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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Xanthochroid - Discografia Comentada

Em meados dos anos 50, nascia, lá nos Estados Unidos, o estilo que deu origem a tudo que podemos desfrutar hoje: o Rock. E nascia por iniciativa do que é considerado seu maior ícone: o beijoqueiro Elvis Presley. A partir de Elvis, houve uma grande supremacia Blues estadunidense, que viria também a se estender até a Inglaterra, englobando lendas como Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Beatles, The Rolling Stones, que explodiram nos anos 60 e 70, mantendo a força do Rock apenas em dois pólos. Os pólos seguiram os mesmos praticamente com o nascimento do Heavy Metal na Inglaterra nos anos 70, e a irrompimento do Thrash Metal e do Hard Rock nos Estados Unidos nos anos 80, embora algumas outras bandas já passassem a surgir em outros países. A partir daí é que o estilo pesado de música se consolidou no mundo, provocando o surgimento de bandas do gênero em partes diversas do mundo, que não sejam esses dois países.
Nos tempos atuais, não é tão comum encontrarmos bandas dos Estados Unidos ou Inglaterra. A maioria das grandes bandas são europeias, mas não provém de países falantes da língua inglesa. Dá a entender que os antigos pólos estavam enfraquecidos, e que os demais países dominaram as técnicas que ambos haviam começado. Os aprendizes superando seus mestres.
Contudo, após tanto tempo longe dos holofotes que jorram suas luzes sobre as bandas que mais se destacam, os Estados Unidos estão voltando a ter bandas que são de fato interessantes, que prendem nossa atenção. Bandas que exigem ouvido refinado, é verdade, o que impede, de certa forma, que deslanchem com rapidez. Mas, sim, bandas fantásticas, que apostam em abordagens intelectualizadas, composições complexas, desbravando a união de gêneros distintos. Bandas como Xanthochroid.
Ouvir essa banda oriunda de Lake Forest, na Califórnia, é ter a certeza de uma experiência rica, diversificada, coesa. É ter a certeza de sentir diferentes emoções, diferentes níveis de deleite, provocados por seus múltiplos momentos ao longo das mesmas músicas, e ainda mais, ao longo do decorrer de seus discos. Aquele tipo de banda que ouvir apenas uma música não faz você saber como são, ainda mais se quiser acompanhar as letras, que são conceituais, fictícias e épicas.
Tudo começou sem maiores pretensões, sem sequer pensar "vamos formar uma banda?". Foi com naturalidade que, em 2005, ensaios musicais começaram a acontecer na casa do fundador Sam Meador (vocal, violão e teclados). Primeiro, ainda jovens e como um bom amigo, permitiu que seu amigo Sean Culver trouxesse a bateria para sua casa, pois os pais do rapaz não o deixavam tocá-la em casa. Não faz muito sentido ter uma bateria e não poder tocar, mas... coisas de pais. Juntos, a dupla começaria a tocar versões próprias de músicas de videogame, até que o vizinho e amigo Harrison Reese resolveu chegar junto com sua guitarra. Em seguida, Sean Culver convidou seu irmão William Ross Culver III para ser baixista, completando assim a formação e, com bastante naturalidade, começando a compôr músicas próprias.
Infelizmente, o baterista Sean Culver deixaria o conjunto já em 2006, mas isso não fez com que a banda parasse, por mais que ficassem vários anos sem alguém fixo na função. Foi por volta dessa época que o segundo guitarrista Chris Levack chegou, e foi também quando Meador começou a escrever os contos épicos de Xanthochroid.
...Até que, em 2010, as coisas começariam a engrenar de vez. Tão logo o guitarrista Chris Levack saiu, o prodígio Matthew Earl entrou como baterista, acrescentando elementos absurdamente positivos para a banda, uma vez que é multi-instrumentista, começou na música com 6 anos de idade e ainda na pré-adolescência já tocava Jazz e Rock Progressivo autorais.
