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sábado, 16 de agosto de 2014

Project46 - Discografia

Escrever postagens para um site como o nosso é um desafio. Pode parecer que não, afinal, para quem acessa, de repente já está tudo pronto para usufruição, mas pra nós que escrevemos, são muitas horas de dedicação para ouvir às bandas várias vezes, upar os arquivos, e mais algumas horas para escrever um texto. Nem sempre fica bom. Mas a gente tenta. Outro grande desafio é que eu não gosto e evito escrever de forma que daqui a alguns anos a postagem pareça ultrapassada e desatualizada. Não é questão da banda lançar mais álbuns e só precisarmos complementar o texto. É questão de que tem alguns casos em que todo o corpo da postagem gira em torno do que a banda lançou até aquele momento, daí quando sai mais um disco, quebra nossas pernas.
Porém, tem postagens como essa que merecem ser marcadas pelo jeito que foram escritas e pela data de publicação. Data... pois é. Chegamos a mais um dia 16 de agosto. O dia do meu aniversário. Nesse mesmo dia, mas há exato um ano, postei uma das bandas que sou e serei mais fascinado em toda a minha vida: o fantástico Carach Angren, banda holandesa de Symphonic Black Metal. Fiz a postagem por ser uma das bandas que mais admiro, e porque o Warriors Of The Metal funciona também como uma espécie de diário; se acesso alguma publicação, lembro de alguma coisa que estava acontecendo na minha vida naquele momento. E eu queria lembrar que postei uma banda que sou fissurado no dia que fiz 20 anos de idade.
Agora, um ano mais tarde, por que não repetir a dose? Por que não comemorar meus 21 anos de idade, minha maioridade plena, com mais uma banda daquelas que fazem ouvir seus discos religiosamente todos os dias? Por que não comemorar postando uma banda que me matou a saudade de viciar em algo? Que me faz não resistir e ouvir incansavelmente, que é incrivelmente técnica, avassaladora, brutal, manda papo reto nas letras, conta com muito talento por parte de cada um dos músicos, e o melhor de tudo, é brasileira?
Pois é, rapaz... nos próximos anos vou me lembrar que nesse dia postei uma banda fantástica, que por muito tempo via o nome circulando mas ignorava por pensar que era "só mais uma". Vou me lembrar que era uma banda mais ou menos fora da minha "área de atuação", mas ao mesmo tempo, tão dentro. Uma banda que vai impressionar aos que conhecerem-na através dessa postagem. Uma banda chamada Project46, que é maravilhosamente versátil dentro da quebradeira do Extremo e foi fundada em São Paulo, no ano de 2008.
Em meio a um cenário musical saturado como o do Metal, lançar um grande disco se torna um desafio cada vez mais complicado. Música hoje em dia exige mais do que antigamente, pois ela também foi afetada pelo desenvolvimento. Para trabalhar, hoje em dia, o indivíduo precisa ter várias qualificações e cursos. Na música, os músicos também têm que ser altamente capacitados, e acima de tudo: perfeccionistas. Felizmente, o Project46 foi abençoado com esse perfeccionismo em cada mínimo detalhe.
Tudo começou por iniciativa de Caio MacBeserra (vocal), Vinicius Castellari (guitarra), Jean Patton (guitarra), Rafael Yamada (baixo) e Guilherme Figueiredo (bateria), amigos de infância que se juntaram para fazer um som ao seu gosto. Os cabeças por trás até mesmo da escolha do nome foram Vinicius e Jean, que eram os números #4 e #6, respectivamente, em uma banda tributo ao Slipknot chamada Kroach. Esse tributo era completo mesmo, com nove membros numerados de zero a oito, a caráter dos originais, e contava com todos os membros do Project46, acrescidos por integrantes de outras bandas como T.R.I.A.D.Command6, e itSELF. A dupla teve um "vislumbre" deles mesmos iniciando um projeto juntos... unindo a palavra "projeto" com seus números no tributo, o nome Project46 caiu intuitivamente.
É bem verdade que a princípio, a banda não era exatamente a oitava maravilha do mundo. Excelentes sim, com ótima produção e boa criatividade, mas não chegavam ao ponto de se destacarem em meio a tantas bandas. Ao longo dos anos, lentamente desenvolveriam sua abordagem, esmerilharia seu som e chegariam a um nível difícil de não chamar de perfeição.
O primeiro registro foi o EP "If You Want Your Survival Sign Wake Up Tomorrow", lançado de forma independente em 2009, assim como todos os demais registros. Esse compacto de quatro faixas é o único trabalho com letras compostas em inglês. A primeira faixa, "Survival Sign", aposta em um matador Death Metal, mas as três restantes acoplam o rótulo ao Metalcore, introduzindo também os já tradicionais vocais limpos melódicos do gênero. O peso é absurdo, e a atitude, violenta. Mas também há espaço para violões na faixa "Wake Up", contribuindo para um clima de fechar os olhos em deleite.
A ótima repercussão no cenário independente os levou a realizar mais de 30 shows em 2009 e 2010. Com a boa aceitação do público, o passo seguinte foi entrar em estúdio e gravarem o álbum debut "Doa A Quem Doer", que foi lançado em 2011.
