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domingo, 4 de dezembro de 2016

Maestrick - Discografia Comentada

O que entendemos como Arte? Certamente, esse conceito está presente corriqueiramente em nossas vidas em sociedade, de tal maneira que ele é totalmente naturalizado e absorvido - porém, isso não quer dizer que é exatamente compreendido. O conceito de Arte é bastante amplo, tornando impossível defini-lo de apenas uma maneira. Entretanto, podemos entendê-lo, grosso modo, como tudo aquilo que resulta da tentativa do ser humano de expressar empiricamente o que lhe afeta os sentidos (como suas emoções, percepções, ideias...), seja através de abordagens linguísticas, plásticas ou sonoras. Ainda assim, o conceito não deixa de ter um forte tom subjetivo, já que está diretamente ligado à sensação do maravilhamento, algo bem individual. Portanto, o que é considerado arte para um, pode não sê-lo para outro.

Apesar de haver a possibilidade de definir Arte de algumas maneiras, o conceito é abstrato e absorvido por uma sociedade de maneira cultural, levando a determinadas manifestações humanas serem consideradas quase invariavelmente artísticas (desde que mexam com as emoções, causem maravilhamento), como a pintura, as artes cênicas, a dança e, certamente e o que nos interessa aqui, a música.

Direto de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, uma banda faz uso de uma das diversas manifestações artísticas - a música - e leva o conceito ao limite, numa abordagem "artisticamente interdisciplinar" que os próprios integrantes chamam de "aquarela musical" e conquistou expressivos elogios não apenas no Brasil, mas no mundo afora: o formidável Maestrick.

Demorei muito para finalmente ouvir os trabalhos dos paulistas, e a oportunidade de me encontrar com as obras veio graças à Som do Darma, que os assessora. Não sei o que pensar sobre: me arrependo por ser um trabalho tão espetacular que eu poderia ter ouvido há anos, ou me conforto na ideia de que esse foi um bom momento para ouvi-lo, pois se fosse num momento anterior, eu poderia não ter compreendido musicalidade tão complexa e madura? No fundo, talvez seja uma reflexão que não importa.

O Maestrick foi fundado em 2006 e executa basicamente Progressive Rock, mas o rótulo em si é vazio diante da complexa viagem artística que o atualmente trio permite ao ouvinte embarcar. Não apenas sua musicalidade exala as influências dos nomes mais clássicos do estilo, mas também é uma brilhante aproximação a diferentes segmentos artísticos, como o cinema, a dança, a pintura, a literatura e as artes cênicas, tudo com aura surrealista e banhado ainda a muita brasilidade.

Levou quatro anos para o Maestrick finalmente lançar seu primeiro registro, que veio na forma do EP "H.U.C.", de duas faixas, lançado em 2010. Era apenas uma demonstração parcial e introdutória de como viria a ser o álbum de estreia, que seria lançado um ano mais tarde. Introdutória mesmo; afinal, "H.U.C." e "Aquarela" são justamente as faixas de abertura do debut.

Portanto, em 2011, através da Die Hard Records e sob formação contando com Fábio Caldeira (vocal, piano e teclados), Danilo Augusto (guitarra), Maurício Figueiredo (guitarra), Renato Montanha (baixo, baixo fretless e guturais) e Heitor Matos (bateria e percussão), sai o trabalho de estreia "Unpuzzle!", causando grande rebuliço entre público e mídia especializada.

E não é pra menos - trata-se de uma conceitual jogada de mestre! Extremamente bem produzido, "Unpuzzle!" é um museu musical de artes antiga e moderna fundidos com altas doses de inteligência e ambição. Aqui, a banda resgata a essência do Progressive Rock setentista, trazendo-o para a modernidade em destilação com Progressive Metal, Heavy Metal, música nordestina e música brasileira cinquentista, tudo em invejável nível de coerência.

Cada canção tem sua personalidade e mensagem instrumental próprias, sem que isso signifique, em contrapartida, que elas fiquem deslocadas e provoquem a sensação de não pertencerem a um mesmo contexto conceitual. São diferenciadas, baseadas em diferentes influências, mas a aura Maestrick se mantém pulsante, ganhando vida graças à linda voz de Fábio Caldeira, cujo timbre é alto e cristalino, e sua postura é absolutamente teatral, como se espera de tamanha manifestação artística e progressiva.

Variadas influências são sentidas ao longo do trabalho: vide "H.U.C.", onde a postura alia Progressive Metal ao estilo Dream Theater e Progressive Rock numa forte conotação Yes, e ainda traz um momento sublime de quebradeiras progressivas nas cordas enquanto a percussão, na base, é brasileiríssima - e ainda vem, na sequência, vocais guturais, performados pelo baixista Renato Montanha. Ou então, note como "Aquarela" - que apesar do nome, é cantada em inglês - se assenta numa pegada Prog Rock mais sentimental, cujos momentos de maior intensidade se manifestam através de corais gospel de sensação inconfundivelmente Queen - algo também sentido vibrantemente mais adiante, em "Radio Active".

Climatização mais brasileira passa a ser mais apropriadamente explorada a partir de "Pescador", belíssima canção cantada em português, cuja base instrumental é ditada por instrumentos como viola caipira, bongo, chocalho, flauta e triângulo, exalando influências nordestinas extremamente bem aproveitadas. E já que Arte é o conceito lei aqui, não poderia faltar uma pegada circense, que chega a lembrar músicos como Gogol Bordello. A rápida "Sir Kus" - ótimo título! - absorve parte da atmosfera regional apresentada em "Pescador", e prepara terreno para "Puzzler", que vem na sequência, já com ritmização circense no talo.

Outros destaques singulares recaem sobre "Disturbia", mais densa e agressiva, apelando pro Progressive/Heavy Metal moderno; "Treasures of The World", uma linda balada brasileira composta em ritmo de mantra; e, sem dúvidas, "Yellown of The Ebrium", talvez uma das faixas mais únicas do registro, especialmente pela pesada carga MPB impressa na composição, com violão tocando ao velho e clássico estilo Bossa e passagem em português.

Seria estranho se "Unpuzzle!", sendo um disco progressivo, não tivesse uma longuíssima faixa. Ele é encerrado com a intensa e ótima "Lake of Emotions", de 21 minutos, que apresenta diferentes sensações e tonalidades de corais - inclusive o lírico.

Aqui e ali, participações especiais deixam suas contribuições, sendo a mais notável as vozes femininas em "Aquarela" e "Yellown of The Ebrium", executadas nesta última por Yana Roberta.

