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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Arandu Arakuaa - Discografia Comentada

Sempre ouvi muita conversa (fiada, algumas vezes) acerca do fato de bandas de determinado país tocarem um gênero como o Folk Metal falando da história e/ou cultura de outra nação. No Brasil mesmo muito se critica bandas que fazem Celtic Folk MetalPagan Folk MetalViking Metal e similares, encarando-os como símbolos de falta de patriotismo, não-reconhecimento dos valores culturais, tradicionais e históricos de nossa terra e, em casos extremos, em termos 'falaschianos', "chuparrolação de gringo". O mais 'interessante' nessa história é que, geralmente, esse tipo de crítica provém de pessoas alheias à tradição indígena, tornando-os candidatos não muito elegíveis para uma conversa crítica sobre valorização e apreciação dos ricos sais minerais de nossas raízes. Não estão totalmente equivocados, todavia, uma vez que é bem verdade que o brasileiro tende a não valorizar (ou valorizar menos) as origens tribais de sua terra.
Particularmente, nunca vi problema numa banda desejar fazer música 'Folk à moda europeia', com letras sobre celtas, vikings, teutões, bávaros, gauleses, entre outros povos. Privá-los de tal seria veto da liberdade de expressão e interesse. Não é porque um indivíduo é brasileiro que ele não vai poder se interessar e se inspirar em outras culturas, até porque um olhar um pouco mais profundo poderia ser aplicado na questão, já que os portugueses (que colonizaram o Brasil) são descendentes de celtas e a própria língua portuguesa, além do desmembramento do latim, sofreu influências principalmente do grego e do gaulês. Portanto, de alguma forma, falar sobre determinados povos também é falar um pouco sobre nós (embora eu não esteja desconsiderando a imigração maciça de italianos, alemães, e outros para o nosso país).
De qualquer forma, não há nada de errado nisso, embora os críticos ainda tenham um ponto de razão ao dizer que os ancestrais do Brasil deveriam ser valorizados (e por consequência, as ONGs em defesa dos índios seriam mais fortes, numerosas e expressivas).
Interessantemente, em Brasília, nossa capital federalZândhio Aquino fundou em abril de 2008 uma banda por meio da qual expressaria não apenas as origens tupis do país, mas também sua própria influência baseada em seus sinceros e apaixonados interesses consequentes do fato de ter sido criado em contato com índios, com música raiz ao fundo como trilha sonora.
Movido por seu nato interesse, Zândhio ainda cedo se interessou em ler "A Arte Gramática da Língua Mais Falada da Costa do Brasil" (Coimbra, 1595), livro escrito pelo padre jesuíta José de Anchieta, fruto de seu contato com índios executando sua missão como jesuíta, que envolvia educar, medicar, e catequizar. Aprendeu tupi antigo com os índios, ensinou-os o latim, e registrou o idioma no mencionado livro (o registro de novas línguas era uma tradição missionária), por meio do qual Zândhio absorveu seu conhecimento na língua anciã, embora também saiba um pouco de xerente por causa das aldeias que ele tem contato.
Com base em tanta inspiração orgânica, surgiu o Arandu Arakuaa, o tipo de banda de Metal que estava em falta no Brasil. Apropriadamente nomeada no idioma tupi, o nome significa "saber dos ciclos do céu" ou "sabedoria do cosmos". Seguindo a correnteza de forma impressionante, todas as letras também são compostas em tupi, resultando em um som ainda mais enraizado, fiel e inusitado.
Os primeiros estágios da banda foram difíceis. Zândhio encontrou muita dificuldade para estabilizar a formação, levando-o a gravar demos sozinho, acreditando no seu projeto. Somente no período entre outubro de 2010 e fevereiro de 2011 é que essa incômoda fase teve fim devido a entrada da vocalista Nájila Cristina, do baixista Saulo Lucena e do baterista Adriano Ferreira, complementando as guitarras e violas de Zândhio. Essa formação conseguiu, finalmente, lançar seu primeiro trabalho oficial: o EP-demo homônimo, contendo quatro faixas, em junho de 2012.
Infelizmente, a qualidade da gravação não é tão boa, não chegando a ser exatamente uma experiência empolgante. Ainda assim, mesmo com a rústica gravação, a temática diferente, a ousadia das letras em tupi e a mistura de elementos indígenas foram interessantes o suficiente para me manter ligado na banda. Sabia que eles seriam bem melhores no álbum de estreia... e de fato foram.
Após passarem um tempo concluindo as canções, entraram no Braodband Studio entre fevereiro e abril de 2013 para a gravação do debut. Produzido por Caio Duarte (vocalista do Dynahead), "Kó Yby Oré" veio a ser lançado de forma independente no dia 3 de setembro do mesmo ano, apresentando relevantes avanços em relação ao EP. Com uma sonoridade melhor emoldurada e de qualidade, álbum muito bem produzido e músicas concluídas, a apreciação ficou muito mais fácil e convidativa. A primeira impressão provavelmente é de estranheza. Além da temática diferente, o som também simplesmente não se parece com nada (me refiro ao lado Metal mesmo), tornando o Arandu Arakuaa uma banda difícil de rotular. É meio que uma mistura entre um seco Groove Metal com elementos de Heavy MetalDoom Metal e até Death Metal, que compartilham o ambiente, seja ao mesmo tempo ou paralelamente, com o lado Folk Metal da sonoridade, manifestado através de muita viola, teclado para a base, muita percussão, e instrumentos tradicionais indígenas como o maracá (um chocalho em forma de martelo). Igualmente interessante é que não apenas a cultura indígena é valorizada, mas também a nordestina, pois muitos trechos são tocados em ritmo de baião.
O universo vocal também é um âmbito que merece atenção. Ambos os tipos de vocais são executados: os guturais rasgados e o limpo, todos executados pela própria Nájila Cristina. Os rasgados são agressivos e geralmente em ritmo quebrado, enquanto os limpos são suaves e celestes, transmitindo uma sensação de aldeia em paz e céu tranquilo. Realmente viajante. Os backing vocals também se fazem merecedores de destaque nesse quesito vocal, uma vez que não poderiam ser de outra forma: tribais. No decorrer do disco, ouve-se gritos tribais em coro, como em volta de uma fogueira, ou se irritando de alguma forma, ou realizando alguma forma de ritual. Em músicas como "Gûyrá", por exemplo, é lindo como a voz tribal de Zândhio canta em ritmo indígena com os demais coros por baixo.
No mesmo mês de lançamento do debut, o grupo passou a contar com mais um guitarrista: Allison Wladmir.
Ouvir ao trabalho do Arandu Arakuaa é a certeza de transporte para nossas próprias raízes. É mergulhar nas vísceras de nosso próprio organismo patriota. É renovador. Certamente, é uma tarefa complicada rotular a banda, mas independente de rótulos, o que fazem é algo que deve ser muito bem recebido principalmente pelo público headbanger brasileiro. A sonoridade é complexa. Vai ser preciso repetir a dose algumas vezes para melhor assimilar as canções, ainda assim, é bom pra caralho. É bem verdade, também, que não é um trabalho esplêndido, magnífico, mas é realmente muito foda, composto com autoridade e um grande ponto de partida. É fácil perceber o potencial da banda, e o quanto ainda crescerão e aprimorarão sua própria sonoridade no decorrer dos anos, caso continuem firmes - e espero de todo coração que sim.
Aqui está, portanto, uma genuína manifestação em forma de música e Metal de uma cultura subestimada por séculos a fio, como a dos índios. Não deixem de apoiar a banda comprando o material! O álbum custa R$ 10,00 em mãos e R$ 15,00 com frete, e pode ser adquirido através do e-mail aranduarakuaa@gmail.com, ou através de contato feito pelo Facebook oficial da banda. Não deixem de curtir a página! É o Metal brasileiro em sua própria Renascença!