Nesse álbum de estreia, o Project46 já demonstra novamente uma postura um pouco diferente. A mais evidente delas é a total transição para letras em português, inclusive das faixas do primeiro EP. Outra é o integral Metalcore e Hardcore, que aparecem de forma predominante tanto nos trechos mais cadenciados quanto nos mais porradeiros, sobrepostos pelos raivosos guturais fechados de Caio MacBeserra, que também se rendem a linhas mais rasgadas e abertas, demonstrando versatilidade, mais alguns vocais limpos. Algo interessante é que Caio retira mais uma carta da manga: a sua capacidade de executar o vocal pig squeal, típico do Grindcore, gênero que surge vez ou outra aqui e ali no álbum, com seus riffs quebrados e tempo arrastado. Era o Project46 demonstrando sua capacidade de unir gêneros e a versatilidade de seu vocalista. Mas isso ainda viria a melhorar. E muito. Vai por mim.
Após Guilherme Figueiredo ser substituído pelo talentoso Henrique Pucci na bateria, a banda realizou ainda mais shows, passando até mesmo pelo Maquinaria Fest do Chile. A bateria de apresentações culminou no lançamento do EP ao vivo "Live @ Inferno Club" em 2012, gravado, evidentemente, no Inferno Club, na capital paulista.
Não dá para negar que apesar de excelente, o Project46 não se destacava de forma única até aqui. No entanto, junto à certa demora para o lançamento do segundo álbum de estúdio, algo realmente espetacular estava para chegar. Esse algo espetacular pôde ser apreciado a partir do ano de 2014, quando a obra-prima "Que Seja Feita A Nossa Vontade" foi lançada. Esse algo espetacular é um boom de criatividade que se irrompeu sobre a banda e a extrema competência e perfeccionismo aplicado em cada, cada detalhe do álbum.
Não é brincadeira, é até difícil falar sobre o disco. É muito elogio a fazer, muito detalhe a ressaltar. Duas coisas certamente contribuíram pesado para tornar esse álbum fenomenal: a expansão da capacidade vocal de Caio MacBeserra, e a entrada do baterista Henrique Pucci, um cara que dota de uma destreza imprescindível para o álbum. Não é à toa que geralmente os álbuns mais impressionantes de um Metal tocado com vertentes Extremas têm trabalho primoroso com as baquetas. Pois é.
O vocalista é a alma de uma banda. Ela pode ser instrumentalmente boa, mas se o vocalista não for ao nível, não convence. Por isso o Caio merece um foco especial, pois é um profissional de qualidade indiscutível e demonstra uma gama invejável de recursos vocais: faz gutural fechado, gutural rasgado em vários tons, vocal com drive, vocal limpo cantado rápido, de forma frenética, pig squeal... muitas das técnicas são introduzidas dentro de uma mesma música. Tamanha alternância e diversidade levam a crer, caso esteja desinformado, que se trata de dois vocalistas. Mas não. É só ele mesmo!
Virando as atenções ao instrumental, a cada música você percebe muita variação rotular: HardcoreThrashcoreDeathcoreGrindcoreMetalcoreDeath MetalMelodic Death Metal... um verdadeiro caos, mas um caos organizado. Você não sente que a musicalidade foi jogada ao léu. Foi tudo feito com consciência. O nível de criatividade é tanto que as canções têm vários trechos instrumentais diferentes, vários modos de tocar, propiciando um ar de diferenciação que apesar de toda a destruição instrumental (principalmente da bateria rica em recursos), não se torna maçante.
Algo muito explorado pelas guitarras é o culto dos riffs quebrados e o uso de guitarras limpas. Também muito interessantes são as repentinas entradas de solos de guitarra com técnica melódica, típica do Melodeath. Sobra espaço até mesmo pras percussões carnavalescas introduzidas em "Carranca". Enfim... é muita competência!
A dedicação e atenção em cada detalhe criou canções de alto nível e letras inteligentes. Usando e abusando do português da periferia, o grupo compôs letras que não tem como o povo não entender. As palavras de baixo calão não afetam a mensagem transmitida, que é inteligente e não passa de verdade nua e crua. São todas críticas, muitas delas contra o Brasil, contra o conformismo de seu povo, contra políticos. Outras nos incentivam a votar corretamente, a pôr os políticos pra tremer. Outras até mesmo criticam quem é cuzão. Mas é sempre crítica. E tanta mensagem foda é transmitida com muita potência vocal. É tamanha violência, tamanha raiva, que você é capaz de sentir o impacto das palavras, em perfeita simetria com o peso lírico.
"Que Seja Feita A Nossa Vontade" é um daqueles raros álbuns que merecem uma resenha separada analisando detalhadamente cada uma das faixas. Mas não é nosso costume fazê-lo aqui, fora que isso faria essa postagem ainda maior do que já é. Difícil também é eu, particularmente, julgar um álbum como perfeito e usar elogios de tanto impacto quanto os que eu usei. Mas não tem como. Esse é do caralho e merece os ouvidos de todo bom headbanger. Um dos melhores lançamentos de 2014. Não é à toa que a banda está crescendo pra porra.
Eis aqui então uma banda que se tornou fenomenal e que posto nesse dia especial para mim com muito gosto. Quem conhece sabe que não estou exagerando. Fica uma expectativa para o terceiro álbum de estúdio, mas após tanta dedicação, o mais provável é que ponham o pé no freio. Geralmente acontece. Mas se não acontecer... melhor pra nós! Portanto, contemplem uma das maiores revelações do cenário independente do Metal no Brasil nos últimos anos: o Project46!