Embora seja possível destrinchar as canções e notar suas particularidades, trocas culturais entre elas são frequentes, e sensações de Pink Floyd, Beatles, Jethro Tull, Rush e até Angra pipocam no decorrer da obra, além de toda a já mencionada brasilidade e as fortes referências a segmentos artísticos como artes cênicas, pintura, literatura, dança, entre outros, enriquecendo um trabalho genial.

"Unpuzzle!", ainda por cima, é um álbum conceitual, contando uma história situada em um museu onde acontece uma exposição artística "entre várias dimensões, e os personagens que vivem dentro dos quadros são ajudados por dois seres nascidos das tintas do artista criador das obras". As letras são muito bem compostas - além de bastante complexas, por serem muito abstratas. O disco foi gravado no AR-15 Studios, em Bebedouro/SP, e mixado e masterizado por Gustavo Carmo (que deixou várias contribuições instrumentais e composicionais) no mesmo estúdio, e no AK-47 Studio, em Seattle, nos Estados Unidos.

Excêntrico e esplêndido, o debut colheu pesadas críticas positivas que colocaram "Unpuzzle!" entre os melhores álbuns de 2011 e o Maestrick entre as melhores bandas, segundo veículos como Jornal Estadão, Whiplash, Roadie Crew e Rock Brigade, ao longo de 2011 e 2012. A banda acabou chamando a atenção lá fora, fazendo com que o trabalho fosse lançado mundialmente pela Power Prog Records em 2013. Além disso, participações em diversos festivais importantes entraram pro rol de memórias e conquistas do grupo, como no Roça 'n' Roll em Varginha (MG), e no ProgFest II em Lima, no Peru.

Em 2016, a banda começou a gravar o sucessor de "Unpuzzle!", que se chamará "Espresso Della Vita: Solare", e será lançado, provavelmente, em 2017. No entanto, enquanto material novo não é apresentado e já como um trio após as saídas dos guitarristas Danilo Augusto e Maurício Figueiredo, o conjunto aproveitou o ano para lançar o EP "The Trick Side of Some Songs", uma grande homenagem às suas maiores e mais clássicas influências.

Lançado novamente pela Die Hard Records, esse registro de 39 minutos de duração (contando a faixa bônus) busca ter o mesmo peso de um álbum completo, já que lança as bases de uma transição entre "Unpuzzle!" e o vindouro "Espresso Della Vita: Solare". A intenção, aqui, além da homenagem, é de criar um centro de inspiração para a própria banda, e ainda deixar registrado tudo aquilo que já vinham tocando ao vivo com frequência desde os primeiros tempos da banda.

Embora se trate de um trabalho "cover", ele não se limita a meramente reproduzir as canções originais, não - trata-se de uma verdadeira repaginada, com direito a novos arranjos, acréscimos do próprio estilo Maestrick, além de muitos medleys e referências ao álbum subsequente.

Calibrados, os caras já iniciam o EP com a introdução "Near-Brain Damage", adaptação de "Almost A Brain Damage", dos gigantes do Pink Floyd. Inclusive, mais adiante, a adaptação também interessantemente encerra o EP, concedendo à principal banda de Progressive Rock o devido destaque por abrir e encerrar um importante trabalho de puro tradicionalismo progressivo.

Após o "Pink Maestrick Floyd" abrir mostrando qual será a pegada e proposta do trabalho, vem um excelente medley do Yes, sensatamente intitulado "Yes, It's A Medley!". Trata-se de uma junção das canções "Soon", "Close To The Edge", "Roundabout", "Changes" e "Give Love Each Day" onde as versões originais parecem distantes, mas de um modo positivo. São nove minutos de uma ode à uma das principais influências do conjunto, algo já claramente notado anteriormente em "Unpuzzle!".

Na sequência de canções bastante alteradas, vem a dobradinha "The Ogre Fellers Master March Part I: The Battle" e "The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen", cujas durações são mais curtas e a inspiração orbita outra grande influência sentida na musicalidade do conjunto: o Queen e as canções "The Fairy Fellers Master Stroke" e "The March of The Black Queen".

Após os grandiosos tributos e ainda antes do encerramento com Pink Floyd, posicionam-se covers de "Aqualung", do Jethro Tull, e "While My Guitar Gently Weeps", dos Beatles, que flertam mais com as versões originais e concedem um clima mais ameno ao andamento do trabalho.

Por fim, ainda vem uma passional faixa bônus. Com participação da Orquestra Belas Artes, "Rainbow Eyes", originalmente gravada pelo Rainbow, homenageia os cinco anos desde o falecimento de uma das maiores lendas do Heavy Metal mundial: o eterno Ronnie James Dio!

Apesar dos paulistas terem buscado se livrar das cruas amarras das ideias originais e enriquecer clássicos absolutos com seu próprio estilo - o que eventualmente ocorreu -, "The Trick Side of Some Songs" não comporta a mesma atmosfera intensa de "Unpuzzle!", e ouvi-lo esperando aquela mesma pegada seria um erro. As expectativas devem se posicionar no meio-termo entre o debut e as próprias bandas-referência do conjunto para que essa ótima obra não provoque qualquer tipo de quebra de expectativas. O EP pode ser baixado gratuitamente através do site oficial do Maestrick. Clique aqui.

Bom gosto e profissionalismo definem o Maestrick. Não se trata de aventureiros fazendo música apenas pelo esporte, mas verdadeiros músicos, cultos, com atitude, composição e gerência profissionais - e é muito bom ver uma banda brasileira nesse calibre e seriedade. Se você, assim como eu, levou uma eternidade para finalmente ouvir essa musicalidade genial, não perca mais tempo - adquira os trabalhos!

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 H.U.C. (EP) (2010)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela

 Unpuzzle! (2011)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela
03 - Pescador
04 - Sir Kus
05 - Puzzler
06 - Disturbia
07 - Treasures of The World
08 - Radio Active
09 - Smilesnif
10 - Yellown of The Ebrium
11 - Lake of Emotions

 The Trick Side of Some Songs (EP) (2016)

01 - Near-Brain Damage
04 - The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen
05 - Aqualung
07 - Near-Brain Damage (Reprise)
08 - Rainbow Eyes (Bonus Track)

Baixar (site oficial)

domingo, 6 de novembro de 2016

Intense Desire To Kill - Discografia Comentada

Belo Horizonte e região metropolitana têm o ótimo costume de serem grandes celeiros para o Metal brasileiro, especialmente nas vertentes mais pesadas. Essa realidade, que nunca mudou, está em constante efervescência - assim como diversas outras localidades do Brasil -, e o Intense Desire To Kill é mais uma banda a surgir em um cenário regional privilegiado.

