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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Agalloch - Discografia Comentada

Música não é simplesmente onda sonora se propagando no ar. Música não é simplesmente ouvir. Música é muito mais do que isso. Vai muito além. Música é sentimento. Na mesma intensidade, música é compreensão. Se dada banda não tiver sua proposta ou complexidade musical compreendidas, haverá resistência no aprofundamento. Pior: dirão que é ruim. Porém, não é bem assim... claro, sempre cabendo também a questão do gosto de cada um.
Tem bandas que necessitam, mais do que outras, de ouvido mais refinado, de compreensão do que querem transmitir, de imersão por parte do ouvinte. Tem que mergulhar de cabeça, bem fundo. No caso do Agalloch, é um mergulho em águas frias, congeladas, que, no entanto, te aquecem. Que te consomem sem que você se desintegre.
Essa banda é um verdadeiro espetáculo de sentimento e clima áspero, enevoado, ainda assim, celestial. O público é mais seleto, pois a banda recebe influências de estilos que a maioria até nem sabe que existe, fora os adicionais que também por si só são mais seletivos. Mas isso não impede que essa banda mereça o tempo de cada bom ouvido disponível.
Basicamente, o Agalloch executa Doom Metal, mas também toma emprestado, de bom grato, influências de outros estilos como o Black Metal, a música Ambiental/Atmosférica, e principalmente, o Post-Rock. Esse aglomerado resulta em uma musicalidade fatalmente profunda e gélida, que ao mesmo tempo, graças à profundeza e contribuição de coros maravilhosos vindos do Post-Rock, fica lindíssima.
Tudo começou em 1995, na cidade de Portland, no estado estadunidense de Oregon, quando o vocalista, guitarrista e líder John Haughm decidiu começar uma banda que seguisse uma linha um pouco diferente, que unisse diferentes elementos musicais a seu gosto, e fizesse forte menção a depressão, morte, inverno, e principalmente, culto à natureza. Como a característica de culto à natureza é muito forte na banda, o nome escolhido foi Agalloch, que provém da Aquilaria agallocha, uma espécie de madeira macia e residual com cheiro forte e característico, muito utilizada como incenso e perfume em vários países asiáticos.
Em 1996, John se juntou ao tecladista Shane Breyer, com quem começou a compôr material. Um ano mais tarde, o guitarrista Don Anderson tornou o projeto um trio, engrenando as composições. Desta forma, lançaram em 1997 sua primeira demo-cassete, "From Which of This Oak", onde John cuidou dos vocais, guitarra, baixo e bateria. Logo após o lançamento, o baixista Jason William Walton chegaria, desafogando um pouco ao John Haughm.
Buscando o interesse de gravadoras, o quarteto lançou em 1998 mais uma fita demo, agora intitulada "Promo 1998", de duas faixas. Com isso, foram então premiados com um contrato com a The End Records, possibilitando também o lançamento do primeiro álbum de estúdio, que aconteceria no ano seguinte. O Agalloch entrou em estúdio para a gravação do debut ainda em 1998, e assim que ela se completou, o tecladista Shane Breyer saiu por declínio de interesse.
Já em junho de 1999, enfim, o disco de estreia "Pale Folklore" saiu da névoa. E, cara... Começaram com o pé direito! Instrumentalmente, esse maravilhoso trabalho é calcado no Doom Metal, mas apresenta resquícios de Black Metal e também Folk Metal, cuja manifestação provém dos teclados, instrumento que também sustenta a base gélida da banda, quase imperceptivelmente na maior parte do tempo. Os teclados também tocam em efeito de piano, aprimorando o clima depressivo e se assemelhando bem às vertentes mais "baixa auto-estima" do Doom e do Black Metal. O Doom Metal sofre uma agradável mescla com o Post-Rock, criando músicas longas e arrastadas, mas também belas. O clima melancólico também é dado primordialmente pelas guitarras, que com distorção são crespas, e sem distorção, são depressivamente limpas e bem trabalhadas. Alguns solos também são introduzidos. Vocalmente, o Post-Rock aparece de forma quase etérea com seus corais característicos de vozes macias e profundas, e o vocal mesmo em si, feito por John Haughm, é o gutural rasgado típico do Black Metal, mas executado de forma teatral, quase sussurrada. O culto à natureza não fica de fora, pois sons de animais na floresta e ventania podem ser ouvidos entre passagens de faixas. Sem dúvidas, é um álbum lugubremente maravilhoso.