Essa foi a formação que lançou, ainda em 2010, a cativante demo caseira "Iced, In Extremis". A qualidade de gravação não é das melhores; é um pouco abafada, as guitarras chiam um pouco, a bateria é seca. No entanto, dá pra ouvir claramente o quão brilhante logo o primeiro trabalho de um conjunto tão jovem era. Com apenas cinco faixas já foram capazes de demonstrar sua versatilidade e lucidez na mistura entre diferentes gêneros musicais, sendo eles o Black Metal, o Progressive Metal e o Folk Metal. É muito bela a forma como esse Progressive Black Metal é tocado, com riffs perfeitamente mesclados entre o Black e o Prog, o vocal gutural rasgado do estilo negro, e a extensa exploração dos teclados, tanto na atmosfera base, quanto nos solos engraçadinhos e criativos á lá Dream Theater nos primeiros discos, complementados ainda pela atmosfera épica. O lado Folk aparece mais claramente na quarta faixa "All Abhorred", que é cantada com vocal limpo e guerreiro de Folk tradicional, com direito a sons de batalha e tudo mais. Fechando com chave de ouro, vem um perfeito e autêntico cover de "Alt Lys Er Svunnet Hen", dos noruegueses do Dimmu Borgir, uma de suas referências.
Em 2011, mais alterações no line-up: o antigo guitarrista Harrison Reese saiu para focar nos estudos, deixando a banda sem guitarristas. Eles então promoveram audições, onde Brent Vallefuoco se destacou e ingressou, de quebra trazendo seu amigo David Bodenhoeffer, que também passou por uma audição e foi aceito como outro guitarrista.
A nova formação lançou, sob produção do próprio baterista Matthew Earl, o EP também independente "Incultus". Melhor gravado e com mais volume de elementos na musicalidade, essa maravilha mostra com ainda mais convicção os caminhos trilhados pela banda e a expansão da criatividade no gerenciamento desses elementos. Os teclados são mais utilizados, a base é mais épica, o Black Metal tem riffs ainda mais característicos, no entanto, harmoniosos, e a banda começa a ter um perfil bem mais próximo do que consolidariam mais tarde no álbum de estreia. O enriquecimento musical se deve tanto pelo amadurecimento na composição das músicas, quanto no inserimento de instrumentos variados como violões, piano, flauta irlandesa, violinos e cellos. Tanta riqueza desenha a atmosfera para linhas vocais ainda mais avassaladoras, expondo, lado a lado, a agressividade do gutural rasgado de Sam Meador com os sombrios coros em tons graves e épicos. Coros, cara. Muitos coros. É impactante! A última faixa é uma versão de "The Last Relic of Axen" em teclados 8-bits, em analogia aos videogames que tanto os inspiraram.
Com esse registro, o Xanthochroid se aproximou de um Metal Extremo mais cinematográfico, exatamente o que Sam almejava. Fechando o ano com louvor, os caras abriram shows para bandas como Mayhem e Keep of Kalessin.
Assim que o EP foi lançado, a banda já estava avançada com os materiais para o álbum de estreia. Na sequência, o baixista William Ross Culver III se desligou em 2012 também para se dedicar aos estudos, sendo substituído por Bryan Huizenga, primo de Brent Vallefuoco.
Após quase um ano dentro do estúdio gravando e dando toques finais nas canções, dedicando-se de maneira evidentemente árdua tanto pelas próprias músicas quanto pelas entrevistas, sai, no dia 21 de dezembro de 2012, uma verdadeira obra-prima de um álbum completo de estreia intitulado "Blessed He With Boils", através do selo Erthe and Axen Records. O conceito lírico já vinha sendo contado desde os lançamentos anteriores, mas aqui ele ganha contornos mais diretos e conclusivos, dando uma ideia de história completa com início e fim. Uma história épica!
Idealizado por Sam Meador, esse álbum conta uma fodaça história de poder em um mundo chamado Etymos, onde os irmãos Thanos (que é imortal) e Ereptor (que, por sua vez, é mortal) lutam pelo trono do reino de Septentria, pelo qual são herdeiros por direito e está vazio devido ao falecimento do rei Xanthos, formalmente chamado de Xanthochroid, rei do Reino do Norte e da cidade sagrada de Thule. Forçadamente, o mortal Etymos clamou o trono da cidade sagrada de Thule, sendo o destino de seu irmão Thanos detroná-lo. Sua coroa carrega um peso que não pode suportar por ser mortal, tornando-o fraco e doente, cheio de furúnculos pelo corpo e um emaranhado de doenças, porém, ele não cede e se mantém no trono até Thanos vir para conquistá-lo. O desenrolar da história pode ser descoberto acompanhando as letras desse fantástico trabalho. Com base na história, vem o nome do álbum, "Blessed He With Boils", que traduzindo significa "Abençoado Com Furúnculos". Título a princípio horrível, mas sabendo ao que se refere, torna-se foda!