Sendo uma das responsáveis por agitar a localidade no que diz respeito ao Metal extremo, a banda surgiu por volta do início de 2015 na cidade de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, com o ideal de executar um Death Metal assassino e sujo. Apesar das fotos até o momento apresentarem apenas três membros, trata-se, na verdade de um quarteto: André Luiz (vocal), Roger Lúcio (guitarra), Warley Alves (baixo) e Wesley Adrian (bateria), todos remanescentes da banda Mortifer Rage (exceto Roger), um dos conhecidos nomes do Brutal Death Metal local.

Com poucos meses de trabalho, a banda já tinha algumas composições prontas, faltando apenas entrar em estúdio para gravá-las. Passaram então o restante do ano de 2015 no Roffer Studio, em Belo Horizonte, registrando suas composições e sempre anunciando o status do processo em que se encontravam através da página oficial no Facebook. À altura de abril de 2016, o primeiro trabalho dos mineiros foi enfim lançado, de forma independente: o EP-demo de sete faixas "Next Victim... Just A Matter of Minutes...".

O registro compreende 22 minutos de uma musicalidade fechada e insana. A qualidade de produção é bem aceitável para o estilo, realizada de uma forma que deixa o som bastante sujo e pesado. O ITDK é considerado uma banda de Death Metal, mas a musicalidade, na prática, está alguns palmos mais abaixo, provavelmente devido ao fato de quase todos os membros serem ou terem sido integrantes do Mortifer Rage. O que se ouve é um Death Metal esmagador e obscuro, sim, mas com grande proximidade do Brutal Death Metal. Essa proximidade é melhor sentida no vocal de André Luiz, assentado em um cavernoso gutural fechado que também lança mão de outras técnicas, como o pig squeal, algo presente na faixa "Blessed Man Who Lives Without Religion", por exemplo.

Pouco tempo de duração não impede a banda de satisfazer os ouvidos e ainda ceder espaço a participações especiais; é o que acontece em "Disturbed By Fear", "Blessed Man Who Lives Without Religion" e "Macabre Murderer" - as duas primeiras contam com a participação de Djavan Fernandez (Mata Borrão) nos vocais e, a terceira, com Ricardo Vasconcelos (Coffinfeeder) na mesma função.

O instinto assassino e sangrento da musicalidade do conjunto é bem retratado na capa assinada por Marlon Darkness, que representa em tons escuros a silhueta de um assassino nas ruas indo encontrar sua próxima vítima, enquanto rostos de vítimas anteriores em desespero tomam forma na neblina.
A primeira tentativa do Intense Desire To Kill é boa. Provavelmente, algo ainda mais violento será entregue em um eventual primeiro álbum completo.

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 Next Victim... Just A Matter of Minutes (EP) (2016)

01 - Intro
02 - Next Victim... Just A Matter of Minutes...
03 - False Personality
04 - Blessed Man Who Lives Without Religion
05 - Disturbed By Fear
06 - Signs of Hatred
07 - Macabre Murderers

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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Somberland - Discografia Comentada

Tem bandas que não precisam de muito pra fazer boas músicas. No caso dos catarinenses do Somberland, três elementos humanos são suficientes para sintetizar um Black Metal excelente e destacável. Se o elevado número de bandas do estilo espalhadas pelo mundo faz do Black Metal uma vertente rígida, onde o ouvinte já sabe premeditadamente mais ou menos o que esperar, então esse trio sulista vem para tornar as coisas um pouco mais interessantes, sem desgarrar do estilo.

Composto por E. Nargaroth (vocal e baixo), Orland (guitarra) e Wag (bateria), o Somberland foi fundado em Criciúma, no estado de Santa Catarina, e está em atividade desde 2015, sendo, portanto, ainda bastante jovem. Focado desde o princípio em executar Black Metal, o conjunto já sabia o que fazer e rapidamente, no início de 2016, lançou seu primeiro registro: o EP-demo "Dark Silence of Death".

O título quer dizer "silêncio negro da morte", mas a sonoridade vai na direção inversa, evidentemente - é o esmagador e violento som negro da morte. O Black Metal executado pelos catarinenses nesse trabalho é um pouquinho mais aberto e criativo, situando-se mais próximo daquele executado pelos suecos e finlandeses, distanciando-se da famosa vertente norueguesa. Os riffs são bem desenvoltos e carregados, ganhando peso com a boa produção. A bateria é seca, estando dentro do esperado do estilo, mantendo ritmos tradicionais de acordo com a passagem, mas também variando para os indispensáveis blast beats. O vocal de E. Nargaroth é um gutural rasgado, mas não tanto quanto o das bandas norueguesas. Sua técnica, sendo um pouco mais fechada - ainda assim, rasgada - é mais um fator que aproxima o clima geral da musicalidade àquele de bandas suecas.

São apenas três faixas, mas suficientes para provocar impressão positiva. Não são homogêneas, retilíneas e porradarias invariáveis, sem fim, como muitas vezes se espera do estilo. Elas têm balanço, tem harmonia, têm preocupação em serem atrativas sem perderem agressividade. Provas disso são as inserções de passagens mais calmas, levadas à base de contrabaixo e guitarra clean, maximizando o clima sombrio que as canções têm. Além de variações rítmicas dentro das próprias músicas, elas em si se portam de maneiras distintas também: "Forever Dark Wood" e "Into The Front" são mais violentas, enquanto "Fallen Angel", embora seja a de maior duração, tem um andamento mais cadenciado e soturno.

"Dark Silence of Death" dota de incontestável qualidade. Três excelentes e convincentes faixas brasileiras de Black Metal.

Outro detalhe interessante em relação ao Somberland é a não-utilização de corpse paint pelos integrantes. Ao invés disso, o trio se banha em sangue, ganhando uma aparência mais guerreira e sanguinária.

Aparentemente, o conjunto lançará seu primeiro álbum de estúdio em breve. A foto de perfil no Facebook foi recentemente atualizada e leva a inscrição "Voluntas Hominis", possivelmente o título do futuro debut. Tendo "Dark Silence of Death" em mente e a excelência praticada nele, pode-se esperar coisas boas sobre esse primeiro trabalho.

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 Dark Silence of Death (EP) (2016)

01 - Forever Dark Wood
02 - Fallen Angel

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domingo, 30 de outubro de 2016

Deadpan - Discografia Comentada

Costumo ser facilmente atraído por tudo que, de alguma forma, tenha a ver com alienígenas. Fico sempre curioso sobre o que um filme, livro ou música tem a falar sobre eles, como eles e os humanos são representados, que tipo de problemas (ou prováveis problemas) perpassam a inspiração para que ela recorra a seres de outras galáxias... a temática sempre transmite algum tipo de reflexão e expectativas de nossa sociedade. Exatamente por isso não foi difícil o power-trio catarinense do Deadpan capturar minha atenção, fazer-me travar os olhos na arte gráfica, folhear o encarte, ouvir e ler as músicas repetidas vezes.

