'slogan' "in God we trust", presente nas cédulas estadunidenses) é reforçada pela assessoria de imprensa Sangue Frio Produções.

Após o lançamento, André Barreto deixa a banda e sua vaga no contrabaixo é ocupada por Anderson Biko.

Se você costuma ser desacreditado quanto à cena nacional e subestima o potencial das bandas de nosso país, o Deadpan pode lhe render uma experiência de amargura pela expectativa contrariada e de doçura pela qualidade desse power-trio catarinense.

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 In Aliens We Trust (2015)

02 - Unmasked Living
05 - Standard
06 - Two Faces

Ouvir (Bandcamp)

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