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domingo, 10 de agosto de 2014

Overdose - Discografia

Se tem uma coisa difícil de entender, é por que que, lá nos primórdios da música pesada no Brasil, praticamente apenas o Sepultura ganhou os holofotes da mídia em geral. Claro que um bom conhecedor sabe da existência e aprecia outras bandas tão antigas quanto, mas a questão é que o Sepultura chegou num patamar de publicidade e exposição ao público que muitas vezes é injusto com outras bandas que também chutavam cus. E olha que isso ofuscou até mesmo excelentes bandas conterrâneas, tais como Sarcófago e o próprio Overdose, tema dessa postagem.
Belo Horizonte certamente é um celeiro de grandes músicos e artistas no Brasil, e a importância da metrópole para o Metal brasileiro é grande. Com a representação da capital, a influência se espalhou pelo interior de Minas Gerais, resultando nas diversas excelentes bandas oriundas do Estado que podemos apreciar nos dias de hoje. Mas quem sabe disso é mais quem curte um som, por sinal. O Overdose, desde seus primeiros álbuns, sempre apresentou um som de qualidade, mas o reconhecimento no Brasil infelizmente é pouco. E olha que são muito provavelmente os primeiros a introduzirem elementos brasileiros na sonoridade, os famosos batuques carnavalescos. Isso antes mesmo de "Roots". Porém, como de costume, construíram seu nome na América do Norte e Europa ao longo de sua carreira, enquanto no Brasil a coisa era mais difícil.
Foi com a demo "Última Estrela Demo" que a banda iniciou suas atividades, em 1983. Na época, a formação consistia em Pedro Amorim "Bozó" no vocal, Ricardo Souza e Cláudio David nas guitarras, Fernando Pazzini no contrabaixo e Helio Eduardo na bateria. Mas foi dois anos mais tarde que o quinteto conseguiu uma exposição bacana no cenário metálico, através do famoso split "Bestial Devastation/Século XX", lançado através da Cogumelo Records e em parceria com o Sepultura, que até então também estava apenas começando sua caminhada e tinha apenas um ano de vida. Foram 15 mil cópias vendidas, um número impressionante em relação à época e ao estilo musical, o que resultou num interessante alavancamento de ambas as bandas, rendendo apresentações fora do Estado e elogios da crítica estrangeira, tendo como única crítica o fato de cantarem em português. Posteriormente, o Sepultura viria a se tornar gigante, e, mesmo com a sombra que fez sobre as demais bandas, isso ajudou um pouco o Overdose (e ainda ajuda nos dias de hoje), pois os fãs acabam conhecendo a discografia, conhecendo esse trabalho, e consequentemente, conhecendo o Overdose.
Os tempos seguintes foram conturbados para o conjunto. Passaram a enfrentar problemas contratuais com a Cogumelo Records, chutaram o guitarrista Ricardo Souza devido ao seu pouco empenho, tiveram que lidar com limitações técnicas do baterista Helio Eduardo, tinham pouco dinheiro... o tempo fechou, mas não os impediu de tentarem. Assinaram então com o selo carioca Heavy Discos, que bancou parte dos custos do primeiro álbum. O restante veio do bolso da própria banda.
"Conscience", lançado em 1987, veio limitado, com pouca produção e comercialmente fracassado, decepcionando fãs que vinham cultivando expectativa desde o split com o Sepultura lançado dois anos antes. Buscando maior aceitação crítica, os mineiros passaram a apostar nas letras em inglês, o que é, de certa forma, um ponto considerado positivo. Particularmente, acho o álbum muito bom. Praticam um Heavy Metal tradicional, das antigas, mas com uma sutil levada de Power Metal que torna o som mais melódico, algo na veia do Helloween em seus primeiros estágios, só que um pouco mais pesado e sem vocais agudos. O vocalista Bozó cantava limpo na época, em tom médio, e a harmonia de sua voz trazia fortes vibratos. A única faixa em português é a "Última Estrela", que já havia se tornado clássico desde a primeira demo.
Ainda em 1987, o baterista André Marcio, de apenas 14 anos, ingressaria na banda, acrescentando maior qualidade técnica ao som.
Resolvendo os problemas com a Cogumelo Records, o Overdose voltou a trabalhar com o selo e a pôr a mão na massa para a modelagem do segundo álbum de estúdio. A consequência do amadurecimento musical do conjunto, do maior respeito que conquistaram e da troca de membro foi o fodaço álbum "You're Really Big!", lançado em 1989. Os caras novamente apostaram na fórmula anterior, no entanto, de forma mais concisa. Com direito aos teclados base e solo de Fabio Ribeiro (ele mesmo, que passaria pelo Angra e Shaman anos mais tarde), o disco veio ainda mais melódico, um pouco mais Power, e mais técnico do que o primeiro, mas sem se converter completamente à vertente, pois o foco principal segue sendo o Heavy Metal tradicional. Entre as várias excelentes faixas do trabalho, algo que se destaca bem é a balada "Let Us Fly", demonstrando a versatilidade do grupo.
A repercussão foi tão boa que a banda reconquistou o respeito dos antigos fãs, conquistou novos, tocou por todo o Brasil e colheu positivas críticas de revistas especializadas de outras partes do mundo. Por volta dessa mesma época, o Testament passou pelo Brasil, tendo seus shows abertos pelo Overdose.
Eufóricos com a aceitação do público, a sequência de shows e o crescimento da banda, os mineiros se dedicaram com empenho na composição do terceiro álbum de estúdio. Rapidamente, em 1990, o fodaço "Addicted To Reality" chegou às prateleiras, expondo um Overdose com uma nova cara, afim de fazer diferente. Dessa ver, reformularam a sonoridade e trouxeram um puro Thrash Metal de muita qualidade. Som muito bem distorcido, pesado, com direito a solos velozes e técnicos e outros com feeling e nostalgia, além de uma postura vocal bem mais pesada por parte de Pedro, investindo nos drives e em alguns rasgados. Detalhe que novamente compuseram uma balada, mas agora, na cara do Thrash, com direito a trechos de violão e tudo: a linda "Pain". Mais do que nunca, os caras sabiam exatamente o que estavam fazendo e tinham postura de uma grande e admirável banda.