Oriunda de Florianópolis, capital de Santa Catarina, a banda foi fundada em 2011, mas seu início efetivo pode ser considerado como tendo ocorrido apenas em 2014, já que questões de ordem pessoal levaram o conjunto a paralisar suas atividades por três anos. Renascendo com Gustavo Novloski no vocal e guitarra, André Barreto no contrabaixo e Igor Thiesen na bateria, com inspiração, criatividade e competência técnica, o power-trio trabalhou duro em seu primeiro álbum e o lançou já em 2015, sob o título "In Aliens We Trust".

Trata-se de um trabalho de estreia com qualidade como dificilmente se vê por aí em um primeiro momento, ainda mais em se tratando de um lançamento independente: a produção de Júlio Miotto é excelente e limpa, o encarte é bonito e detalhado nas informações, as letras realmente querem transmitir algo direcionado e aproveitável - ou seja, distante de temas aleatórios - e o afinamento técnico dos músicos é chamativo em seu muito bem trabalhado Progressive Thrash Metal. Tais atributos positivos e profissionais em uma banda que até então tem pouquíssimo tempo de estrada e ainda está em seu primeiro disco delineiam mentes ambiciosas e mãos experientes e talentosas.

Sabe aquela piada que dizemos quando alguém faz algo estúpido e falamos "é por isso que os aliens não visitam a gente"? É em torno dessa ideia de falha humana que a temática do disco está assentada. Ele conta a primeira parte da história de uma entidade alienígena chamada EoN, representante de uma raça de grande poder e sabedoria responsável pela manutenção do equilíbrio - aparentemente moral; o encarte não especifica - do universo. Uma vez que a humanidade, com sua ganância e a crescente impessoalidade, dirige-se gradativamente para o caminho do desespero e sua própria destruição, EoN viaja à Terra para estudar os costumes e ideias da raça humana e, com esse conhecimento, restaurar o equilíbrio com intervenções indiretas, tal como já havia feito em outros planetas. Para concretizar o objetivo, escolhe o menino Adam como experimento de contato indireto, e assim inicia seus estudos e planeja estratégias. A história, portanto, acompanha EoN e Adam.

Apesar do envolvimento alienígena na história trazer pré-concebidamente a ideia de que as letras serão futuristas e bastante alienígenas (meio que "distantes da realidade", digamos assim), as seis faixas do trabalho provam o contrário. O ano é 2015 e, na realidade, uma vez que se tratam de análises de EoN em sua tentativa de nos compreender, as músicas acabam por ser, na verdade, reflexões críticas de nossa própria sociedade atual, analisando a maneira como agimos em diferentes contextos sociais, o que pensamos, o que consideramos uma vida bem-sucedida (dinheiro realmente é tudo?), as doutrinações, entre outras coisas, sempre evidenciando as contradições e desumanizações emanadas de determinados pensamentos e atos modernos. Claramente, em apenas 24 minutos, temos uma enxurrada de críticas ao sistema capitalista, ao sistema educacional, às religiões, ao suposto esvaziamento da moralidade, à "mecanização" do pensamento - ou seja, ausência de filtro crítico ou a falta de preocupação em desenvolvê-lo -, aos vários padrões contextuais da cultura ocidental, etc.. Tal proposta define uma banda que inteligentemente cruza temática ficcional com críticas de embasamento empírico, tornando tudo bastante interessante. Os rapazes realmente querem passar algo com as letras e a inspiração, a vontade de se expressar, pode ser sentida em seus conteúdos. Okay - a composição e a inspiração lírica não são (ainda) apresentadas de forma a serem definidas como a oitava maravilha do mundo; há injustas generalizações, informações faltando que deixam o contexto aberto e demonstram maturidade ainda incompleta na elaboração de uma trama (é meio clichê, até), determinadas críticas, como a sobre a competitividade, não chegam a superar o senso comum e a própria crítica acaba até por desumanizar aquilo que eles criticam por estar se desumanizando... Enfim, algumas reflexões podem ser melhor refinadas e ampliadas. Mesmo assim, dificilmente uma banda se dispõe a colocar esses debates na mesa de forma tão atraente e eficaz. Não é à toa que a parte lírica por si só está recebendo grande e positiva atenção nesse texto.

Musicalmente, o Deadpan se diz influenciado pelo Death Metal e é divulgado como Progressive Death Metal. Porém, honestamente, dou-me a liberdade de discordar e defini-los como Progressive Thrash Metal. Aos meus ouvidos, se a complexidade da estrutura composicional e a rapidez diferentes notas fossem retirados, mantendo certa retilinearidade, velocidade de batida e a timbragem dos instrumentos, teríamos um exímio Thrash Metal puro e tradicional, de muita qualidade. A afinação não é tão grave, a produção não é tão densa, muito embora os vocais de Gustavo de fato estejam centrados nos guturais típicos do Death Metal. Acima dessa base, o Progressive Metal vem para complexificar, somar e dar ainda mais lucidez e personalidade para essa brilhante sonoridade.

Aquelas notas apelativas e velozes que são esperadas de uma banda de Prog Metal são encontrados no Deadpan, e o peso, rapidez e violência das músicas transformam o disco numa experiência bastante convincente e sugadora. A bateria de Igor, em ótima performance e timbragem, só vem a ditar com muito calor o ritmo das canções, levando à bateção de cabeça. Infelizmente, não há solos de guitarra e, apesar do Progressive Metal acoplado na arquitetura dos riffs, tal influência não se estende à duração das faixas, que têm, em média, 4 minutos de duração.

Em vista da quantidade de faixas (apenas 6) e da duração total delas (24 minutos), considero "In Aliens We Trust" um EP, muito embora seja divulgado como um full-length. Entretanto, rótulos são rótulos, e no caso do Deadpan, isso não importa. Uma grande banda sulista está em atividade no cenário nacional e ela deve ser ouvida. Não haverá arrependimentos, com certeza. Olho nesses caras, que ainda trarão mais lançamentos interessantes e ainda mais maduros no futuro!

A arte gráfica do registro tem o próprio vocalista/guitarrista Gustavo Novloski como responsável. Todas as letras foram compostas pela banda. O encarte traz breves notas antes de cada música, sempre escritas em português mesmo, de forma a situar o leitor/ouvinte sobre as inspirações e que o que está acontecendo naquele momento da história. As linhas de bateria foram gravadas no The Magic Place Studio e os demais instrumentos e vozes, no Calamar Studio, ambos em Florianópolis mesmo. A distribuição de "In Aliens We Trust" (título que brinca com o 'slogan' "in God we trust", presente nas cédulas estadunidenses) é reforçada pela assessoria de imprensa Sangue Frio Produções.

