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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Armahda - Discografia Comentada

Ainda me lembro da época em que comentários sobre apoio ao Metal nacional ou valorização da cultura brasileira através da música pesada eram escassos. O purismo sempre atrapalhou severamente o despontamento de bandas que ousam acrescentar elementos externos à musicalidade. Até mesmo o grandioso Sepultura encarou narizes torcidos por parte dos fãs mais tradicionalistas quando passou, em 1995, dois dias no Mato Grosso numa aldeia com os índios Xavantes a fim de absorver inspiração para o álbum "Roots", lançado no ano seguinte.
Embora o purismo infelizmente ainda exista, hoje está bem mais amenizado do que há 20 anos atrás. Exatamente por isso, o Metal se tornou o gênero musical que mais resgata culturas e tradições (por meio de vertentes como FolkViking, e outras), o que acaba por despertar o interesse dos mais jovens, contribuindo com conhecimentos gerais através das letras que, por sua vez, são brindadas com a essência sonora dos instrumentos tradicionais que nos fazem voltar no tempo.
Mas não é apenas a Europa e algumas localidades da Ásia que andam misturando a modernidade do Heavy Metal às suas raízes culturais; o Brasil também entra na dança - com mais força a cada ano, diga-se de passagem. Nunca se falou tanto em apoio ao Metal nacional - nem consequentemente da valorização da própria cultura - quanto agora, especialmente depois da polêmica declaração de Edu Falaschi (Almah, ex-Angra) em entrevista à Rock Express em novembro de 2011, criticando e ironizando bangers que pagam altos preços para assistir à bandas gringas, mas não têm o mesmo comportamento em se tratando de bandas brasileiras, estas que, de fato, esbanjam qualidade. Mesmo que as pessoas brinquem com as palavras do vocalista, elas carregam uma verdade que, bem ou mal, acabou refletindo de forma positiva no comportamento de uma parcela dos adeptos do Metal. Isso abre caminho para o surgimento, valorização e crescimento de bandas que desejam mostrar a força de seu som e divulgar de forma efetiva acontecimentos históricos.
Em meio à crescente onda de bandas que inspiram-se em nós mesmos como pátria, podemos encontrar bandas de qualidade como o Armahda, que tem como principal foco fazer Metal e contar episódios da história brasileira que não deveriam ser esquecidos. O projeto nasceu em 2011, em São Paulo, fruto das ideias de Maurício Guimarães. O passo seguinte foi contatar Renato Domingos, e juntos, como uma dupla, começaram os trabalhos de composição de músicas autorais, aproveitando materiais que já tinham composto anteriormente.
Uma das coisas mais interessantes nesses caras é a forma como obtiveram as informações para a composição das letras, fora pesquisas por leitura: fontes diretas como colaboradores do exército brasileiro e testemunhas. Com isso, nasceram músicas com interessante teor histórico, que ganharam poder e expressão ao serem interpretadas por instrumentos e voz.
O resultado da dedicação pôde finalmente ser apreciado em dezembro de 2013, quando o debut homônimo foi lançado, de forma independente, após uma série de teasers e lyric videos serem liberados através do canal da banda no Youtube. Todos os vocais, guitarras, solos, baixo e violões foram gravados por Maurício Guimarães, e as demais guitarras, solos, violões, baixo e arranjos orquestrais, por Renato Domingos. Ambos também tomaram conta dos arranjos de bateria. Porém, estes foram gravados pelo membro de sessão Rafael Gomes Zeferino, que também é o co-produtor, engenheiro de som e masterizador do álbum.
A sensação ao degustar o trabalho é de familiaridade, logo de cara. Uma familiaridade mais familiar do que a muito bem conhecida mistura entre Heavy e Power Metal: algo mais... alemão. É, ao meu ver, é um ponto negativo que os caras soem tanto como Blind Guardian. É comum bandas e artistas terem influências e as manifestarem de um modo ou outro, mas o Armahda a expõe um pouco mais do que o normal, estendendo-se principalmente ao vocal de Maurício, que é super parecido com o de Hansi Kürsch. Ao ouvir "Uiara", por exemplo, a associação à "The Bard's Song (In The Forest)" será imediata. Entretanto, o "Blind Guardian brasileiro" tem excelência e potência, e elementos metálicos extras que aliviam um pouco o aperto das correntes que os prendem à sua principal influência. Além do Heavy/Power pegado, trazem a acústica de um Folk que remete ao Nordeste e dá brasilidade às canções. Podemos também perceber influências instrumentais emprestadas do Death, Black e até mesmo do Viking Metal (vide "Matinta") cá e acolá, afetando o ritmo básico das canções. Mas os caras capricham na alternância de andamentos. As músicas mais energéticas como "Echoes From The River" e "Armahda" empolgam, e outras mais cadenciadas e levadas mais à base dos violões como "Uiara" e "Canudos" têm veias de hinos. Em meio à tanta objetividade ao organismo tupiniquim, claro que não podia faltar pelo menos uma música em português. Por isso, somos coroados com a excelente "Paiol Em Chamas".
Participações especiais interessantes também compõem o time. Sílvio Navas, conhecido por dar voz a personagens como Darth Vader, Mun-rá, Smurfs, entre outros, narra na faixa título as atitudes do general Floriano Peixoto, e Cíntia Scola participa do coral em "Uiara".
A mídia crítica especializada deu a devida atenção à banda, que repercutiu bem e colheu positivas resenhas. O disco e a banda, inclusive, ficaram entre os melhores de 2013 no país.
A dupla com certeza fez um trabalho satisfatório no disco de estreia, mas mesmo com o resgate ao organismo patriota, ainda precisa moldar um caráter próprio e desenvolver melhor o lado verde-e-amarelo. O fato de ser um Blind Guardian com sonoridade menos turbulenta e um pouco mais aberta ofusca a visualização da meta. Ainda assim, são detalhes. Mostraram ter técnica para fazer música de qualidade, e os moldes serão fatalmente aprimorados em futuros trabalhos. Excelente banda que agradará principalmente aos fãs de Power Metal e agudos com fundo de drive.

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 Armahda (2013)

01 - Ñorairô
04 - Canudos
05 - Armahda
08 - Matinta
10 - Uiara
12 - What Could Never Be
13 - Pathfinder

Ouvir (Spotify)

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