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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Bellfast - Discografia Comentada

O Bellfast me desperta questionamentos interessantes que corroboram com minha forma de pensar. Sempre que surge uma banda brasileira com letras inspiradas nas culturas de outros povos, surgem também pessoas criticando tal atitude, alegando que deveriam "valorizar" a cultura nacional ao invés disso. É bem verdade que nossa cultura não recebe a atenção que merece - e isso tem que mudar -, mas qual seria o argumento em se tratando de japoneses tocando Folk Metal inspirado nas culturas celta e viking, mesmo com toda sua riqueza cultural milenar conhecida mundialmente? Seriam hereges culturais?
Acredito que toda banda deva se deixar levar por aquilo que as inspira. Que toquem e escrevam sobre o que se sentirem à vontade e não cedam à qualquer tipo de pressão que imponha aquilo que elas devam fazer com sua própria proposta. Sinceridade musical é sempre mais bacana. Por isso não é estranha a proposta desses japoneses de Nagoya, na província de Aichi.
O conjunto foi fundado em 1993 por iniciativa do baixista Shuji Matsumoto. Os primeiros anos foram especialmente complicados, já que nenhum membro permanecia por muito tempo. Por volta de 1999, quando parecia haver estabilidade, todos os membros debandaram, deixando apenas Shuji como remanescente. Mas o baixista não desistiu e continuou trabalhando para concretizar o primeiro lançamento da discografia do Bellfast.
Com o auxílio de uma pancada de membros de sessão, gravou e lançou em 2001 através da Mustang Records o EP "Faraway Prayers", composto por seis faixas dentre as quais cinco são autorais e a última é cover de "Limelight", do Rush. A positiva recepção de fãs e mídia não foi suficiente para manter a banda altamente ativa, resultado em uma súbita queda nas atividades, que deixou como fruto apenas uma demo independente de duas faixas em 2003.
Somente em 2006 que, impulsionado pelo convite para participar da coletânea "Samurai Metal Vol. 2", Shuji resolveu reativar de vez o projeto. Para tal, convocou seus amigos Koh Nishino (vocal) e Makoto Kano (guitarra) para ingressarem na banda e, com novo auxílio de membros de sessão, gravaram a canção "Celtic Drum", que foi prontamente incluída na coletânea. A música teve um ótimo impacto entre os metaleiros japoneses, possibilitando o mantimento definitivo das atividades e a estruturação da formação, que agora contava também com Taro Arai na guitarra, Hiroshi Sakakima na bateria, Haruna Fukazawa na flauta e Izumi Takeuchi no violino.
O septeto passou a realizar shows enquanto escrevia material para o álbum de estreia. À altura do fim de 2009, entraram em estúdio para gravá-lo. Mixado e masterizado por Andy La Rocque (King Diamond) em seu estúdio na Suécia, o debut "Insula Sacra" foi lançado via Nexus Records em 2010 sob excelente clamor japonês! Ao analisar a qualidade composicional das músicas, torna-se compreensível o porquê de ter sido produzido tão longe do país natal. A produção é digna do excelente álbum que ele é.
As guitarras são estrelas evidentes, já que são pesadas e não se limitam apenas a dar apoio. Os riffs estremecem e diversos arranjos são mais melódicos, sem mencionar os solos, que são excelentes; casamento muito bem realizado com o Folk da musicalidade, manifestado através de flautas, violinos, violão e muito coro no backing vocal, elementos muito bem arranjados que nos transportam ao norte europeu. Diante do consistente instrumental, Koh Nishiro solta sua voz de timbragem tipicamente japonesa, muito apropriada para uma banda de Power Metal. Canta em tons altos com ocasionais agudos, mas há também passagens mais narrativas onde faz uso de gélidos e malévolos sussurros com drives. Seu vocal é muito bom, apesar do sotaque japonês atrapalhar e o vibrato não agradar tanto a mim particularmente. Entretanto, isso não prejudica tanto a apreciação do material.
No decorrer do disco testemunhamos faixas alegres, como se espera de uma musicalidade celta. Mas muitos coros também aludem aos vikings, assim como as letras. Os primeiros minutos podem ser um pouquinho estranhos, pois de fato a segunda canção "That's Ireland", por exemplo, tem backing vocals estranhos que dão a impressão de bagunça. Mas no decorrer do trabalho o ouvinte acostuma enquanto as músicas de fato melhoram, e tudo fica realmente foda.
Por enquanto, "Insula Sacra" é o único álbum dos japoneses. É inesperado ver uma banda da Terra do Sol Nascente tocando Folk Metal celta/viking, mas tal atitude não tem problema algum e acaba por se tornar um cartão-postal. Começaram muito bem e demonstraram solidez no trabalho, mas fica claro que quando mais álbuns forem lançados, poderão ser ainda melhores. É o que se espera para o próximo álbum, que está em fase de gravação e poderá sair até 2016.


 Insula Sacra (2010)

01 - Bell's Air
02 - That's Ireland
03 - Deadly Oath
04 - Odin's Call
05 - Beautiful Mind
06 - The Lone Horseman
07 - The Druid Song
08 - Sail Under The Midnight Sun
09 - Winter of Death
10 - Celtic Drum
11 - Winds of Time

Ouvir (Spotify)

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