Social Icons

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Cangaço - Discografia

Não há dúvidas de que o Metal brasileiro vive sua época de maior prosperidade. Digo, outras bandas representaram pesadamente o Brasil a nível mundial no passado (principalmente Angra e Sepultura, nossos maiores bens), mas eram poucas e raras. Hoje em dia a coisa não é tão rara, uma vez que bandas de grande competência estão surgindo em todo o território nacional, de norte a sul. Bandas com músicos talentosos, afim de verdade de impulsionar seu som ao topo, "competindo" frente a frente com gringos.
Quem acompanha as bandas brasileiras sabe que qualidade é o que não falta. É um recurso abundante, e não a miragem de oásis como antigamente se pensava. Talvez o que dificulte uma ascensão a grande nível rapidamente hoje em dia seja o fato de que, admitamos ou não, o Metal está saturado. Está cada vez mais difícil se destacar entre milhares de bandas, embora a divulgação esteja mais fácil por meio da internet, especialmente das redes sociais. Felizmente, o que mantém mais e mais bandas novas surgindo é que o Metal é ouvido e feito com intensa paixão que é passada de geração pra geração! Por isso é autossuficiente. Nunca morrerá. Sempre teremos novas bandas para ouvir.
O Metal no Brasil não está ganhando representantes de respeito apenas de norte a sul. À direita da rosa-dos-ventos também: no nordeste. E a tal "miragem de um oásis no deserto" que pensavam que o Metal brasileiro era antigamente mostra-se agora uma realidade tangível. "Miragem", "oásis", "deserto"... palavras mais relacionadas a regiões inóspitas e infrutíferas, não é? Pois é... esse som vem exatamente da região mais seca do país: claro, o próprio nordeste. A banda pode não ser oriunda do coração do sertão (já que é de Recife, capital do estado de Pernambuco), mas sabe muito bem em que assunto está se inspirando para tematizar não apenas suas letras, que são um verdadeiro e rico registro histórico, mas também à sua sonoridade metálica extrema, criando uma mistura improvável até para o headbanger mais otimista.
A maioria dos adeptos e acompanhadores do Metal brasileiro com certeza está acostumada com bandas de qualidade, mas com propostas ousadas, aí já é outra história. O Folk Metal é interessante, mas não chega a ser ousado mais, pois se tornou comum. Sobre 'ousado', quero dizer ousado mesmo. Coisa improvável para a maioria. Imagine só uma banda que se inspira no mais cruel movimento armado da história do nordeste (o Cangaço), se situe no Death Metal, e incorpore elementos de música nordestina como Baião, Maracatu e Forró ao seu som? Pode parecer estranho, mas essa banda existe, e o seu nome é Cangaço.
Nascidas em torno de 1870 com o primeiro bando de cangaceiros de Jesuíno Brilhante (Jesuíno Alves de Melo Calado) e tendo seu fim em 1940 com a morte do último bando, o de Corisco (Cristiano Gomes da Silva Cleto), as atividades ilegais e banditistas dos cangaceiros do sertão nordestino foram o resultado trágico de uma vida sem grandes perspectivas de crescimento, de famílias ricas e violentas que concentravam o monopólio da terra, e do desleixo do governo com a região na época das oligarquias. Os cangaceiros assassinavam, assaltavam, estupravam e formavam alianças com aqueles que lhes ofereciam vantagem financeira e proteção contra as autoridades. O grupo mais famoso e próspero era o de Virgulino Ferreira da Silva, que atuou de 1922 até 1938, quando ele e seu bando foram mortos em Angicos, Sergipe, por meio de uma emboscada armada pelas autoridades militares sergipanas. Conhecido como "Lampião" devido à luz que saía do cano de sua arma e pela rapidez de seu dedo no gatilho, o cangaceiro (o mais famoso) foi uma verdadeira dor de cabeça para o governo do presidente Getúlio Vargas.
Servindo-se de uma bela dose de inspiração nesse evento da história brasileira, os pernambucanos Rafael Cadena (vocal e guitarra), Magno Barbosa Lima (vocal e baixo) e Arthur Lira (bateria) resolveram, no início de 2010, dar início a uma banda que retratasse a região e instigasse o senso crítico dos ouvintes, principalmente jovens. Ainda no ano de formação, o power trio já deu um importante passo rumo ao reconhecimento ao vencer, dentre 75 bandas, a seletiva do Wacken Metal Battle Brasil, dando-lhes o direito de tocar no Metal Battle na Alemanha, que aconteceu dentro do Wacken Open Air de 2010, sob os olhos do mundo todo. Isso rendeu merecido destaque em três edições da Roadie Crew.
Os primeiros registros fonográficos começaram a sair em 2010. As demos independentes "Cangaço" e "Parabelo" foram aperitivos do que esses caras são capazes de fazer com sua destemida proposta. A qualidade da gravação não é das melhores. Ainda assim, podemos notar uma banda que faz bom uso dos elementos externos e é capaz de colocá-los em consonância com os pesados e graves riffs de guitarra e os guturais dos dois vocalistas. Realmente promissor, despertando uma curiosidade sobre o que o futuro reserva pra eles. Todas as letras eram compostas em inglês, mas isso viria a mudar.
Já com gravação um pouco melhor, o trabalho seguinte foi lançado em 2011, agora com André Lira nas baquetas, presente desde a segunda demo. O também independente EP "Positivo" provou que a banda estava inspirada, afim mesmo de compôr. São cinco excelentes e inéditas músicas, dentre as quais quatro são em português.
Não demorou muito para o esperado debut chegar. Já em janeiro de 2013, "Rastros" estava disponível para apreciação, lançado também de forma independente. O registro é magnífico: um pedaço de história de perspectiva cangaceira ilustrada por um Death Metal crespo e cru que casa de forma perfeita e cristalina com os elementos tradicionais nordestinos de ritmos como o Baião. Pensa-se, naturalmente, a princípio, que a manifestação dos elementos Folk podem se sobressair e tornar a sonoridade zoada. Felizmente, isso não ocorre. Triângulo, viola, caxixi, pandeiro, agogô, instrumentos de sopro, e muitos outros elementos se unem ao Metal como se eles fossem naturais dali. Embora muitos trechos sejam mais pegados, as linhas de guitarra são compostas também em ritmo nordestino, apresentando uma nova forma de tocar Death Metal. Exatamente por essa lucidez musical é que a musicalidade transpira naturalidade, segurança, consonância. Simplesmente foda, brilhante, e, claro: cantado em português, à exceção das três últimas faixas. Após o lançamento, o baterista André Lira desliga-se da banda, deixando sua vaga para Mek Natividade.
Com isso, o tempo passa e chegamos até 2015, ano do lançamento de um EP que dispensa comentários, intitulado "Retalhado". Trata-se de um trabalho curto, de apenas 21 minutos de duração, que trás canções covers inteligentemente repaginadas para o estilo da banda. São versões de canções de Nação Zumbi, Zé Ramalho, Alceu Valença e Angra que ganharam uma roupagem agressiva e ainda mais nordestina!
Atualmente os rapazes estão trabalhando em um novo álbum de estúdio.
Cá está, então, mais uma banda brasileira e fantástica! Mais uma proposta incomum e arriscada tornada realidade graças à mente de músicos focados e competentes. A capacidade magistral de combinar elementos nordestinos sem perder a essência do Death Metal é o que torna esses caras impressionantes. Embora seja tocado de forma igualmente nordestina, você não sente que o lado Death está perdendo força ou foi desvirtuado. Ele está ali. Vívido. Fiel. O Cangaço é uma banda única. Singular. A inteligente execução da proposta torna esses caras merecedores de grande prestígio. Que isso venha com o tempo!


