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domingo, 7 de agosto de 2016

Manu “Joker” Henriques (Uganga) - Entrevista

Um fã de cabeça aberta é sempre uma coisa benéfica e interessante, já que o livra das amarras de dogmas "tribais", enriquece o gosto musical, faz compreender a pluralidade desse universo sonoro e leva ao respeito aos diferentes estilos. Mas melhor ainda é quando os músicos são mente aberta e se mostram aptos a experimentar, a buscar algo externo ao estilo central executado, a usufruir de tudo o que for interessante na música, pois ela está aí livre para todos. Isso os mineiros do Uganga fazem sem medo, resultando em inegável personalidade.
Recentemente tive a oportunidade de entrevistar o vocalista Manu "Joker" Henriques, fundador e líder da banda, na labuta há mais de 20 anos com muita paixão, dedicação e confiança. O bate-papo transcorreu a história do Uganga, desde seu início, passando por suas influências, conceitos, turnês europeias, até o álbum mais recente e também o futuro.
Manu falou tudo em detalhes e com muito carisma! Confira abaixo na íntegra:

WOTM: Manu, antes de mais nada, obrigado pelo seu tempo!
É notável a metamorfose musical que a banda apresenta ao longo da discografia, muito embora aquele clima suburbano sempre tenha sido uma constante. No início de tudo, quando a banda foi fundada em 1993, quais eram os planos e influências?
MANU "JOKER" HENRIQUES: Cara, quando começamos o lance era mais diversão do que qualquer outra coisa. Todos integrantes tinham outras bandas, no meu caso tocava bateria no Nuts, e montamos o então denominado Ganga Zumba para tocar alguns covers que curtíamos. Grupos como Rollins Band, Butthole Surfers, Fugazi, Rage Against The Machine entre outros estavam em nosso repertório e acabaram nos influenciando, uns mais que outros. Com o tempo começamos a compor alguns sons em português e por volta de 96 a coisa ficou mais séria. Lançamos duas demos e em 2002 saiu o primeiro full, “Atitude Lótus” (independente), já com o nome Uganga. Realmente é um trabalho muito diferente musicalmente do que fazemos hoje apesar de, por outro lado, também ter muitas coisas em comum com o Uganga atual. É um álbum muito experimental de uma banda que ainda buscava sua identidade e tinha um processo de composição meio caótico (risos). Pra você ter uma ideia eu entrei no estúdio sendo baterista e saí vocalista (mais risos)! Enfim, mesmo sendo um trabalho um pouco confuso eu ainda o acho um bom álbum e ele precisava sair pra banda não acabar. Antes mesmo de colocarmos o CD na praça o Uganga passou por uma reestruturação total, tanto de integrantes como musical, e de maneira natural fomos pesando nossa música, tocando, ensaiando, compondo e deixando rolar... Quatro anos depois, com nosso segundo álbum, “Na Trilha do Homem De Bem” (Incêndio Discos/2006), traçamos esse rumo que foi ratificado no terceiro trabalho, “Vol. 03: Caos Carma Conceito” (Incêndio Discos/Freemind/2010). Desde então o Uganga vem aprimorando essa fórmula, porém nunca deixando de olhar pra frente e sempre fazendo música livre de amarras. Particularmente foi algo como voltar as minhas raízes de Metal e Hardcore/Punk, mas acrescentando o background adquirido nos primeiros anos da banda. Precisei passar por essa fase, da qual me orgulho muito, pra renovar minhas energias e voltar a fazer o que realmente está no meu sangue.

