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terça-feira, 24 de março de 2015

Corubo - Discografia

"Valorizem a cultura brasileira!", "valorizem os índios brasileiros!", "valorizem o Metal nacional!", "não chupem rola de gringo!", "nada a ver brasileiro fazer música falando de outros povos!", "Odin na cadeia, Tupã na veia!!"... Se você ouve Metal e mora no planeta Terra, mais especificamente, no Brasil, com certeza já ouviu ou leu muita gente esbravejando esse tipo de coisa. Eu entendo as manifestações, mas não concordo 100%. Acho que todo mundo tem o direito de falar sobre o que quiser nas músicas, e ser brasileiro não significa obrigatoriedade de falar do Brasil se você fizer Folk Metal temático. E muito menos significa desvalorização.
Sempre muito se reclamou sobre a escassez de bandas de pegada indígena no cenário brasileiro, até por isso o aparecimento dos brasilienses do Arandu Arakuaa foi muito bem recebido. Fico feliz pela banda ter conseguido atingir muita gente, fazendo com que percebam que existe músico sim interessado em fazer som dignamente indígena. Mas Zândhio Aquino e cia. não foram os primeiros a se aventurar no ramo.
Enterrado sob uma espessa camada de underground podemos encontrar um grupo oriundo de Ji-Paraná, em Rondônia, que mescla instrumentos tradicionais e línguas indígenas a uma avassaladora musicalidade Ambient/Black Metal. Seu nome é Corubo. O nome se dá em homenagem ao isolado povo indígena Korubo, que habita o oeste do Estado do Amazonas, o Acre e também o Peru.
A banda foi fundada no ano de 1999 e é tão desconhecida que é difícil obter informações mais precisas até a respeito dos integrantes. Sabe-se que é composta por uma dupla: Cauã e Tesa'ãme, mas não se sabe suas funções. Para apresentações ao vivo, os caras contam com amigos para completar a formação. De qualquer forma, sonoramente isso aqui é uma porrada que eles chamam de Indigenous Black Metal e liricamente compõem e cantam em várias línguas, como português e inglês, mas majoritariamente línguas indígenas como guarani paraguaio, tupi, nheengatu e yucatec.
Musicalmente os caras fazem algo extremamente caótico e foda, principalmente pra quem gosta do Black Metal em sua mais pura forma. Os caras introduzem teclados para criar aquela atmosfera obscura, o lado Ambient, enquanto instrumentos indígenas de sopro tocam de forma misteriosa. Quando o Black Metal canta, ele é rasgado, ácido, e se funde ao Ambient, inclusive vocalmente, resultando em um musicalidade agressiva e meio longínqua. Diversas passagens são dedicadas apenas ao Ambient e ao lado Folk, deixando a veia indígena mais latente, mas as flautas não param mesmo durante a porradaria.
Os primeiros trabalhos vieram ainda nos primeiros anos, consistindo nas demos "Resistência Indígena", de 1999, e "Demo 2001". Somente anos mais tarde é que mais sons foram gravados, desembocando no lançamento da demo "Jahe'opapá", que veio de forma independente em 2006. Ela trás cinco faixas dentre as quais uma é cover de "King of Stellar War", do Rotting Christ, cujos primeiros anos são uma referência para o Corubo.
Na sequência vem o EP "Mordaz", também lançado de forma independente um ano mais tarde. O trabalho tem duração de um álbum (40 minutos), e é medonho, positivamente falando. Embora tenha letras em português e inglês, a grande maioria das músicas são cantadas em línguas indígenas.
Passados os lançamentos preliminares, enfim chega, no ano de 2008, o primeiro álbum dos caras, intitulado "Ypykuera", outro lançamento independente. Trata-se de um trabalho cujo foco principal é o lado Ambient, deixando o Black Metal em segundo plano, mas sem deixá-lo apagado. Posteriormente o disco foi relançado pela Salute Records, mas limitado a 25 cópias.
Mantendo o pique de pelo menos um lançamento todo ano, o segundo álbum chega já em 2009. "Ãngy Mbya Kueíry Hachypáma, Opa Mba'e Achy Avei" é um trabalho onde a banda passa a explorar muito mais o Black Metal, em consonância com algo de Noise, com vocal gutural medonho e arrastado. Insano. Mesmo sendo um disco mais pegado, vale ressaltar que o Ambient segue firme. A musicalidade é mais coesa e bastante equilibrada entre os dois polos.
No mesmo ano ainda sai, através da Black Hill Records, o disco split "The End of Sorrow/Guarani Oporonhenói Gueteri", em parceria com o Tremor, banda de Black/Death Metal de Bogotá, na Colômbia.
Foi então que a banda deu uma quebrada de ritmo e passou o ano de 2010 em branco no sentido de lançamentos. Mas isso veio a ser positivo, pois a banda assinou com a D.T.M. Records e lançou um álbum excelentemente trabalhado em 2011, intitulado "Wuy Jugu". É uma hora de duração de um disco pegado e aterrorizante, que aposta mais no peso. Por isso os vocais guturais fechados são bastante presentes e um pouco menos mesclados ao instrumental. Disco realmente fodido!
No ano de 2011, a Salute Records, ao mesmo tempo em que relançou o primeiro álbum "Ypykuera", também compilou as duas primeiras demos da banda em uma única coletânea intitulada "Apyta". As faixas de 1 a 7 provém da primeira demo, "Resistência Indígena", enquanto de as de 8 a 12 foram retiradas da "Demo 2001".
Mais dois anos se passam e novamente um trabalho split é lançado. "Indigenous Clans" é um trabalho compartilhado com a banda francesa Valuatir, que executa Folk/Black Metal. O disco foi lançado digitalmente apenas pelo Corubo através do site da D.T.M. Records, mas na realidade o Valuatir não autorizou o lançamento. Até por isso não consta como disco oficial na discografia deles.
Desde então, nada novo foi apresentado por esses macabros indígenas. Apesar de executarem um som que escolhe a dedo quem ouvirá, a atitude de unificar cultura e línguas indígenas e Black Metal é louvável e há de ser valorizada. Tenho certeza que há mais bandas como essa espalhadas pelo Brasil afora. Só é difícil tomar conhecimento delas.


