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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Ne Obliviscaris - Discografia

Nos tempos atuais, mais do que nunca na história, diz-se que não há muito mais o que fazer no Metal senão reproduzir de diferentes maneiras tudo aquilo que já foi anteriormente inventado. Diz-se que a originalidade e criatividade estão comprometidos. Tal alegação não é de todo mentirosa, afinal, todos conhecemos diversas bandas que são quase clones de outras, funcionando meio como uma extensão, um novo álbum das originais. Claro, isso é bom na perspectiva dos fãs, pois muitas vezes buscam mais de exatamente aquilo que tanto apreciam. Já musicalmente falando, não é algo muito interessante ou louvável.
Ainda assim, existem bandas que transitam na porcentagem equivocada da afirmação. É bem verdade que hoje surgem mais bandas misturando gêneros já existentes do que dando à luz estilos totalmente novos. Mas isso não quer dizer que a criatividade e viabilidade de fazer algo único não se manifestem. Na Austrália existe uma banda chamada Ne Obliviscaris que se mostra capaz de moldar canções incríveis a partir de estilos já existentes. Brincando com os opostos mais extremos da música, o sexteto é exuberante em sua musicalidade, caracterizada por longas e progressivas músicas de um momento alucinadas e, no seguinte, um breu de quietude e paz que sugam o ouvinte. Unificando basicamente Progressive Metal e Black Metal a diversos outros rótulos, muitos elementos acústicos, intensa exploração de violinos e vocais desde limpos a guturais - além de grande inteligência composicional -, a banda vem conquistando território com seu intenso e sonoro "caos organizado".
Embora esteja se tornando mais conhecida apenas a partir de 2012, a banda é relativamente antiga, já com mais de 10 anos de estrada acumulados. Suas origens remontam até o ano de 2003 na cidade de Melbourne, no Estado da Victoria, quando de fato tudo começou. O nome escolhido é tão excêntrico quanto a sonoridade que produzem. "Ne Obliviscaris" - pronunciado corretamente como "nai obliviscaris" - é uma expressão extraída do latim, que significa "não se esqueça".
Naquela época a formação consistia em Xenoyr no vocais guturais, Sheri-Jesse nos vocais sopranos, Adam Boddy na guitarra, Adam Cooper no contrabaixo, Corey Baker na bateria e Tim Charles no violino. Contudo, em apenas uma questão de dois anos, a maior parte do line-up foi reformulada de forma a restar apenas Xenoyr e Tim Charles como remanescentes originais - sendo que este último passou a dividir a função de violinista com a de vocalista limpo.
Logo, à altura de 2005, a banda estava com uma cara diferente por contar com, além da dupla original, Corey King e Matt Klavins nas guitarras, Brendan Brown no baixo e Daniel Presland na bateria. Essa foi a galera que entrou no Palm Studios em Melbourne em novembro de 2006 e gravou a demo "The Aurora Veil", lançada oficialmente e de forma independente em abril de 2007. Contendo três faixas que totalizam 33 minutos de duração, pouco nota-se que se trata de fato de uma demo. É muito bem gravada, o que valoriza a complexa e intensa sonoridade exalada nessas três canções, que viriam a integrar também o álbum de estreia. Apenas por alguns momentos percebe-se que é uma demonstração, talvez pela crueza do lado Black Metal em comparação com trabalhos posteriores, além dos vocais limpos estarem, por vezes, um pouco baixos, aparentemente alheios à porradaria sob os mesmos. Ainda assim, aquele era o retrato exato, musicalmente maduro e bem arquitetado do que consistiria a proposta da banda e como fazê-la soar.
Na sequência, aconteceriam mais algumas alterações na formação com as saídas do guitarrista Corey King em 2008 e do baterista Daniel Presland em 2011. Corey foi substituído por Benjamin Baret em 2009, enquanto Nelson Barnes chegou para a vaga de Daniel. Surpreendentemente, Barnes teve passagem relâmpago com fim decretado em 2012. A alteração foi então desfeita, já que Daniel Presland voltou ao posto.
As mudanças não alteraram a dedicação da banda para o álbum de estreia ao longo dos anos seguintes. O lançamento do tão aguardado título teve de esperar cinco anos desde a demo - até maio de 2012, quando veio à luz através da Code666 Records. Toda essa demora ocorreu principalmente devido à burocracia para a obtenção do visa australiano para Benjamin Baret, que é francês
"Portal of I" é uma grandiosa conclusão daquilo já anteriormente praticado na demo "The Aurora Veil". Aquela atmosfera inconstante e abruptas mudanças de andamento foram preservadas de uma forma incrivelmente fantástica e imersiva. Contudo, não há como negar que os extensos 71 minutos totais de músicas complexas, bem preenchidas e abundantes em detalhamentos instrumentais e vocais são bastante cansativos, mesmo que praticamente todas as músicas tenham momentos calmos e mais ambientais. Eles não bastam pra "descansar" os ouvidos, ainda mais que as canções têm em média 10 minutos de duração. Mesmo assim, apesar da grande demanda de energia para ouvi-la em sua totalidade, a obra é incrível e minuciosamente trabalhada.
É possível notar uma grande pluralidade de influências e recursos inseridos, sejam fundidos ou puros. Black Metal e o Progressive Metal são os estilos centrais que frequentemente se manifestam separadamente ou em crossovers plenos, cada qual conferindo técnica, versatilidade e violência ao outro. O Black Metal também entrega os raçudos guturais rasgados típicos, além da intensidade sonora e os blast beats da bateria. Já o Prog proporciona criatividade nos arranjos nos momentos em que rouba a cena, exibindo técnica, composições mais complexas e uma maior liberdade nas lindas linhas de baixo. A maleabilidade progressiva se estende aos ótimos vocais limpos, que geralmente cantam de forma arrastada, com notas muito bem sustentadas e equilibradas. Tal característica dá uma sensação de cadência e flutuação por mais que a fúria proveniente do Black Metal ainda se manifeste no instrumental.