A título de curiosidade, a edição limitada do álbum contou com 60 cópias que vêm numa caixa de madeira, em tributo à natureza que cultuam. O trabalho recebeu positivas críticas da imprensa.
Os lançamentos do novo milênio começaram a partir de 2001, ano no qual lançaram um EP de característica mais experimental e neoclássica, intitulado "Of Stone, Wind, and Pillor". Ele manteve os fãs atentos para o segundo álbum de estúdio, que já estava à caminho.
Em 2002, foi a vez do fascinante "The Mantle" ser lançado, o que para mim é o melhor álbum dos estadunidenses. Trata-se de um trabalho ainda mais intenso e envolvedor do que o antecessor. É mais melancólico, um pouco mais pesado, e também melhor produzido. Aqui, há uma exploração mais abundante dos corais etéreos, assim como de violões. O Black Metal se apresenta um pouquinho mais, o Doom é aprimorado, o Post-Rock fica mais latente. Apesar de instrumentos diferenciados como o acordeão, o bandolim, trombone, instrumentos de sopro, e outros, aparecerem, eles não soam de forma que se diga Folk, fazendo com que a banda deixe essa vertente de lado. A forma de cantar, em Black Metal, não sofre alteração, mas os trechos vocais parecem mais mesclados ao instrumental, tornando a atmosférica ainda mais engolfante. Ventos seguem soprando, assim como os solos seguem aparecendo. O interessante é que até mesmo um belo solo de Jazz é praticado em "The Hawthorne Passage". Ah, e o contra-baixo merece destaque, pois é pesado, aparente, e contribui de forma até "épica" para as canções.
A partir desse ponto, o Agalloch passou a realizar entrevistas com alguma frequência, inclusive para revistas mainstream.
O primeiro show só foi acontecer em 2003, na cidade natal dos caras, subsequenciado por uma pequena quantidade de shows na costa oeste do país.
Uma sequência de três lançamentos menores saiu na sequência, a começar pelo EP "Tomorrow Will Never Come", lançado em maio de 2003, seguido por outro EP, "The Grey", o primeiro trabalho contando com o baterista Chris Greene, de fevereiro de 2004. Em agosto, a primeira split da discografia surgiu, em parceria com o Nest, banda finlandesa de Neofolk/Ambient. O ano se completou com uma série de shows pelos Estados Unidos e Canadá.
Após algum tempo de silêncio, finalmente, em 2006, o Agalloch surgiu da floresta de carvalho para a exibição do terceiro álbum de estúdio da discografia, chamado "Ashes Against The Grain". Essa maravilha segue a trilha deixada pelo seu antecessor, mas com uma exploração ainda mais intensa dos recursos. Isso tornou as músicas mais pesadas, com o peso do Doom Metal e do Black Metal mais aparentes, principalmente este último, com seus riffs característicos. Os violões e bandolins são mais insistentemente explorados apesar do peso, e os corais também dão as caras com um pouco mais de frequência. Com o aumento da força, o novo baterista Chris Greene ganhou liberdade e contribuiu de forma mais energética com as baquetas, doando composições batucadas melhor trabalhadas e mais velozes. Em suma, é um álbum mais forte, mas que não perdeu sua veia celestial, pois também foi aprimorada. Mas infelizmente, o rapaz só permaneceu até 2007, sendo então substituído por Aesop Dekker.
Novos trabalhos só seriam lançados em 2008, a começar pelo EP "The White", lançado pela Vendlus Records. É a segunda parte do EP "The Grey", de 2004, e também uma oposição de estilo, apresentando uma veia Dark Folk/Ambient e mais acústica, remontando ao "The Mantle". O segundo lançamento do ano é a compilação "The Demonstration Archive: 1996-1998", que compreende as duas primeiras demos e o EP "Of Stone, Wind, and Pillor", que foi originalmente lançado em 2001 mas já estava pronto há tempos. A coletânea também marca o fim do contrato com a The End Records, após 10 anos.