Após o lançamento, André Barreto deixa a banda e sua vaga no contrabaixo é ocupada por Anderson Biko.

Se você costuma ser desacreditado quanto à cena nacional e subestima o potencial das bandas de nosso país, o Deadpan pode lhe render uma experiência de amargura pela expectativa contrariada e de doçura pela qualidade desse power-trio catarinense.

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 In Aliens We Trust (2015)

02 - Unmasked Living
05 - Standard
06 - Two Faces

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sábado, 29 de outubro de 2016

Burnkill - Discografia Comentada

Quem anda antenado no que a cena brasileira tem oferecido nos últimos anos, certamente percebeu que, além do aumento do número de bandas se lançando no mercado, também cresceu a quantidade daquelas que se propõem a cantar no idioma materno. Cada vez mais vem caindo por terra o argumento de que português não combina com o peso do Metal, já que é tudo uma questão de estética composicional. Não existe uma regra sobre como compôr. Cada compositor faz à sua maneira, variando entre primeiro letra e depois instrumental, ou o inverso, ou ambos ao mesmo tempo. No entanto, de fato, a arquitetura musical não deve levar em conta apenas a estética instrumental, mas também a linguística - daí o cuidado que se deve ter com os idiomas.

Nascida em Pouso Alegre, no interior de Minas Gerais, a banda Burnkill é mais uma do rol das que escrever músicas em português. Em atividade desde meados de 2014, o conjunto tem a ambição não apenas de ser mais um no cenário, mas de realmente ter algo a transmitir com suas mensagens musicais. Por isso, garante, através das letras em português, que o público "local" imediato - refiro-me a nível nacional, claro -, entenda suas letras, que versam criticamente sobre problemas sociais, atitudes humanas, incoerências, hipocrisias, e a fatalidade de determinadas escolhas - tudo ao mesmo tempo em que busca fazer um Thrash Metal enraizado, sem, apesar disso, soar genérico. Seu nome provém da inspiração na mistura entre o trecho "first you got to burn, burn, burn in fire" da faixa "Heaven and Hell", do Black Sabbath, e o nome da canção "Overkill", do agora extinto Motörhead.
Assaborando sua musicalidade, que ainda está nos primeiros anos de estrada, as influências de bandas como Claustrofobia, Sepultura, Dorsal Atlântica, Sarcófago, Sodom, entre outras podem ser de alguma forma sentidas. São referências pontuais dos mineiros, que procuram executar uma sonoridade que estabeleça maior coerência com sua própria personalidade.

Atualmente configurado como um quinteto composto por Antony Damien no vocal, Lucas Maia e Pablo Henrique nas guitarras, Jorge Luiz no baixo e Anderson de Lima nas baquetas, o Burnkill lançou em 2016 seu primeiro trabalho: o álbum "Guerra e Destruição". O trabalho foi produzido no Rota 976 Studio e vem sendo distribuído pela assessoria de imprensa Roadie Metal.

Desde o primeiro momento, o que já imediatamente chama a atenção na obra é a questão da produção, que esbarra em claras limitações técnicas. Ela é suja e fraca, provocando aquela sensação incômoda de abafamento e embaralhamento das linhas instrumentais. É evidente que uma produção de ponta tem altos custos, o que acaba não se tornando alcançável para toda e qualquer banda. Ainda assim, uma de qualidade mais fraca não deixa de ser um ponto negativo, pois atrapalha a degustação. No entanto - como já deve ter acontecido com muitos -, no decorrer do trabalho, é possível se acostumar com o que a banda tema a oferecer nesses quesitos técnicos, e a atenção se finca melhor no que está sendo feito.

Apesar do criticável cartão de visitas da produção, o que os mineiros fazem ao longo de meia-hora de música é interessante e até promissor. Eles apresentam uma sonoridade calcada no Thrash Metal ao estilo Sepultura e Claustrofobia - coerente com suas influências -, com riffs muito bem arquitetados desde os efeitos sentimentais que as notas provocam até o ritmo em que são tocados. Uma das mais notáveis é a própria faixa-título, que tem alavancadas na base que aludem ao apocalipse que é a guerra e a destruição, como sugere o nome.

Embora apresente predominância do bem tocado Thrash Metal, a banda também não deixa de demonstrar, com bastante naturalidade, enviesamentos para outros estilos compatíveis, como o Heavy Metal tradicional e o Death Metal. Esse último pode ser melhor percebido já na primeira faixa, "Corredor da Morte", que é mais pesada e o vocal de Antony Damien é mais puxado para o gutural fechado do que para o vocal raivoso e driveado, a caráter de Max Cavalera. Quanto ao Heavy Metal, ele não aparece como predominante, mas como anexo, deixando que suas nuances sejam percebidas ali e acolá ao longo do disco.

Se letras em português geralmente são um problema para alguns ouvintes, no caso do Burnkill, não há por que pegar no pé em relação a isso. Tal fato se deve por questões que se misturam entre o positivo e o negativo: no positivo, porque a maioria das músicas parecem ter sido compostas em torno da fonética do português, auxiliando na naturalidade delas; no negativo, porque, em outras, a produção e a própria pronúncia, combinados, não são tão compreensíveis, afastando o ouvinte, quando distraído, da percepção de que são de fato letras em português.

"Guerra e Destruição" é composto por oito faixas, mas a última, "Sinfonia da Guerra", foi gravada ao vivo e incluída mesmo assim.

Ainda assim, em um olhar geral, "Guerra e Destruição" é um ótimo pontapé inicial para a banda, que provavelmente trará algo ainda mais maduro e desenvolvido no próximo trabalho. Enquanto esse debut não receber uma remasterização (se receber um dia), seu potencial continuará eclipsado para o público mais exigente com esse tipo de coisa.

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 Guerra e Destruição (2016)

01 - Corredor da Morte
02 - Vivendo Uma Ilusão
04 - Repressão
05 - Cadáver do Brasil
06 - Tempestade de Horror
07 - Chega de Mentiras
08 - Sinfonia da Guerra (Ao Vivo)

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dying Suffocation - Discografia Comentada

A cidade é Pato Branco, no interior do Paraná, mas lá existe uma banda que pinta o nome do município em cores mais sombrias, contrariando a ideia radiante de paz e tranquilidade que o nome transmite. Essa banda é o Dying Suffocation, cuja sonoridade tem como proposta exatamente a asfixia da luz para dentro da escuridão, levando-a para uma dimensão densa, ofegante e obscura.