É claro que uma história tão interessante e fantasiosa exige um álbum de alto nível musicalmente. É isso mesmo que temos! Se a demo e o EP são fantásticos, o álbum é incrível, e ainda mais completo musicalmente. Cada música fala com o ouvinte de uma forma distinta, alternando entre diferentes atmosferas, diferentes riffs, diferentes gêneros, diferentes formas de canto, provocando diferentes sentimentos. O instrumental segue Progressive Black Metal, mas Viking Metal também é muito bem sentido, assim como o Folk e, inédito no experimento, o brisante Post-Rock. Os diferentes gêneros metálicos rendem mudanças de levada entre a ferocidade do Black Metal, a técnica do Progressive Metal, a cadência e medievalismo do Folk Metal, o epicismo do Viking Metal, a suavidade do Post-Rock. Até por isso tem-se um trabalho interessante e variado com a bateria, muitas passagens medievais, violões, flautas, e muita incidência de teclados e pianos.
As linhas vocais trazem novamente o que era executado no EP "Incultus": o acirramento entre vocal gutural rasgado e coros épicos. Só que temos dois tipos de coros: um deles é parecido com os introduzidos no EP, contudo, mais guerreiros, mais firmes. O outro tipo de coro é o quase etéreo no estilo Post-Rock: Suaves, celestiais, profundos. Vocais limpos também são utilizados em algumas canções. Não é difícil ver como esse trabalho é abundante. Para encaixar tanta coisa em 57 minutos de duração certamente não foi fácil, mas o nível alcançado e a total naturalidade com que a combinação é apresentada convence e não causa estranhamento. São, no mínimo, perfeitos. "Blessed He With Boils" é sim complexo, como todo Progressivo desse nível. Exige audição dedicada e várias reproduções para melhor assimilação. Mas a certeza é que quanto mais se ouve, mais incrível fica.
O Xanthochroid é bastante desconhecido, ainda assim, muito querido por aqueles que os conhecem. Forte aliada dos estadunidenses, a internet ajuda bastante a divulgar o que são capazes de fazer, principalmente através de alguns videoclipes cover que lançaram no YouTube e cativaram milhares de ouvintes, obtendo elevado número de visualizações. Esses clipes geralmente são suas próprias singles, lançadas desde 2012. Elas são tão fodas e tão interessantes, que não pude deixar passar e estou incluindo na postagem, todas pra download de uma vezada só, já que cada uma contém apenas uma música. Essas singles são tanto covers de bandas que os inspiram, tais como Wintersun e Opeth, quanto canções autorais para participação em concursos. Outras bandas que inspiraram a iniciativa musical foram Emperor e Moonsorrow, sendo o Wintersun a referência mais evidente.
Sem a menor sombra de dúvidas, o Xanthochroid é uma das experiências musicais mais fantásticas que um ouvido refinado pode se aventurar na atualidade. É uma banda que vai impressionar e crescer muito ainda, até por aliarem vertentes metálicas tão únicas, lindas e fortes. Banda para se ouvir com carinho, para se encantar, e repetir a audição por várias e várias vezes. Banda que representa o Metal moderno: complexo, plural e exigente.

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 Iced, In Extremis (Demo) (2010)

01 - Pashti
02 - Of Erthe and Axen pt. I
03 - Iced, In Extremis
04 - All Abhorred
05 - Alt Lys Er Svunnet Hen (Dimmu Borgir Cover) (Bonus Track)

 Incultus (EP) (2011)

01 - The Last Relic of Axen
02 - Iced, In Extremis
03 - Wormwood
04 - Incultus
05 - The Last Relic of Axen (8-bit) (Bonus Track)

Ouvir (Spotify)

 Blessed He With Boils (2012)

01 - Aquatic Deathgate Existence
02 - Blessed He With Boils
03 - Winter's End
04 - Long Live Our Lifeless King
05 - Deus Absconditus: Part I
06 - Deus Absconditus: Part II
07 - The Leper's Prospect
08 - In Putris Stagnum
09 - "Here I'll Stay"
10 - Rebirth of An Old Nation

Ouvir (Spotify)

 Singles (2012-2014)

Land of Snow and Sorrow (Wintersun Cover) (Single) (2012)
Harvest (Opeth Cover) (Single) (2013)
The Argent Crusader's Hymn (Single) (2013)
Sleeping Stars (Wintersun Cover) (Single) (2013)
The Great Sundering (Single) (2014)

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