Já em 2010, outra compilação saiu, à exemplo da primeira, também pelo selo alemão Licht Von Dämmerung: "The Compendium Archive", trazendo dois CDs. O primeiro é a compilação anterior, mas o segundo já contém os trabalhos lançados entre 2000 e 2006 (fora o álbum "The Mantle"), versões alternativas de faixas de "The Mantle" e "Ashes Against The Grain", além de faixas até então não lançadas. Pouco depois, assinaram com o selo Profound Lore Records, visando o lançamento do próximo álbum.
Em novembro de 2010, é a vez do pesado e crespo "Marrow of The Spirit" chegar. A banda vinha meio inconformada com o fato de que aprimoraram e poliram demais a proposta musical até o álbum anterior, e decidiram arriscar uma abordagem mais orgânica e pura, mais próxima dos primeiros trabalhos, principalmente as demos, que muito flertavam com o Black Metal. E foi o que fizeram! Aqui, o som está vívido e gélido com o Black Metal mais aparente, mas os demais elementos não foram deixados de lado. Logo, não perderam identidade. Ironicamente, é estranho que John critique o polimento da sonoridade, levando em conta que "Marrow of The Spirit" é um álbum que de certa forma soa até cinematográfico, digno de trilha sonora de um bom filme depressivo baseado em um ambiente de neve. A sonoridade está bela como sempre, com o clima frio e a atmosfera entorpecente te abraçando como de costume. Mas o modo como as guitarras tocam o Doom Metal me lembra um pouco a fase que envolve o álbum "Tonight's Decision" do Katatonia, atrapalhando de leve minha experiência, mas provavelmente é algo pessoal. As músicas aqui são bem mais longas que o de costume, exigindo que você realmente esqueça que música tem tempo de duração, e apenas sinta. Instrumentos extras são novamente introduzidos, sendo o cello o mais interessante deles, contribuindo para uma levada mais neoclássica.
No ano de 2011, apenas uma compilação foi lançada, intitulada "Whitedivisiongrey". Ela consiste nos EPs "The Grey" e "The White", lançados em 2004 e 2008. Agora, em 2012, é a vez do EP "Faustian Echoes", cuja única faixa (de mesmo nome) tem mais de 21 minutos de duração.
Mantendo a tradição de lançar álbuns de quatro em quatro anos, em 2014 um novo álbum de estúdio chega às prateleiras. Dessa vez é o excelente "The Serpent & The Sphere", cuja sonoridade é mais voltada para um Doom Metal que sofre forte influência do Black Metal na entonação dos riffs, e se distancia do Post-Rock, além de não ser mais tão épico quanto antes. Corais não são mais notados como anteriormente, e prova de que o Post-Rock perdeu força é que esse é o disco mais cantado da banda. Uma forte característica do Post-Rock é ser muito mais instrumental do que cantado. O transcorrer do disco é mais lento, fazendo parecer que os sessenta minutos de duração durem mais tempo que isso. Mesmo com as mudanças, a banda ainda demonstra sua capacidade única de prender o ouvinte e sugá-lo para seu clima denso. É uma viagem fascinante... que banda!
O Agalloch tem como forte característica músicas de longa duração, sendo muito comum que seus discos tenham mais de uma hora de duração. O conselho é não se importar com a extensão das faixas, pois essa é uma banda muito atmosférica, portanto, para sentir. É pra simplesmente deixar rolando e permitir que a música tome conta do ambiente, inclusive dentro de você. Isso se torna mais forte ainda pela pouca incidência de vocais em comparação com o instrumental. Esses caras são brilhantes, e certamente, essa é uma banda genial, não sendo perda de tempo dá-los uma chance, principalmente quem conhece bandas como Alcest, pois é bem parecido, já que o Shoegaze executado por eles é um dos "filhos" do Post-Rock. Procurem ouvir com carinho, buscando compreender sua musicalidade complexa e até intelectualizada, que assim eles vão te absorver com certeza, apesar de que isso não é muito difícil de acontecer. Esses caras são incríveis... Quem conhece sabe disso!