Atrelado a isso, influências de Death Metal também fluem, bem como o Shred em trechos mais amenos, quando a técnica progressiva fala mais alto.
As duas polaridades vocais nem sempre assumem cada uma de uma vez certo momento da música, mas sim cantam ao mesmo tempo. Frequentemente um se torna backing vocal do outro, criando uma disparidade interessante e até insana, porém, coesa.
Sem dúvidas, em vista da dificuldade de assimilação do trabalho e ausência de refrões pegajosos ou fortemente marcantes como referência, o que oferece uma imprescindível beleza adicional é a linda e apelativamente técnica exploração dos violinos. Em momentos mais pegados, fornece arranjos melódicos, algumas vezes até em complemento com os profundos solos de guitarra, cheios de sentimento, enquanto nos momentos de calmaria, gera um ritmo distinto, mais dançante, refinado, daqueles que o levam a fechar os olhos e se deixar levar.
As canções são tão longas e há uma disparidade tão grande entre a agressividade e a paz que é comum o ouvinte crer que já se trata de outra música. Encarar tal característica como positiva ou negativa vai de cada um. Ainda assim, certamente, "Portal of I" é um álbum digno de parágrafos de elogios, mesmo que seja turbulento demais e ainda não demonstre a banda em sua mais consistente e apaixonante forma.
Ao contrário do longo tempo de espera entre os lançamentos anteriores, dessa vez foi um pulo para que o segundo álbum fosse lançado. Isso é justificável com base na excelente repercussão, positivas resenhas para "Portal of I" e consequente assinatura com o selo Season of Mist, responsável pelo lançamento do próximo título.
"Citadel" já é um álbum um pouco mais curto (totalizando 48 minutos de duração) e mais fácil de ouvir, mas a essência musical e característica de músicas extensas foram preservadas intactas e avassaladoras. Musicalmente, trata-se de um álbum mais equilibrado, não dotando, portanto, das inconstâncias e súbitas quebras de ritmo que tanto caracterizavam "Portal of I". Aqui, o Ne Obliviscaris é mais assimilável, mais temperado, maduro e também pé no chão. As canções não perderam a violência, mas não se mostram tão desenfreadas mais.
Atenção especial foi dada aos elementos acústicos, já que desfruta-se de uma maior incidência destes no decorrer das músicas com aplicação de violões, melhor trabalhamento nas linhas vocais limpas - que agora aparecem com mais frequência, variam mais de tom e estão mais belas - e uma simplesmente genial e apaixonante performance violinística, uma vez que o instrumento é explorado de modo extremamente romântico, por assim dizer. Sensacional!
Por outro lado, a fúria da veia Extrema da banda ainda lateja clamorosa, com muita intensidade e vivacidade, mas acoplando também alguns arranjos um tanto melódicos que, de certa forma, chegam a lembrar o Post-Rock. Ponto notável é também o melhor detalhamento e atenção aos solos de guitarra, que não são frequentes, mas, quando aparecem, são estupendos. Dando voz ao instrumental, os guturais geralmente são sustentados por uma segunda camada derivada da técnica, deixando as linhas mais demoníacas e encorpadas. Guturais mais fechados estão mais participativos, alternando ou concomitando com os guturais rasgados.
De modo geral, "Citadel" é um disco lindamente imersivo e obscuro, capaz de produzir uma atmosfera noturna difícil de não se deixar levar. Novamente, os violinos são parte importantíssima do maravilhoso clima desse trabalho tão sucinto. Ao contrário de seu antecessor, este não demanda paciência ou insistência para ouvi-lo em sua totalidade. A audição flui levemente e se mostra interessantíssima desde a atormentadora e horripilante introdução. Este é um disco perfeito para viajar e, ao meu ver, melhor do que "Portal of I". Entretanto, os dois discos são tão incríveis que a eleição do melhor varia de fã para fã.
Como resultado, o fantástico álbum alcançou a 42ª posição do ARIA Albums Chart, o ranking australiano.
Apostando nos milhares de fãs conquistados rapidamente, a banda começou em 2014 uma campanha de crowdfunding (doações financeiras on-line), visando arrecadar verba para realizarem uma turnê mundial. O objetivo era a arrecadação de 40 mil dólares australianos, mas a campanha foi tão bem-sucedida que arrecadaram mais de A$ 86.000,00, ultrapassando o dobro da meta. Isso prova como os australianos foram abraçados pelo público, que ansiava por vê-los.
Nisso que arrecadou mais do que precisava, a banda humildemente reaplicou a sobra nela própria, não visando seu engrandecimento às custas de dinheiro que não pertencia a eles, mas agradecer e presentear aqueles que os apoiaram. Por isso, em 2015, dois EPs intitulados "Hiraeth" e "Sarabande To Nihil" foram lançados de forma independente, limitados em tiragens de somente 300 cópias cada, especialmente para aqueles que participaram da campanha. São duas obras maravilhosas e raríssimas!
Em ambos os trabalhos, uma postura mais direta é apresentada, menos enfeitada e variante. As canções são pesadas, não contém momentos de quebra de ritmo e são menos técnicas. Embora o violino participe ativamente conferindo beleza e linhas melódicas, o mesmo não acontece com os vocais limpos, que são muito pouco aproveitados. Guturais fechados dominam tais linhas, sobrepondo-se até mesmo aos rasgados. Mesmo que sejam um pouco mais crus e objetivos, a musicalidade continua merecedora de respeito e admiração. Cada EP traz apenas três faixas, sendo que "Hiraeth" totaliza 28 minutos de duração e "Sarabande To Nihil", por sua vez, 22 minutos.
Ao conferir as obras lançadas pelo sexteto australiano, atesta-se o rebuscamento e elegância de seu som e fica muito claro por que andam colhendo tão bons frutos e conquistando uma base sólida de fãs que de fato os apoiam. O Progressive Black Metal é um técnico híbrido que vem conquistando espaço e, aos poucos, tornando-se mais comum. Certamente o Ne Obliviscaris tem sido um dos grandes propulsores disso e quem ainda não conhece deveria dar uma chance. Todos os discos são fantásticos!