Ainda no mesmo ano, a banda relançou o "Século XX" em forma de EP, sem a parte do Sepultura e com nova arte gráfica e faixas bônus.
Sentindo a falta de uma segunda guitarra para transmitir o peso do álbum ao vivo, surgiu a ideia de convidar um segundo guitarrista. Como a banda Anguish ensaiava em um local perto de onde o Overdose ensaiava, convidaram Sérgio Cichovicz, que euforicamente aceitou o convite. Entraram então em tempos de composição do próximo álbum.
O quarto e foderoso álbum de estúdio é o matador "Circus of Death", que saiu em 1992. Trata-se do disco mais pesado da banda, com produção de muita qualidade e musicalidade digna de muita visibilidade. O integral Thrash Metal executado é magnífico, do tipo que agrada qualquer fã. Perfeito em todos os detalhes: guitarras pesadas e pegadas, solos velozes, muita agressividade nos drives do vocal, muito backing vocal acompanhando fins de frase e refrões, e ainda violões e clean guitars a gosto, dando sequência a essa introdução que já vinha sendo inserida em "Addicted To Reality".
A repercussão no Brasil foi razoável, mas o disco também foi bem distribuído na Holanda.
Após muito tempo de formação estável, novamente, mais uma baixa se assola; contrariado pelo crescente peso e mudança de vertente desenvolvidos pela banda, o baixista Fernando Pazzini se desligou ao fim da turnê de divulgação do álbum. Seu substituto veio a ser um fã, Eddie Weber.
Desde a época da turnê de "Addicted To Reality", o vocalista Bozó e o baterista André Márcio brincavam com percussões nos intervalos dos ensaios, tocando em um ritmo brasileiro. Foi aí que surgiu a ideia de introduzir esse ritmo na própria musicalidade do Overdose. Afim de checar como ficaria uma música assim e também ver a reação dos fãs, compuseram a faixa "Psychopath" (que seria então renomeada como "Street Law" no álbum seguinte) e a apresentaram durante a turnê de divulgação do Circus of Death. A aceitação foi melhor do que o esperado, fazendo com que decidissem compôr um álbum inteiro em torno desses batuques tão patriotas.
O contrato com a Cogumelo Records havia chegado ao fim, deixando a banda sem teto. Em busca de novos contratos e maior exposição, o guitarrista Cláudio David viajou a Los Angeles, nos Estados Unidos, onde permaneceu por seis meses, ampliando sua lista de contatos e conhecendo a cena. Voltou então para Belo Horizonte com promessas de contratos que não se concretizaram. Então, enfiaram a cara na composição do próximo álbum.
Unindo o até então inédito e improvável híbrido entre Thrash Metal e percussões brasileiras, o álbum "Progress of Decadence" saiu em 1993 com uma musicalidade simplesmente fascinante e única. Esse é muito provavelmente o primeiro registro do tipo na história, o marco inicial de uma tendência que viria a se desenvolver com força ao longo dos anos seguintes na música pesada. Um álbum inteiro construído em torno de um Thrash Metal tocado com riffs quebrados, pausados, vocais arrastados e agressivos, carregados de drive, e muito batuque brasileiro com direito a cuíca e tudo, trazendo à mente um misto de tudo que caracteriza o Brasil, como Carnaval, favelas no Rio de Janeiro, Bahia. Mesmo até os dias de hoje, é um dos álbuns mais brasileiros já vistos no Metal. É sem dúvidas um álbum fantástico. Honestamente, acho mais bonita a introdução da cultura brasileira no Thrash Metal do que no Power Metal, onde é mais comum encontrar esse tipo de coisa.
Após o lançamento do álbum, o guitarrista Cláudio David voltou aos Estados Unidos com o baixista Sérgio Cichovicz para buscar um grande contrato. Até conseguiram conquistar o interesse de três grandes selos, incluindo a Sony Music Entertainment. Porém, uma das exigências era que se apresentassem o quanto antes para avaliarem a banda. No entanto, os demais membros não tinham condições de viajar, nem de arriscar receber um 'não' após todo o esforço. Por isso, buscaram contratos com selos menores. Assinaram então com a Futurist, que lançou "Progress of Decadence" nos Estados Unidos, Canadá e Europa em 1994. A maior exposição gerou turnês na América do Norte e Europa, além de uma cacetada de matérias pelas revistas especializadas do mundo todo.
No entanto, mesmo sem contrato, a Cogumelo Records ainda detinha os direitos de comercialização do disco no Brasil. Acabou que a banda voltou a assinar com o selo para o lançamento do sexto álbum de estúdio.
"Scars" chegou em 1995 dando sequência ao Thrash brasileiro aplicado no disco anterior, porém, com o lado Metal um pouco mais latente, engolindo mais a veia cultural. Todavia, é tão fantástico quanto, com produção ainda mais rica e pesada. Alternâncias vocais também são mais uma aposta, pois Bozó não investe apenas no rasgado, mas também em um limpo nasal típico de regiões do Oriente Médio. O álbum teve grande repercussão no exterior, tocando amplamente pelas rádios dos Estados Unidos.
Desde então, nada mais foi lançado pela banda, que ainda não decretou seu fim absoluto. Os caras são muito fodas e autênticos em cada álbum que lançaram. É uma pena que nem todo mundo saiba que, três anos antes de "Roots" do Sepultura, o Overdose já havia feito diferente no Metal e introduzido cultura brasileira. O Overdose merece muito mais reconhecimento. Em vista do alto nível dos álbuns e dos anos de estrada, eram para estar em um patamar elevado. Mas o Brasil simplesmente ignorou a existência da banda, e dificuldades muitas vezes financeiras também atrapalharam a banda a alavancar com mais efetividade no exterior. Mas cabe a nós agora, no mínimo, reconhecer a grandeza desses caras, a originalidade de "Progress of Decadence" e "Scars", e, claro, ter a clara noção de que desde os primórdios da música pesada no Brasil, com ou sem apoio da mídia (especializada na vertente ou não), sempre contamos com bandas brilhantes.


