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terça-feira, 12 de julho de 2016

Higher - Discografia Comentada

De uma perspectiva musical geral, o Metal é um estilo de música pesado. Mas da perspectiva daqueles que são adeptos do estilo, nem todas as bandas e gêneros soam exatamente pesados como soariam pra alguém de fora do estilo.
Muitas vezes quando buscamos peso, distorções realmente distorcidas e produção refinada que valorize isso, temos que recorrer ao Metal Extremo para obtê-los. Bandas que cantam limpo tendem, em geral, a não carregar tanto peso assim no instrumental. No entanto, como tudo na vida, sempre há as exceções, e uma delas faz Metal realmente potente e pesado com vocais limpos diretamente de Campinas, no interior de São Paulo: o Higher.
Rotular o som da banda é uma tarefa complicada - e essa não é uma ideia induzida pelo release oficial. Trata-se de uma constatação honesta por parte deles. O conjunto pratica uma lúcida e técnica mistura entre Groove Metal, Heavy Metal e altas projeções de Progressive Metal, sem contar as nuances melódicas, mas cujo resultado final é tão uníssono que não cabe nos rótulos.
Musicalidade de tamanha qualidade tinha mesmo que, obrigatoriamente, vir de músicos de qualidade. O engraçado é que os fundadores Cézar Girardi (vocal) e Gustavo Scaranelo (guitarra) têm muita bagagem na música, mas em outros ramos, como o Jazz e a música instrumental - daí a sustentação do argumento sobre serem experientes e técnicos. Fizeram carreira nessas áreas. Contudo, sempre gostaram também de Metal, até que decidiram, por volta de 2014, fundar uma banda do gênero após uma conversa telefônica. Foi assim que nasceu o Higher.
A ideia era aproveitar antigas composições dos tempos da banda Second Heaven (que ambos criaram em 1995 mas não lançou discos), revisá-las com base na experiência adquirida ao longo das quase duas décadas até então e dá-las uma nova cara, mais moderna, além de compôr novas canções.
Para dar vida às músicas e completar o line-up, a dupla convocou dois músicos confiáveis: no baixo, o chileno Andrés Zuñiga (ex-professor do EM&T e colunista da revista Bass Player); e para a bateria, Pedro Rezende (ex-aluno de Virgil Donati, do Planet X, na Austrália).
Como resultado, saiu em 2014, de forma independente, o primeiro álbum do Higher, batizado com o nome da própria banda. Distribuído pela Som do Darma, ele reúne nove sólidas e pesadas faixas que totalizam fluidos 40 minutos. O resultado é absolutamente positivo.
Não são músicas difíceis de se assimilar, mas ao mesmo tempo é notável o empenho e complexidade no trabalho de composição delas. A arquitetura composicional é muito bem trabalhada, fugindo do básico simplesmente o tempo todo. Por isso percebe-se que as músicas se fundamentam em bases personalizadas, pensadas, tornando evidente que os compositores (os dois fundadores) planejaram todos os detalhes.
As canções são realmente pesadas. Elas apresentam riffs carregados de groove que dão aquela prazerosa sensação de peso e esmagamento, ao mesmo tempo em que o lado técnico aflora com a injeção progressiva aplicada. Logo, aparecem arranjos escalados, ricos em quebras de ritmos, pausas e que logo se convertem em um andamento mais pegado. A característica de alternância que tanto exploram ao longo do disco também se estende ao lado melódico, já que com muita naturalidade o peso também é substituído pela doce harmonia melódica de modo que chega até a lembrar o Carcass à época de "Heartwork". Não podemos nos esquecer dos solos de guitarra, que a exemplo das bases, também preservam características múltiplas, sobretudo a união de feeling e técnica. São simplesmente fantásticos e verdadeiros cartões postais da habilidade de Gustavo.
Quando um instrumental é muito bom, tem-se algum receio de que o vocalista não seja capaz de acompanhar o nível e possa prejudicar. Felizmente esse não é o caso de Cézar Girardi. Com excelente extensão vocal, o intérprete canta com a agressividade que as canções exigem, em raivosos drives que se encaixam com maestria na proposta. Além disso, também se rende ao exemplo da melodia instrumental, então entrega momentos de vocal mais limpo, sobretudo nos refrões, muitas vezes mais cadenciados em relação aos demais momentos das músicas. Agudos também são explorados, só que com pouca frequência - o que, de certa forma, valoriza os excelentes momentos que eles entram (vide o fim de "Illusion" - fantástico!).
É evidente que Cézar não canta com voz plena. Seu vocal é tão técnico quanto a banda se propõe a ser. Por isso chega a dar um positivo susto de impressionamento quando canta grave na semibalada "Break The Wall", revelando a qualidade das áreas mais baixas de sua extensão. Linda música, e fantástica performance do vocalista no decorrer do álbum.
O disco também apresenta diversas inserções de vocais de apoio, sempre trabalhados pela produção de modo que ficam distantes e profundos. Por vezes, soam até épicos, de modo que lembra bandas heroicas de Viking Metal, como mostram "Lie", "Illusion" e "Like The Wind". É um detalhe nem tão esperado que acrescentou muito à proposta.
Em se tratando de uma banda de músicos técnicos, de bagagem, especialmente na área do Jazz, espera-se um disco de certa forma apelativo, do tipo "de músico para músico". A não-correspondência dessa expectativa certamente é uma das coisas mais positivas do trabalho, pois aproxima a banda do ouvinte que só quer ouvir boa música e o permite apreciar e gostar das canções sem problema nenhum, mesmo que, apesar de ter sentimento, por vezes soa um tanto mecânico. Ócios da técnica. Ainda assim, grandioso trabalho mestrado Cézar Girardi e Gustavo Scaranelo! Excelente álbum.
Provavelmente o ouvinte que conhece Noturnall sentirá certa familiaridade ao ouvir o Higher. Isso não se deve apenas ao fato da proposta ser parecida, mas também porque Thiago Bianchi assina a produção, que aconteceu no Fusão Studios. Logo, reciclou as mesmas ideias que já vinha aplicando em sua banda, que estava lançando o primeiro álbum. Ela realça o lado mecânico da banda, o que pode ser um fator negativo pra quem gosta de sentimento, ainda assim valorizou com grande eficácia as timbragens dos instrumentos e deu ótimas ideias de como adornar as linhas vocais.
Após o lançamento, mudanças na formação. A primeira dela foi o acréscimo de um segundo guitarrista. Felipe Martins tinha apenas 16 anos, mesmo assim ganhou o voto de confiança da banda, principalmente porque era acompanhado de perto por seu professor, o próprio Gustavo Scaranelo. Pouco depois, em 2015, o chileno Andrés Zuñiga deixou a banda, e seu posto foi ocupado por Will Costa.
Há tantas bandas de qualidade pipocando nos dias de hoje que fica difícil dar atenção a todas. Muitas passam despercebidas. Se gosta de peso e técnica sem precisar recorrer a repartições mais extremas do Metal, certamente o Higher satisfará. Banda de bom gosto.

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 Higher (2014)

01 - Lie
02 - Illusion
05 - Like The Wind
07 - Time To Change
08 - Make It Worth
09 - The Sign

Ouvir (Spotify)

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