 Jahe'opapá (Demo) (2006)

01 - Intro
02 - Jahe'opapá
03 - Árvores Mortas
04 - Finishing The So Perfect Race
05 - King of Stellar War (Rotting Christ Cover)


 Mordaz (EP) (2007)

01 - Cântico Mordaz
02 - Terrorshed
03 - Nhanderu Hasy Katú
04 - Goitacás
05 - Ma Ieiye Nã
06 - Jahe'osoró
07 - Aturu Ypy
08 - Ñaiménte Ipýpe


 Ypykuera (2008)

01 - Princípio de Sabedoria
02 - Untitled
03 - 25/09/2007 - Meu Irmão
04 - Venha e Escute Na Direção do Espírito Guarani
05 - A Ilusão da Personalidade - O Lobo e Suas Almas
06 - Ch'ilib
07 - He'la Yucatec


 Ãngy Mbya Kueíry Hachypáma, Opa Mba'e Achy Avei (2009)

01 - Oheja Ñandéve, Ñanderekópeguarã, Mba'e Ivaíva
02 - Ãngy Mbya Kueíry Hachypáma, Opa Mba'e Achy Avei
03 - Esperança Obscura
04 - Sapy'ánte Pyharevove
05 - Ñorairô Rekorekávo
06 - As Coisas Recomeçam Por Seu Fim
07 - Mombyryeterei Che Rendarãgui
08 - Yma Guaré Ñe'ê


 The End of Sorrow/Guarani Oporonhenói Gueteri (Split) (2009)

01 - Tremor: Pakal
02 - Tremor: Denial
03 - Tremor: The Hunting
04 - Tremor: Wisdom
05 - Tremor: Manifest
06 - Corubo: Guarani Oporonhenói Gueteri
07 - Corubo: Oñembyesaráiva
08 - Corubo: Hosãva
09 - Corubo: Kuarahy Osemba Rire
10 - Corubo: Amana


 Wuy Jugu (2011)

01 - Wuy Jugu: Resistência Selvagem e Indomável
02 - Tabajaraitá Ricu-iêpé Matiri Ce Mira
03 - Amombe'uta Pe'eme Curíoikóvaekué
04 - Ken Matín-Tapirêra
05 - Iké Icú Tuichaua, Mucuim-pú Sui Jara
06 - Jucá Hetá
07 - Guaranihára Opytu’ú
08 - Mboré
09 - Embrio & Children. Not Authorized Version! Fuck off Pop Star!!!!!!
10 - Rohechaukáta Peême Mávapa Wuy Jugu Ha Mba'éichapa Oikove
11 - Guariniharakuéra Omomorava Heko Tee


 Apyta (Compilation) (2011)

01 - Culturas Inimigas
02 - Tesa Tesáre Ha Ko Arapy Opytáta Ohechave’ýre
03 - Sangue, Dor e Mentiras
04 - Raiva Sobre A Terra
05 - Desolação Em Minhas Veias
06 - Céu, Sol, Sul, Símbolos, Poluição e O Orgulho de Fazer Merda!
07 - Mordaz
08 - Livre Para Existir (Matar)
09 - Sempre Existirá Quem Resista!
10 - Entrando Ao Futuro
11 - Ventos Quentes
12 - Zombeteiro


 Indigenous Clans (Split) (2013)

01 - Corubo: Ñembyahýi Ára
02 - Corubo: Árvores Mortas
03 - Corubo: Finishing The So Perfect Specie
04 - Corubo: Yma
05 - Corubo: Jahe'opapá
06 - Valuatir: Bransle des Chandeliers
07 - Valuatir: La Voix du Tertre
08 - Valuatir: Ceux d'En Haut
09 - Valuatir: Mille Années

Um comentário:

  1. Realmente no tempo que estou aqui no Brasil, vi maioria das bandas nacionais se dedicarem à mitologia de outros povos, e até mesmo em ideologias raciais.
    Pensar que até o Dissection incrementou a Quimbanda no sincretismo cultural da seita que eles praticavam...
    Entendo que existe um apelo forte ao escandinavismo aqui, assim como o desprezo pela ancestralidade brasileira, mas felizmente, no meio underground, a identidade nacional ganha força. A cada dia vejo os brasileiros manifestarem orgulho pela própria cultura, e isso é admirável.
    É esse tipo de orgulho que torna uma nação digna de respeito no exterior.

    Saudações,
    Arn

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