WOTM: O primeiro nome do Uganga foi Ganga Zumba, certo? Por que essa escolha atípica, e o que levou à mudança de nome?
MANU: O nome Ganga Zumba foi sugerido pelo Leospa, nosso primeiro vocalista. Eu e ele praticávamos capoeira e nas rodas tinha uma ladainha bem legal que falava de Ganga Zumba, líder do Quilombo dos Palmares e tio de Zumbi. Pesquisamos um pouco sobre sua história, achamos interessante e aceitamos batizar a banda assim. Ficamos com esse nome até 99, quando, em meio a várias tretas internas, descobrimos que havia outro grupo detentor desse registro. Se não me engano era uma banda de Reggae da Bahia. Pra não perder a conexão com o primeiro nome eu dei a ideia de mudarmos para U-ganga, inicialmente grafado com hífen. Era uma variação de como as pessoas mais próximas se referiam ao Ganga Zumba, “O Ganga”, porém mudando a letra “o” por “u” de união. Sem união uma banda não se mantém. Uganga não significa nada, mas anos depois descobrimos que a deusa hindu do rio Ganges (Índia) se chama Ganga. Achamos isso bem legal (risos).

WOTM: Geralmente as bandas de Metal, seja lá de qual país sejam oriundas, optam por compor letras em inglês, tanto pela estética da língua se aplicar ao estilo quanto pela presença global da língua, sobretudo no mercado fonográfico. Por que o Uganga optou por compor em português?
MANU: Antes de tudo, não nos vejo como uma banda puramente Metal. Com certeza o estilo é parte da nossa base, das nossas raízes mais profundas, mas o Punk e o Hardcore são igualmente importantes pro som do Uganga. Sobre cantar em português, essa sempre foi nossa opção desde o início. Eu escrevo a maioria das letras e me expresso melhor na nossa língua, apesar de já ter composto e tocado em bandas que optam pelo inglês. No caso do Uganga, é parte da nossa identidade e seguiremos assim independente de onde estiver indo a maioria. Concordo que o inglês é a língua predominante no estilo, mas hoje em dia é comum você ver bandas cantando em finlandês, sueco, espanhol, norueguês, entre vários outros idiomas, e sendo muito bem recebidas em todo o mundo.


WOTM: Que tipo de obstáculos já sentiram, mesmo que de forma implícita, por cantarem em português? Vocês sentem alguma resistência por parte de público ou mesmo mídia?
MANU: Cara, obstáculos para bandas underground são vários, mas em relação especificamente a cantar em português, não me lembro de enfrentarmos resistência. Claro que tem uma parcela do público de música pesada que não aceita nada fora dos clichês, fora do óbvio, e criticam tudo o que não entendem. Porém pessoas assim não nos interessam. Fazemos música para nós seis, antes de tudo. Fora disso gosta quem quiser.

WOTM: A formação do grupo permanece intacta há mais de dez anos, sendo que as alterações não modificaram um por outro, e sim somaram. O que era um quarteto à época do primeiro álbum (“Atitude Lótus”, 2003) é hoje um sexteto. Qual o segredo?
MANU: Sinceramente, não sei (risos). Fazer música, ainda mais música pesada no Brasil, não é algo fácil de explicar. Se for pensar em uma palavra pra definir esse segredo, eu diria que é amor. Se o seu coração não está naquilo, não adianta buscar a fórmula perfeita. O Rock 'n' Roll não é uma ciência exata. Temos uma unidade muito forte e, enquanto for assim, a banda seguirá firme.