 The Aurora Veil (Demo) (2007)

01 - Tapestry of The Starless Abstract
02 - Forget Not
03 - As Icicles Fall


 Portal of I (2012)

01 - Tapestry of The Starless Abstract
02 - Xenoflux
03 - Of The Leper Butterflies
04 - Forget Not
05 - And Plague Flowers The Kaleidoscope
06 - As Icicles Fall
07 - Of Petrichor Weaves Black Noise


 Citadel (2014)

01 - Painters of The Tempest (Part I): Wyrmholes
02 - Painters of The Tempest (Part II): Triptych Lux
03 - Painters of The Tempest (Part III): Reveries From The Stained Glass Womb
04 - Pyrrhic
05 - Devour Me, Colossus (Part I): Blackholes
06 - Devour Me, Colossus (Part II): Contortions


 Hiraeth (EP) (2015)

01 - Within The Chamber of Stars
02 - Felo de Se
03 - Beyond The Houglass

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 Sarabande To Nihil (EP) (2015)

01 - Upon The Tongue of Eloquence
02 - When The Black Hands Dance
03 - All The Scarlet Tears

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3 comentários:

  1. Gosto da banda, conheço desde o lançamento do Portal Of I, que realmente é espetacular, mas o Citadel acho chato, kkkkk
    De toda maneira, bom texto sobre a discografia da banda.

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  2. Caralho mano... essa é uma das bandas que mais me agrado... realmente é uma sonoridade única. Vale a pena curtir

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  3. Estou escutando a demo The Aurora Veil... nem abri os outros arquivos ainda.Mas não precisa, " MARAVILHOSA " banda. Imagina vê-los ao vivo ???
    Meu, ainda bem que Deus dá dons aos homens. Só podia ser vc Walker, Força e Atitude irmão... + 1 X VLW WOTM ...muito, muito Obrigado.

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