Fundada em novembro de 2014, a banda procura concretizar a negra proposta através da execução de um pesado e cadenciado Doom/Death Metal, como pouco se vê em solo brasileiro. O trio fundador era composto por Alex Habigzang na guitarra, André Kichel no baixo e Jorge Kichel na bateria. Em pouco tempo, a formação engordou com as chegadas do vocalista Cláudio Daniel e do guitarrista Fábio Conterno já no início de 2015, fechando a formação que lançaria, já em agosto daquele mesmo ano, o primeiro trabalho do conjunto: a demo "Dying Suffocation", de duas músicas.
Um dos frutos dessa demo foi o lançamento do videoclipe 'homemade' da faixa "The Angels", que obteve boa repercussão no exterior e culminou em sua inclusão na coletânea "Son of Carnival of Carnage", lançada pela Terrorizer, revista britânica de Rock/Metal.

Alguns meses mais tarde, em dezembro de 2015, mais um pequeno disco independente é lançado pelos brasileiros: agora é a vez de "When I Die", o primeiro EP da discografia. Gravado no Studio Musical Box, localizado em Pato Branco mesmo, e produzido pela própria banda em parceria com Júlio César, "When I Die" é uma obra de quatro faixas que totalizam 32 minutos de duração. Entre as faixas presentes, duas já faziam parte da demo anterior ("The Angels" e a faixa-título), mas foram regravadas, e outras duas ("In Search of Salvation" e "Rivers of Blood") são totalmente inéditas.

Instrumentalmente, os paranaenses fazem aquilo que o Doom Metal se propõe a fazer: entregar riffs bem distorcidos, cadenciados e sujos, remetendo claramente à forte influência tradicional que o Black Sabbath de seus primeiros tempos exerce sobre eles. Embora apresente também "Death" no rótulo, este não aparece com grande ênfase na sonoridade, tornando-a mais Doom mesmo. A pegada obscura e bastante cadenciada torna as músicas algo para se ouvir como plano de fundo, já que facilmente envolve o ouvinte em uma aura turva e cavernosa. Por vezes, a a musicalidade lembra a bandas de Funeral Doom Metal, como o Ahab. Um metrônomo um pouco mais lento tornaria possível alterar o rótulo.

Se a imersão provocada é um ponto positivo, outro nem tanto é a duração das faixas, que geralmente chegam a quase 10 minutos de duração. Quer dizer, não haveria problema algum na duração delas se os riffs variassem de andamento e composição no decorrer desse tempo. Certamente, eles são marcantes, memorizáveis - o que auxilia a gostar da banda -, mas o prolongamento da postura torna a experiência um tanto cansativa, por vezes monótona - ao menos pra mim, que tenho preferência por algo mais pegado, sem que isso signifique não gostar de cadência de vez em quando. Um pouco mais de inserção de Death Metal e a sonoridade ganharia mais vigor, e as passagens variariam, de maneira mais ou menos similar ao que faz o Swallow The Sun (apesar do lado Death dos finlandeses ser mais puxado pro melódico).

Sobrepondo a postura "sabática" do instrumental, vem o excelente e cavernoso gutural de Cláudio Daniel, que sutilmente varia entre imprimir guturais fechados e guturais rasgados e abertos. É nas vozes que a veia Death Metal definitivamente se manifesta, porém, em coerência com a proposta, também de maneira cadenciada. Sua técnica a grande responsável por coroar e mortificar a densidade instrumental, conferindo a ela uma aura demoníaca. Em perfeita sincronia com o instrumental, suas linhas também não variam muito o andamento - afinal, trata-se de um imersivo Doom Metal.

O trabalho foi bem aclamado pela crítica brasileira e internacional, rendendo inclusive a participação em mais coletâneas, como a Extreme Hell Vol. 2 e a Roadie Metal Vol. 8.

Dentro do que o Dying Suffocation se propõe a fazer, é certo que o faz bem, e o público-alvo há de concordar sem receios. Está no caminho certo, e se a banda seguir ativa, boas obras de Doom Metal eventualmente serão lançadas, tendo como aliada a natural maturidade que os anos de união e refinamento do projeto concedem. No entanto, ainda está relativamente crua - mesmo dentro da crueza óbvia do esquema - e música longa com quase o mesmo andamento o tempo todo não é característica que me prenda, mas por uma questão pessoal. Os adeptos do estilo discordarão prontamente.

Atualmente, a banda vem reestruturando seu line-up, que sofreu baixas em 2016 com as saídas do vocalista Cláudio Daniel e do guitarrista Fábio Conterno. Para as seis cordas, Dianriel Duarte foi recrutado, mas o posto de vocalista segue, por enquanto, vago. O Dying Suffocation promete novidades em breve. Uma delas provavelmente diz respeito ao novo vocalista, e outras serão referentes ao álbum de estreia, que já está tomando forma. Ele se chamará "In The Darkness of Lost Forest" e talvez saia ainda em 2016.

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 Dying Suffocation (Demo) (2015)

01 - The Angels
02 - When I Die

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 When I Die (EP) (2015)


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domingo, 23 de outubro de 2016

Vulcano - Wholly Wicked (2014)

Banda: Vulcano
Álbum: Wholly Wicked
Ano: 2014
Gênero: Death/Thrash Metal
Origem: Santos, São Paulo - Brasil
Membros na gravação: Luiz Carlos Louzada (vocal), Zhema Rodero (guitarra), Ivan Pellicciotti (baixo) e Arthur Von Barbarian (bateria).

Bandas, independente de quais sejam, geram expectativas - algumas boas, outras ruins. Porém, determinadas bandas vão além dessa natural e previsível dicotomia, fazendo com que esperemos algo a mais, especialmente se essa expectativa for positiva. O quanto se espera de um conjunto conhecido como um dos pioneiros do Metal extremo no país? Qual a responsabilidade de um grupo que, desde o início dos anos 80, mesmo com as limitações e dificuldades impostas tanto pela situação tecnológica quanto por um governo ditador, segue acreditando em sua música, realizando shows e lançando discos? Certamente, enorme.

Veteranos como os santistas do Vulcano são, espera-se lucidez à altura dos mais de 30 anos de estrada. Logo, cada novo álbum traz a expectativa de um trabalho bem feito em seus mínimos detalhes. Felizmente, é isso que o quarteto entrega em "Wholly Wicked", o nono e mais recente álbum da discografia, lançado em 2014 pela Renegados Records, distribuído pela Mutilation Productions e com divulgação reforçada pela assessoria Sangue Frio Produções.