 Cangaço (Demo) (2010)

01 - Devices of Astral
02 - Gilgamesh
03 - Opposing
04 - Ghost of Blood


 Parabelo (Demo) (2010)

01 - Intro
02 - Corpus Alienum
03 - Logical Mistake
04 - Statu Variabilis


 Positivo (EP) (2011)

01 - Positivo
02 - The Second Hour
03 - Sete Orelhas
04 - Al Rasif
05 - Deserto do Real


 Rastros (2013)

01 - Atrito
02 - Cantar Às Excelências das Armas Brancas
03 - Arcabuzado
04 - Bombardeio No Ceará
05 - Encarnação
06 - Mental
07 - Statu Variabilis
08 - Corpus Alienum
09 - Devices of Astral

Download

 Retalhado (EP) (2015)

01 - Sangue de Bairro (Nação Zumbi Cover)
02 - Cavalos do Cão (Zé Ramalho Cover)
03 - Guerreiro (Alceu Valença Cover)
04 - Rondon
05 - Nothing To Say (Angra Cover)

Download

2 comentários:

  1. fantástica a banda, me surpreendi demais quando escutei,n esperava estar vivo para ouvir uma fusão tao maravilhosa assim, muito obrigado por posta-la, vocês são demais

    ResponderExcluir
  2. Miragem, deserto, infrutífera, terra mais seca??? Brother, vem conhecer o nordeste, especialmente Pernambuco!!!

    ResponderExcluir