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  From Which of This Oak (Demo) (1997)

01 - The Wilderness
02 - As Embers Dress The Sky
03 - Foliorum Viridum
04 - This Old Cabin

 Promo 1998 (Demo) (1998)

01 - Hallways of Enchanted Ebony
02 - The Melancholy Spirit

 Pale Folklore (1999)


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 Of Stone, Wind, and Pillor (EP) (2001)

01 - Of Stone, Wind, and Pillor
02 - Foliorum Viridium
03 - Haunting Birds
04 - Kneel To The Cross (Sol Invictus Cover)
05 - A Poem By Yeats

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 The Mantle (2002)

03 - Odal
05 - The Lodge

 Tomorrow Will Never Come (EP) (2003)

01 - The Death of Man (Version III)
02 - Tomorrow Will Never Come

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 The Grey (EP) (2004)

01 - The Lodge (Dismantled)
02 - Odal (Nothing Remix)

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 Agalloch/Nest (Split) (2004)

01 - Agalloch: The Wolves of Timberline
02 - Nest: Last Vestige of Old Joy

 Ashes Against The Grain (2006)

01 - Limbs

 The White (EP) (2008)

01 - The Isle of Summer
02 - Birch Black
03 - Hollow Stone
04 - Pantheist
05 - Birch White
06 - Sowilo Rune
07 - Summerisle Reprise

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 The Demonstration Archive 1996-1998 (Compilation) (2008)

01 - The Wilderness
02 - As Embers Dress The Sky
03 - This Old Cabin
04 - Of Stone, Wind and Pillor
05 - Foliorum Viridium
06 - Haunting Birds
07 - Hallways of Enchanted Ebony
08 - The Meloncholy Spirit

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 The Compendium Archive (Compilation) (2010)

CD 1:
01 - The Wilderness
02 - As Embers Dress The Sky
03 - This Old Cabin
04 - Of Stone, Wind and Pillor
05 - Foliorum Viridium
06 - Haunting Birds
07 - Hallways of Enchanted Ebony
08 - The Melancholy Spirit

CD 2:
01 - Kneel To The Cross (Sol Invictus Cover)
02 - A Poem By Beats
03 - Odal (Infinity Mix)
04 - The Death of Man (Version III)
05 - Tomorrow Will Never Come
06 - Fragment (Second Phase)
07 - The Wolves of Timberline
08 - Falling Snow (Alternate Mix)
09 - Scars of The Shattered Sky
10 - Fragment 4

 Marrow of The Spirit (2010)

01 - They Escaped The Weight of Darkness
02 - Into The Painted Grey
03 - The Watcher's Monolith
04 - Black Lake Nidstang
05 - Ghosts of The Midwinter Fires
06 - To Drown

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 Whitedivisiongrey (Compilation) (2011)

CD 1 - The White:
01 - The Isle of Summer
02 - Birch Black
03 - Hollow Stone
04 - Pantheist
05 - Birch White
06 - Sowilo Rune
07 - Summerisle - Reprise
08 - Haunted Birds (Nest)

CD 2 - The Grey:
01 - The Lodge (Dismantled)
02 - Odal (Nothing Remix)
03 - Nur.Noch.Asche (Allerseelen Shadow Remix)
04 - Dunkelgrauestille (Allerseelen Pale Companion Remix)
05 - A Desolation Song (TWC Aleutian Mix)

 Faustian Echoes (EP) (2012)

01 - Faustian Echoes

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 The Serpent & The Sphere (2014)

01 - Birth and Death of The Pillars of Creation
02 - (Serpens Caput)
03 - The Astral Dialogue
04 - Dark Matter Gods
05 - Celestial Effigy
06 - Cor Serpentis (The Sphere)
07 - Vales Beyond Dimension
08 - Plateau of The Ages
09 - (Serpens Cauda)

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