WOTM: Em “Atitude Lótus” (2003), a banda tem uma orientação mais leve, posicionada em estilos como Ska e Skate Rock, ainda com íntimos flertes com o Rap. A partir de “Na Trilha do Homem de Bem”, a sonoridade muda quase completamente, situando-se mais no Hardcore, Punk, e isso se desenvolveria até o Thrashcore e Groove Metal atuais. Mudanças naturalmente levam à indagação: por quê? Quais foram os incentivos para uma mudança que altera não apenas a musicalidade em si, mas também o público-alvo?
MANU: Nunca buscamos um público-alvo - isso é fato. Já dividimos palco com Racionais MC’s, bandas de Black Metal ou grupos de Indie Rock (risos). Na real, isso rola até hoje! É claro que se você curte Rock pesado, é mais fácil gostar do Uganga, mas fazemos música para nós mesmos e para quem quiser curtir, independente de tribo, seita ou clã (risos). Nesses mais de 20 anos, nós deixamos a nossa vontade nos guiar e nada mais além disso. Concordo com sua análise sobre o primeiro álbum, ele realmente é bem mais leve que os outros trabalhos e, como disse, é fruto de outra formação e de uma banda que ainda buscava se encontrar. Já no segundo CD, realmente a veia Hardcore/Punk é bem latente, mas nele tem uma faixa como “Procurando O Mar”, que é puramente Thrash Metal. Assim como em “Opressor”, o Hardcore se apresenta forte numa música como “Guerra”. Evolução técnica também é algo que fez nossa música ficar mais trabalhada, talvez mais Metal.  Acho que hoje sabemos condensar melhor nossas diversas influências no som do Uganga e soar de maneira mais uniforme e pessoal. Criar uma assinatura leva tempo.

WOTM: Em “Opressor” (Sapólio Rádio/2014), o Uganga claramente amadureceu bastante; o som ganhou consistência e coerência que se destacam em meio aos discos anteriores, que são excelentes. Por sinal, a capa seguiu o passo, pois é belamente elaborada e conceitual. Qual a mensagem que ela visa transmitir?
MANU: A ideia da capa veio de uma entidade imaginária, o Opressor, algo como uma versão Punk da deusa da destruição Kali (risos). O conceito é esse, uma entidade criada e fortalecida a partir das fraquezas do ser humano, dos vícios, da luxúria, da violência, da corrupção, da fé cega, enfim, de toda essa merda que convivemos dia a dia. A capa foi criada pelo Beto Andrade, um artista de Belo Horizonte, e o encarte ficou por conta do Marco (batera do Uganga e meu irmão). Ambos souberam retratar muito bem o conceito do álbum.


WOTM: O disco apresenta também algumas passagens dialogais, aparentemente extraídas de filmes, entrevistas e afins. Quais as origens desses trechos? As músicas foram compostas em torno deles?
MANU: Desde o início usamos vinhetas de ligação em nossos trabalhos. Não em todas as músicas, claro, mas de forma pontual em determinadas partes. Essas ideias vêm depois das composições finalizadas, quando montamos o tracklist e decidimos onde e o que usar. No “Opressor” temos trechos de filmes nacionais e estrangeiros, uma parte de um documentário sobre nossa área e até instrumentos tocados por nós mesmos, como os atabaques na faixa “Noite”.

WOTM: Quais as referências musicais para o desenvolvimento da sonoridade em “Opressor” (já que é o disco mais Metal da discografia), e que tipos de assuntos influenciaram a composição das letras?
MANU: Eu diria que as nossas referências são as mesmas, porém melhor inseridas em nossa música. Temos gostos musicais variados e estamos sempre ouvindo muita coisa, muita velharia, mas também muita banda nova, depende do integrante. Em se tratando especificamente de Metal/Hardcore/Punk, algumas bandas devem ser citadas quando falamos do Uganga: Black Sabbath, Motörhead, Faith No More, Venom, Exodus, Discharge, Dorsal Atlântica, Suicidal Tendencies, Helmet, Prong, Celtic Frost, Sarcófago, Mayhem, Sepultura, Metallica, Vulcano, Biohazard, entre várias outras são e sempre serão grandes influências pra gente. Sobre as letras, a inspiração desde o início é o que está a minha volta e as minhas percepções, positivas ou não, dessas coisas. No caso do “Opressor”, acho que o planeta vive um momento de imbecilidade muito grande, no qual incluo todos nós, e isso ditou os rumos do texto.