 If You Want Your Survival Sign Wake Up Tomorrow (EP) (2009)

01 - Survival Sign
02 - If You Want
03 - Tomorrow
04 - Wake Up


 Doa A Quem Doer (2011)

01 - 809072
02 - Atrás das Linhas Inimigas
03 - Impunidade
04 - Capa de Jornal
05 - Se Quiser
06 - Violência Gratuita
07 - Amanhã Negro
08 - #46
09 - Dor
10 - No Rastro do Medo
11 - Acorda Pra Vida
12 - Impunity (Bonus Track)


 Live @ Inferno Club (Live) (2012)

01 - Violência Gratuita
02 - Atrás das Linhas Inimigas (feat. Fah)
03 - Capa de Jornal
04 - Se Quiser
05 - The Heretic Anthem (Slipknot Cover)


 Que Seja Feita A Nossa Vontade (2014)

01 - Caos Renomeado
02 - Foda-Se (Se Depender de Nós)
03 - Erro +55
04 - Desordem e Progresso
05 - Carranca
06 - Na Vala
07 - Empedrado
08 - Veneno
09 - Em Nome de Quem?
10 - Vergonha Na Cara


Um comentário:

  1. Como "disse" o Vinicius, nos comentários do Face. A musica "Na Vala" é boa demais.

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