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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Intrinsic - Discografia

Antigamente, fazer música era uma coisa muito mais complicada do que é hoje em dia. Bandas que não se adequassem aos estilos comerciais de uma época corriam grande risco de não se sustentarem por muito tempo. Muitas pereceram em decorrência disso, seja por tocarem algo diferente da moda, seja por surgirem tarde demais, em um momento em que o mainstream mudava seu foco. É claro que exceções existiram - afinal, são elas que mudam os cursos da indústria -, mas, ainda assim, sempre foi arriscado.
Incrivelmente, vivemos uma época um tanto mais liberal musicalmente. É verdade, o mainstream ainda está aí dando dinheiro, mas não segui-lo não necessariamente força sua desistência. Fazer música continua difícil, porém, testemunhamos um momento em que todo mundo pelo menos tem a chance de demonstrar o que é capaz de fazer, já que está possível gravar e produzir com qualidade até mesmo no próprio quarto e lançar na rede para quem queira ouvir. Tal facilitação acirra a concorrência... ainda assim, talvez seja melhor do que apenas poucos terem condições de fazer músicas e lançá-las. Essa facilitação, além de contribuir com o aparecimento de cada vez mais bandas novas em folha, tem como outro efeito colateral o reaparecimento de bandas antigas, que finalmente estão vislumbrando um cenário que as permita tocar aquilo que gostam e atingir o público alvo, independente de qual seja a música comercial do momento.
Agora você deve se perguntar: "o que isso tem a ver com a postagem?" Tudo! Os estadunidenses do Intrinsic começaram suas atividades há muito tempo (ainda nos anos 80), mas tiveram problemas para lançar discos devido às mudanças no cenário musical nos anos 90, levando até mesmo ao arquivamento de um disco sem lançá-lo. Passaram então por um longo hiato, até que, em 2015, viram a oportunidade de soltarem o álbum "Nails", quebrando um jejum de quase 20 anos em relação ao disco anterior. O disco coroa o retorno de uma banda que demonstrou qualidade desde o início por meio de uma musicalidade tradicional, extremamente bem arquitetada e não-genérica, exalando a exuberância de estilos como Heavy Metal tradicional e Thrash Metal em suas variadas formas ao longo de seus discos, além de outros elementos.
O ano era 1984 quando os guitarristas Michael Mellinger e Ron Crawford decidiram dar início ao Intrinsic na cidade de San Luis Obispo, na Califórnia. Ao longo dos tempos subsequentes, a dupla foi incrementando a formação, até que se estabilizou com as adições de Garrett Graupner no vocal, Joel Stern no baixo e Christopher Binns na bateria. Esse foi o quinteto que seguramente entrou em estúdio e lançou em 1987, através da No Wimp Records, o homônimo álbum de estreia.
É rapidinho: apenas 32 minutos totais, distribuídos ao longo de oito faixas. Mas convence e satisfaz bastante! Um excelente Heavy Metal é executado com toda a classe de uma gravação oitentista, esboçando também em diversos momentos os contornos de um bom Thrash Metal clássico. De forma bastante natural, a sonoridade pende ao Speed, já que frequentemente a aceleração da execução dos instrumentos cria essa tendência e os solos de guitarra seguem o mesmo passo. Mesmo com a pegada mais rápida, os arranjos não perdem beleza e se mostram potentes, bem trabalhados e heterogêneos - com uma produção moderna, ficariam esmagadores. Há espaço até mesmo para uma faixa instrumental completa e redonda como "Compo", que é realmente excitante. Diante do contagiante instrumental, canta um excelente vocalista que aposta em tons mais altos e serpenteantes vibratos. Sua limpa voz ocasionalmente se converte em um agressivo rasgado de acordo com a passagem e puxadas agudas também são exploradas aqui e ali. Uma abordagem clássica pra um instrumental clássico, desembocando em um cativante álbum de atmosfera tradicional. Ele pega de jeito quem viveu os anos 80.
Shows aconteceram nos tempos seguintes, inclusive abrindo para bandas como Megadeth e Armored Saint. Contudo, acabou que o vocalista Garrett Graupner deixou o conjunto ainda em 1987. Seu substituto foi conhecido no ano seguinte - aliás, já era um cara conhecido, se me permite ampliar o sentido da palavra -, sendo ele ninguém menos que David Wayne (ex-Metal Church e Reverend). Junto do ilustre vocalista, o Intrinsic realizou shows pela costa oeste dos Estados Unidos e escreveu novas canções. O problema é que em pouco tempo ficou claro que o frontman não tinha as mesmas visões que os demais em relação ao futuro musical da banda, então sua passagem durou apenas seis meses. Na mesma época, outra baixa irrompeu na formação com a saída do guitarrista e fundador Ron Crawford.