WOTM: Vocês já realizaram duas turnês europeias, algo que nem sempre bandas brasileiras conseguem – e ainda por cima graças a músicas cantadas em português. Como foi a recepção dos europeus nos shows? Como foi serem os gringos da vez?
MANU: Não sei se foi graças a cantar em português que essas tours rolaram, mas com certeza isso não nós atrapalhou em momento algum. A recepção nas duas vezes foi excelente, sem demagogia nenhuma. Claro que sei que a maioria das bandas fala isso quando volta de lá, mas no nosso caso é a mais pura realidade e os vídeos estão aí pra provar isso, assim como nosso CD ao vivo, gravado no “Razorblade Festival” (Alemanha), quando de nossa primeira tour gringa. Tocamos em vários países para casa cheia, casa vazia, de segunda a segunda e pra plateias distintas. Não importa se eram punks, roqueiros das antigas, thrashers, a galera do Metalcore ou 'trues' da velha guarda, nós sempre fomos bem recebidos. Acho que em parte se deve a realmente sermos uma banda energética e verdadeira no palco e as pessoas percebem isso, mas também devemos muito ao caminho pavimentado na Europa pela cena clássica nacional dos anos 80. Bandas como Vulcano, Taurus, Overdose, Dorsal Atlântica, Ratos de Porão, Holocausto, Cólera são adoradas por um público enorme.

WOTM: E o futuro? Há planos para um novo álbum? Um eventual novo disco seguiria a linha de “Opressor” como um ponto de referência conceitual, ou as composições tomam forma de maneira mais natural e livre, como se elas pegassem a mão do compositor e o guiassem – e consequentemente a personalidade Uganga seria resultado inevitável?
MANU: Estamos neste momento focados na composição do próximo álbum que já está bem adiantado. Ainda temos algumas datas da tour do “Opressor”, tocaremos em alguns festivais aqui no sudeste/centro-oeste, faremos duas semanas no nordeste, mas de novembro pra frente vamos parar e nos dedicar 100% a finalizar o novo álbum. Acho que ele será uma continuação natural do “Opressor” porém com três guitarras e algumas novidades, pois zona de conforto não nos interessa. O novo guitarrista, Murcego González, trouxe uma pegada mais clássica que se encaixou muito bem com o estilo mais Thrash do Christian e do Thiago. Será nosso primeiro trabalho como sexteto e está soando muito bem. Com certeza podem esperar um álbum bastante pesado! O CD deve sair ainda no primeiro semestre de 2017 aqui e muito provavelmente na Europa. Antes, porém, a Sapólio Rádio lança até o final do ano um DVD comemorando mais de duas décadas de banda com um documentário e um show bem especial aqui na nossa área .

WOTM: Para finalizar, Manu, informe como o fã pode proceder para adquirir o merchandising oficial da banda.
MANU: É só acessar o site da Incêndio Shop que cuida do nosso merchandise www.incendioshop.com.br. No Facebook do Uganga também tem um link pra loja virtual ou você pode ir direto no site da banda www.uganga.com.br e conferir outras coisas também tipo vídeos, agenda, fotos, etc.

WOTM: Certo! Manu, muito obrigado pelo momento dedicado a essa entrevista. Desejo sucesso à banda, que faz som de qualidade. Que venham novas músicas e novas turnês ao Uganga! O espaço está livre para você deixar uma mensagem aos leitores:
MANU: Eu agradeço a oportunidade de poder falar um pouco, ou bastante, sobre o Uganga (risos). Se cuidem e nos vemos na estrada!

Mais informações:
www.uganga.com.br
www.twitter.com/uganga
www.youtube.com/ugangamg
www.facebook.com/ugangaband
www.sapolioradio.com.br

Entrevista por:
Walker Marques
Warriors Of The Metal

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- Todas as novidades sobre o Uganga podem facilmente ser acompanhadas através da página no Facebook, onde publicam fotos, agenda, e todo tipo de informações relacionadas à banda! O disco mais recente, "Opressor", pode ser encontrado para audição também no Spotify!


Um comentário:

  1. 4 de Setembro (Domingo), de manhã, terá show do "Sepultura", GRÁTIS no Anhangabaú, centro de S.Paulo. Espero q toquem "From the Past Comes the Storms".

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