 Última Estrela Demo (Demo) (1983)

01 - Última Estrela


 Bestial Devastation/Século XX (Split) (1985)

01 - Sepultura: The Curse
02 - Sepultura: Bestial Devastation
03 - Sepultura: Antichrist
04 - Sepultura: Necromancer
05 - Sepultura: Warriors of Death
06 - Overdose: Anjos do Apocalipse
07 - Overdose: Filhos do Mundo
08 - Overdose: Século XX

Download

 Conscience (1987)

01 - God Save The Metal
02 - Messengers of Death
03 - Children of The War
04 - Save Our Hearts
05 - Peace
06 - Última Estrela
07 - Kharma
08 - The Day After
09 - Rebellion
10 - Prison of The Conscience


 You're Really Big! (1989)

01 - Over The Sky
02 - Stoneland
03 - Nuclear Winter
04 - Big As The Universe
05 - Loneliness
06 - Let Us Fly
07 - United We'll Be One
08 - Age of Aguarius
09 - Fight For Our Dreams


 Addicted To Reality (1990)

01 - Sweet Reality
02 - Night Child
03 - White Clouds
04 - Pain
05 - Your Way
06 - Strangers In Our Own Land
07 - Winds of Change
08 - A Great Dream


 Século XX (EP) (1990)

01 - Anjos do Apocalipse
02 - Filhos do Mundo
03 - Século XX
04 - Children of War
05 - Peace
06 - Nuclear Winter
07 - Força Crescente


 The Lost Tapes of Cogumelo (Split) (1990)

01 - Overdose: Última Estrela
02 - Holocausto: Massacre
03 - Sarcófago: Christ's Death
04 - Sarcófago: Satanic Lust
05 - Sepultura: Necromancer
06 - Mutilator: Evil Conspiracy
07 - Mutilator: Visions of Darkness
08 - Chakal: Children Sacrifice

Download

 Circus of Death (1992)

01 - The Zombie Factory
02 - Children of War
03 - Dead Clouds
04 - Profit
05 - The Healer
06 - Violence
07 - A Good Day To Die
08 - Powerwish
09 - Beyond My Bad Dreams


 Progress of Decadence (1993)

01 - Rio, Samba e Porrada No Morro
02 - Street Law
03 - Straight To The Point
04 - Progress of Decadence
05 - Capitalist Way
06 - Deep In Your Mind
07 - Noise From Brazil
08 - Aluquisarrera
09 - Favela
10 - No Truce
11 - Faithful Death
12 - Stupid Generation
13 - Zombie Factory


 Scars (1995)

01 - The Front
02 - My Rage
03 - Manipulated Reallity
04 - How To Pray
05 - Scars
06 - Still Primitive
07 - Just Another Day
08 - School
09 - Last Words
10 - Postcard From Hell
11 - Who's Guilty??
12 - Out of Control
13 - A Fairy Tale
14 - Nu Dus Otro É Refresco


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