Felizmente, as duas vagas em aberto não levaram muito tempo para serem ocupadas novamente; o vocalista Lee Dehmer Jr. logo foi convocado em 1989, e ele, por sua vez, trouxe o guitarrista Garrett Craddock, amigo de sua outra banda, o Mr. Shade. Ambos tinham uma relação distante com o Intrinsic, já que eram de Phoenix, no Arizona. Por isso os trabalhos de composição do próximo trabalho foram realizados apenas entre o trio de San Luis Obispo. Passado algum tempo, Lee Dehmer comentou que o Mr. Shade estava encerrando suas atividades e, por isso, ele e Craddock se mudariam para a Califórnia, solidificando de vez a formação da banda.
Foi então que o EP "Distortion of Perspective" saiu em 1990 pela Cheese Flag Records, contendo cinco faixas - incluindo uma intro e uma fodíssima faixa instrumental de 6 minutos ("Maximator") que unifica Thrash Metal e Progressive Rock. Imprimindo tons mais altos que os de Garrett Graupner e ainda habilmente aplicando drives num estilo bem Hard Rock, Lee Dehmer se provou a escolha perfeita para uma banda que agora acolhia elementos Progressivos na musicalidade. Sua postura confortável elevou a interpretação das canções, que estão ainda melhores e mais maduras. A veia Speed não foi abandonada, como é possível testemunhar em "Piracy" e "Fear and Lothing", mas o grupo passou a também investir em composições com um pouco mais de cadência, a exemplo de "Sail Into The Sun" e vários trechos das demais faixas. Os californianos claramente evoluíam e mereciam mais visibilidade.
Empolgado com os resultados e com tudo que os novos membros acrescentaram à musicalidade e às próprias amizades, o quinteto seguiu trabalhando em novas canções, já pensando no segundo álbum. O processo transcorreu até outubro de 1991, quando entraram no Sandor Sound Studios de Ed Sandor, em San Luis Obispo mesmo, e iniciaram as gravações. Enquanto Ed Sandor produzia as músicas, shows eram realizados e novas músicas eram escritas.
Chegando no início de 1992, estava tudo pronto e o álbum tinha um nome: "Nails". Era hora de lançá-lo através de alguma gravadora. No entanto, a indústria fonográfica já estava em metamorfose: o Grunge conquistava território, o Pantera e o Metallica ditavam como o Metal deveria soar... e "Nails", sendo um álbum complexo e não exatamente comercial, encontrou pesada resistência por parte dos selos, que preferiam não arriscar investir no lançamento de um disco sem garantia de retorno, por mais que ele já estivesse pronto e não fosse necessário pagar pela sua gravação e produção. Selo após selo rejeitava o álbum. Foi um balde de água fria que os forçou a desistir e arquivar o projeto. Mesmo desanimados, os caras seguiram adiante e continuaram compondo novas músicas, já que tinham começado.
Um ano mais tarde, gravaram uma demo que chamou a atenção do selo japonês Teichiku Records, culminando no imediato oferecimento de um contrato para que lançassem um álbum naqueles moldes. Foi assim que surgiu o excelente álbum "Closure", lançado em 1996, agora com Mike McLaughlin no contra-baixo. O registro também recebeu uma versão europeia através da Rokarola Records, mas com uma capa diferente, uma vez que acharam aquela da versão japonesa muito extrema. Nessa postagem é a capa japonesa que ilustra o álbum, mas a europeia está inclusa no arquivo.
Dessa vez, vemos um Intrinsic mais focado no Thrash Metal, recorrendo ao Heavy Metal de forma mais elemental, investindo em riffs esmagadores e músicas pesadas. A postura mais punho-firme se estende até os vocais de Lee Dehmer, que agora canta com agressividade de acordo com o estilo, aplicando intensos drives, mesmo quando sobe os tons. Vez ou outra, backing vocals são acionados em um bravo coro. Embora mais fortes, as músicas não perderam o profissionalismo que a banda sempre demonstrou, até porque sua forma de fazer Thrash é bastante diferenciada, daquelas não-genéricas. Arranjos bem desenhados, autênticos e cativantes são características marcantes de faixas de evidente consistência. Elas garantem um álbum heterogêneo sem perda de essência, onde o nível de variação de detalhamento de música para música impressiona. Cada uma delas tem sua personalidade, seus próprios traços, belos atributos que muitas bandas perderam hoje em dia com suas homogeneidades. Guitarras limpas, violões, vocais mais macios, outros mais acelerados flertando com o Rap, riffs quebrados... os caras experimentaram de tudo.
O instrumental é espetacular. É muito bonito ver como os caras se mantiveram fazendo músicas de qualidade mesmo após o baque com o "Nails". Detalhes menos considerados por muitas bandas foram bem trabalhados aqui, como a bateria de Christopher Binns, que está mais enriquecida, e as linhas de baixo do novo membro Mike McLaughlin, muito bem trabalhadas e diferenciadas. Não se limitam a apenas apoiar, mas a de fato acrescentar.
Em suma, o excelente trabalho rendeu um álbum de Thrash Metal não-genérico que chega até a lembrar de alguma forma o "Act III" do Death Angel, com lampejos também de bandas como Pantera, Anthrax e Annihilator. Só não tinha necessidade do álbum ser tão longo, mesmo com toda sua excelência. É um total de 67 minutos que cansa a partir de determinado ponto.