Gravado e produzido no Beco Studio, em Santos (SP), "Wholly Wicked" traz toda a violência de uma fusão sucinta entre Death e Thrash Metal, concebida por mãos e mentes experientes. São apenas 10 faixas de curta duração (totalizando somente 32 minutos), mas cuja sonoridade é tão rápida quanto. Não se trata de uma Death/Thrash Metal cadenciado, preocupado com a desenvoltura e complexidade composicionais, mas sim de uma musicalidade objetiva, onde o foco é fazê-lo se sentir contagiado pela fúria e velocidade, levando-o a bater cabeça - mas, claro, tudo feito com extrema competência, longe de qualquer molecagem.

A produção claríssima só faz acrescentar ao produto final, conferindo um ar moderno aos pesados e energéticos riffs, ao mesmo tempo em que não se deixa esvair a clara influência que os gigantes do Slayer exercem sobre os brasileiros. Palhetadas empolgadas na guitarra, dedos apressados no pulsante contrabaixo e um excelente e caótico trabalho com as baquetas, aplicando bastante blast beats, configuram a personalidade do marcante instrumental desenvolvido pela banda. Esse instrumental, embora deixe clara a sensível fusão entre Death e Thrash, pende com bem mais força para o Thrash Metal, envolto ainda numa natural pendência à característica da vertente Speed do estilo. O resultado é fantástico e cheio de adrenalina.

A contribuição do Death Metal fica mais evidente mesmo no vocal de Luiz Carlos Louzada, que é assentado no gutural rasgado clássico do estilo. No entanto, a performance recebe doses do lado thrasher da proposta, podendo ser notadas principalmente na maneira como as linhas vocais são compostas: uma perfeita mistura entre a técnica do Death e a atitude Thrash.

Como resultado, temos um álbum prazeroso e bem feito pra caralho, à altura de uma banda madura e reconhecida pelo seu tempo de estrada. Pra quê complexidade quando a objetividade e homogeneidade impressionam e satisfazem por si só?

Quem até hoje ainda não deu uma chance a esses dinossauros, poderia mudar de ideia o quanto antes.

01 - The Tenth Writing
02 - Pentagram
03 - Daughters of Pagan Rituals
04 - Infusion of Hatred
05 - The Return of A Long Night
06 - Thirst For Vengeance
07 - Wholly Wicked
08 - Tormented
09 - Malevolent Mind
10 - Blowing Death

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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Konad - Discografia Comentada

Creio estarmos acostumados a uma realidade onde muito se precisa batalhar para ter seu trabalho reconhecido, e recorrer à parcerias com sites e blogs tem se mostrado uma ferramenta comumente utilizada e também efetiva. Em um mundo com maior circulação de informações graças ao advento da internet, cresce também o número de bandas querendo provar seu melhor e, consequentemente, a concorrência. Sabemos: aqui no Brasil, além de muita concorrência, há também dificuldade de apoio, e as bandas se lançam em batalhas diárias para se reafirmar. Algo similar acontece em Portugal, onde boas bandas têm dificuldade de chegar ao conhecimento de mais pessoas, mas procuram, dia após dia, firmar-se no circuito local, para então conseguir brecha no âmbito nacional e, por que não?, no mundial.

Uma dessas boas bandas lusitanas que provam ter valor mas infelizmente não chegam a nós é o Konad. Formado em Vila Franca de Xira, em Lisboa, no ano de 1996, inicialmente sob o título Konad Moska, o conjunto aposta, ao longo de sua discografia, em diferentes maneiras de manifestar o Punk Rock, sempre com algo a mais para acoplar positivamente à musicalidade, até que, certamente, chega à sua melhor fase até o momento com o álbum "Irae Dei", de 2015.

O início o grupo não foi dos mais agitados. Apesar de ter começado tudo em 1996, somente em 1997 aconteceu a primeira apresentação ao vivo, realizada no Lusideia Bar, em Samora Correia, mas pouco depois as atividades cessaram definitivamente e a banda se extinguiu.

Três anos mais tarde, em 2000, após trocar alguns parafusos na formação, seus amplificadores voltaram a funcionar em consonância, devido à reativação dos trabalhos. A formação esteve fixa ainda até 2006, embora as atividades musicais oscilassem por motivos diversos. De qualquer forma, essa fase marcou o início das composições dos dois primeiros trabalhos dos portugueses: as demos "Mundo de Merda", lançada em setembro de 2007, e "Demo 2007", lançada no mês seguinte, já com a banda nomeada simplesmente como Konad.

Ambas as demos têm como similaridade a execução da forma tradicional e pegada do Punk Rock, aliada a letras que em parte são críticas sociais e econômicas, e em parte têm cunho humorístico, seja em revolta focalizada em algum assunto pertinente, ou mesmo a cólera pela graça de arrancar risadas. Vide a canção "O Kão do Anão", penúltima da segunda demo; muito bem humorada, faz uso até de efeitos de acordeão para dar ainda mais o ar da graça! Apesar de alguns detalhes interessantes de solos, ou da escolha excêntrica de recursos externos pro estilo (como na cômica faixa já citada), as construções composicionais são como se espera do estilo: simples e rápidas. A abordagem vocal é majoritariamente 'driveada', mas vozes limpas também são utilizadas em algumas faixas.

O fato de se tratarem de demos de quase 10 anos atrás acaba demonstrando também as limitações de equipamento, por isso a sonoridade é um tanto abafada, de gravação amadora. No entanto, rústico como o Punk tradicional se propõe a ser, isso acaba por não ser exatamente um problema, muito embora, se a gravação fosse limpa, a coisa seria boa também. A primeira demo traz em torno de 16 minutos de música, enquanto a segunda, um pouco menos: 13 minutos totais.

Mais um longo tempo de quatro anos se estendeu até que o próximo lançamento tomasse forma - o EP "Terror TV" só foi concebido em 2011. O tempo fez bem à banda. Com cinco faixas e 15 minutos de duração, este EP se mostra mais bruto. De produção um pouco melhorada, é aqui que os portugueses começam a inserir elementos de Thrash Metal na sonoridade, o que agregou peso à proposta. A postura está mais séria e a sonoridade está mais pesada. O Punk continua sendo o elemento central, mas o Thrash Metal presente em especial nas três primeiras faixas torna as composições mais firmes e dinâmicas. A postura vocal está ainda mais agressiva, mas mantém as características de ritmo e pronúncia do Punk. Um detalhe que retrocedeu concerne à ausência de solos, que são algo que sempre sinto falta, pois os encaro como clímax das músicas. Eles estão presentes apenas em "Ké Keu Faço", e a postura é excelente, remetendo ao Thrash.