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 Arandu Arakuaa (EP) (2012)

01 - Kunhãmuku'ĩ
02 - Moxy Peẽ Supé Anhangá
03 - Auê!
04 - Tupinambá

 Kó Yby Oré (2013)

01 - T-atá Îasy-pe
02 - Aruanãs
04 - A-kaî T-atá
05 - O-îeruré
06 - Tykyra
07 - Tupinambá
09 - Auê!
10 - A-î-Kuab R-asy
11 - Kaapora
12 - Gûyrá
13 - Moxy Peẽ Supé Anhangá

 Wdê Nnãkrda (2015)

01 - Watô Akwẽ
02 - Nhandugûasu
04 - Dasihâzumze
05 - Padi
06 - Wawã
07 - Ĩwapru
08 - Nhanderú
09 - Ĩpredu
10 - Sumarã
11 - Povo Vermelho

4 comentários:

  1. El Idioma es 90% similar al idioma guarani hablado hasta hoy en mi Pais.. originario de los nativos de mi Paraguay querido.. los Guaranies.. de hecho una leyenda nativa dice que la raza originaria era la Tupi-Guarani.. y luego por causas de una inundacion tipo Diluvio sr dividieron y los Tupi fueron hacia los territorios que hoy son el Brasil. ..

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  2. Totalmente de acuerdo con la nota comentario. . Aqui en Sudamérica deberian ponerse a crear sonidos mas autóctonos dentro del metal.. la gente forma grupos de Viking Metal.. Folk Metal.. no tiene nada que ver con nosotros. ...

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  3. Totalmente de acuerdo con la nota comentario. . Aqui en Sudamérica deberian ponerse a crear sonidos mas autóctonos dentro del metal.. la gente forma grupos de Viking Metal.. Folk Metal.. no tiene nada que ver con nosotros. ...

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  4. El Idioma es 90% similar al idioma guarani hablado hasta hoy en mi Pais.. originario de los nativos de mi Paraguay querido.. los Guaranies.. de hecho una leyenda nativa dice que la raza originaria era la Tupi-Guarani.. y luego por causas de una inundacion tipo Diluvio sr dividieron y los Tupi fueron hacia los territorios que hoy son el Brasil. ..

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