Infelizmente, "Closure", lançado na época errada, não foi nenhum sucesso comercial. Diante das dificuldades e de todo o desânimo, o Intrinsic se dissolveu no mesmo ano, mergulhando num profundo silêncio que duraria muitos, muitos anos.
Exceto por shows de reunião realizados em 2005 e 2007, a banda se manteve por quase duas décadas sem nenhuma atividade, não dando nenhum sinal de que voltariam... até que o fogo foi reacendido em 2014 diante de um cenário musical muito diferente daquele dos anos 90. Os membros estavam morando em cidades diferentes pelos Estados Unidos, mesmo assim passaram a compôr novas músicas e reativar a antiga paixão: o Intrinsic estava de volta.
Trataram então de se modernizar. Criaram perfis em redes sociais e, a partir delas, tiveram contato com um fã austríaco, com quem mencionaram sobre o álbum nunca lançado. O rapaz, colecionador, alegou que sabia de algumas gravadoras que teriam interesse em lançá-lo, já que focavam em lançar discos dos anos 80 e 90 que, naquela época, eram inviáveis. Uma delas era a Divebomb Records, e um contrato foi firmado. Finalmente, após mais de 20 anos, "Nails" encontraria seu lugar ao sol e mostraria seu potencial.
No entanto, não foi fácil; as fitas máster originais estavam degradadas após duas décadas de desuso. As colas que grudavam as fitas uma na outra estavam secas e inúteis. Elas tinham cores estranhas e, ao reproduzir, o som travava, arranhava, não reproduzia. Pior: precisavam ainda de uma máquina de gravação específica e antiga para transferir as fitas máster análogas para o formato digital, algo que ninguém mais tinha. Após muito procurarem, finamente conseguirem algum produtor que ainda tivesse uma e lançar mão de artimanhas bizarras e dramáticas como colocar as fitas num forno microondas para reativar a cola, finalmente foi possível obter os sons originais e remixar apropriadamente, com produção moderna.
"Nails" foi finalmente lançado no dia 21 de agosto de 2015 e, cara, o resultado impressiona. A produção de Rich Mouser, que unificou tecnologias análogas e digitais, resgatou o máximo de potencial das canções e o fez um álbum digno do ano de 2015. Talvez "Nails" simplesmente fosse um álbum à frente de seu tempo, aguardando o momento apropriado para chegar ao conhecimento do público. Sua musicalidade complexa e bem formulada é um inspirado híbrido de Thrash Metal com Heavy e Progressive Metal. Não é tão agressivo quanto "Closure", mas seu peso satisfaz bastante, até pela roupagem moderna. Lee Dehmer tem performance vocal exemplar, cantando agressivo com elevações de tom, como sabe muito bem.
Novamente, cada canção tem sua própria identidade, algumas até inusitadas como a instrumental e progressiva "Yikes!", a bela versão de "Dazed and Confused" (cover do Led Zeppelin), a divertida faixa bônus "Cannabis Sativa" - que utiliza até trompetes -, além das baladas e limpas "Mourn For Her" e "Inner Sanctum", essa última repleta de suaves vocais de apoio e até exploração de violino. A experiência auditiva é completa e dinâmica, fluindo mais facilmente que o antecessor.
Agora o Intrinsic está definitivamente de volta à ativa e se preparando para futuros lançamentos. Em vista do grande profissionalismo desses caras, a expectativa é, evidentemente, de mais trabalhos impressionantes, à altura do alto nível de qualidade deles como músicos. Todo respeito à essa banda cheia de história, de luta e, principalmente, de qualidade. Conhecer sua trajetória e assimilar a excelência de seus trabalhos certamente faz o ouvinte perder o fôlego em admiração. Quem gosta de musicalidade sucinta e heterogênea não pode deixar essa banda passar. Vá por mim!
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SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: intrinsicnails2015@gmail.com


 Intrinsic (1987)

01 - Ahead of The Game
02 - Hit The Streets
03 - Compo
04 - RIP!
05 - Possessor
06 - No Return
07 - Leaving Insane
08 - Wasted Life


 Distortion of Perspective (EP) (1990)

01 - Distortion of Perspective
02 - Sail Into The Sun
03 - Piracy
04 - Maximator
05 - Fear and Loathing


 Closure (1996)

01 - The Wheel
02 - Up For The Slam
03 - BKB
04 - 3x0
05 - Falling In
06 - End Times
07 - Nothing Special
08 - I Still Feel Ya
09 - Bystander
10 - Someone's Gotta Pay
11 - Try My Luck
12 - Visceral
13 - Brutally Frank
14 - The Reasons Why
15 - Who Goes There?


 Nails (2015)

01 - State of The Union
02 - Fight No More
03 - Die Trying
04 - On Gossamer Wings
05 - Pillar of Fire
06 - Mourn For Her
07 - The Vicious Circle
08 - Denial
09 - Yikes!
10 - Inner Sanctum
11 - Dazed and Confused (Led Zeppelin Cover)
12 - Too Late But Not Forgotten
13 - Cannabis Sativa (Bonus Track)


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