"Terror TV" foi um aquecimento para o tardio lançamento do primeiro álbum de estúdio completo da banda, intitulado "Café Beirute" e lançado em 2012. Esse registro de estreia consolida a musicalidade da banda como uma coerente fusão entre Punk Rock, Hardcore, Thrash Metal e Crust. Os estilos se encontram em invejável harmonia, gerando canções que, embora rápidas, são um verdadeiro ataque de peso e velocidade aos ouvidos. A postura é realmente frenética, levada à base de riffs pesados, pegados e caóticos, bateria insana, baixo pulsante e uma abordagem vocal mais rasgada, aproximando-se daquela executada no Black Metal. Talvez uma das bandas que mais se assemelhem ao que é feito aqui pelos portugueses seja o Toxic Holocaust.

Certamente a fusão é inteligente e madura no álbum, mas a heterogeneidade foi meio que posta de lado. As 16 faixas que compreendem os 34 minutos totais do trabalho são demasiadamente similares entre si, tornando o trabalho denso, embora bom e de produção excelente. Não há muita variação na base rítmica, as bases são frequentemente similares e os solos de guitarra foram praticamente extintos, bem como aquela antiga faceta humorística. Solos de guitarra só podem ser ouvidos em "Não Submisso" e "Burako Negro", enquanto o humor só está presente, com toda sua irreverência lusitana, na última faixa, "Vaka Cinzenta" - o próprio nome já alude a isso.

Trata-se de um ótimo álbum, mas retilíneo demais, com homogeneidade em excesso. A única exceção é a própria faixa-título, que é muito bem trabalhada, com uma introdução limpa e misteriosa e andamento cadenciado quando o peso das distorções enfim entra. Seu clima misterioso e obscuro é fantástico, como se algo de ruim estivesse prestes a acontecer!

A avaliação geral é positiva, sem dúvidas, apesar de alguns detalhes. "Café Beirute" é um ponto de paradigma, já que lança as bases definitivas da musicalidade do Konad, que está mais à vontade, tendo encontrado seu perfil. O desenvolvimento da proposta veio em 2015, com o lançamento do excelente "Irae Dei" e a consolidação da formação atual, contando com Kampino no vocal, Frazão na guitarra, Márcio no baixo e André na bateria.

Gravado no Rec In Red Studios, em Vila Franca de Xira, e masterizado na Suécia por Magnus Andersson em seu Endarker Studio, "Irae Dei" é um pouco mais enxuto (28 minutos de duração), ainda mais homogêneo, e especialmente mais agressivo e próximo do Toxic Holocaust. O vocal de Kampino se apresenta em guturais rasgados plenos, cantados com feracidade de modo que as palavras se tornam difíceis de compreender. O Crust atrelado ao Punk/Hardcore/Thrash Metal está mais evidente, tornando essa avassaladora sonoridade mais crespa e crua. Com distorções menos claras, o álbum perdeu peso em relação a "Café Beirute", mas ganhou velocidade e uma sonoridade apocalíptica, que entrega ainda mais ira ao ouvinte - algo sugerido pelo próprio título, latim para "Ira de Deus"; logo, uma sonoridade apocalíptica, repleta de ferocidade, como uma ira divina.

Foram pelo menos 16 anos até que finalmente os portugueses lançassem o primeiro álbum de estúdio. Apesar da demora, ocasionada por inúmeros imprevistos, a banda acumulou experiência e esse tempo de estrada e a determinação em não desistir de fazer música são fatores que contam a favor dos caras. A sonoridade se consolidou, uma personalidade foi alcançada - e continuará sendo refinada - e os discos começaram a fluir em seus lançamentos. A linearidade composicional é marca de parte dos estilos executados por eles e, apesar de, para ouvintes mais adeptos de outros estilos (como eu) isso ser um ponto contra, a sonoridade é muito boa e a agressividade é matadora. Se procura bandas na linha do Hardcore/Punk/Thrash, é certo que o Konad satisfará suas necessidades.

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 Mundo de Merda (Demo) (2007)

01 - Eu Sou Vesgo!
02 - Mundo de Merda
03 - Kem Paga A Cirrose?
04 - O Kão do Anão
05 - Filho da Puta
06 - Vaka Louka
07 - Konad Moska Kom Kapa (Demo)
08 - Kasal Ventoso

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 Demo 2007 (Demo) (2007)

01 - Vendedor de Almas
02 - KGB
03 - Putiklube
04 - O Kão do Anão
05 - Filho da Puta

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 Terror TV (EP) (2011)

01 - Mundo Incerto
02 - Ser Livre
03 - Ké Keu Faço
04 - Detalhes
05 - Kaos Total (Versão Kaos09)

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 Café Beirute (2012)

02 - Komboio Fantasma
03 - Porcos Malabaristas
04 - Luta ou Morre
05 - Devotos
06 - Filhos do Ódio
07 - Mentekabra
08 - Soldado do Inferno
09 - Café Beirute
10 - Alienação
11 - Choque Global
12 - Não Submisso
13 - Assim É Ke Estou Bem
14 - Burako Negro
15 - Manifesto
16 - Vaka Cinzenta

Ouvir (Bandcamp)

 Irae Dei (2015)

01 - Revelação
02 - Predestinação
03 - Irae Dei
04 - Enclaustro Mental
05 - Necroritual
06 - Um Veneno
07 - Retratos de Uma Vida Banal
08 - Crimes de Guerra
09 - Irmãos de Sangue
10 - Apocalipse
11 - Direito À Raiva
12 - Arde No Inferno
13 - Vlad
14 - Inverno Nuclear

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domingo, 7 de agosto de 2016

Manu “Joker” Henriques (Uganga) - Entrevista

Um fã de cabeça aberta é sempre uma coisa benéfica e interessante, já que o livra das amarras de dogmas "tribais", enriquece o gosto musical, faz compreender a pluralidade desse universo sonoro e leva ao respeito aos diferentes estilos. Mas melhor ainda é quando os músicos são mente aberta e se mostram aptos a experimentar, a buscar algo externo ao estilo central executado, a usufruir de tudo o que for interessante na música, pois ela está aí livre para todos. Isso os mineiros do Uganga fazem sem medo, resultando em inegável personalidade.
Recentemente tive a oportunidade de entrevistar o vocalista Manu "Joker" Henriques, fundador e líder da banda, na labuta há mais de 20 anos com muita paixão, dedicação e confiança. O bate-papo transcorreu a história do Uganga, desde seu início, passando por suas influências, conceitos, turnês europeias, até o álbum mais recente e também o futuro.
Manu falou tudo em detalhes e com muito carisma! Confira abaixo na íntegra:

WOTM: Manu, antes de mais nada, obrigado pelo seu tempo!
É notável a metamorfose musical que a banda apresenta ao longo da discografia, muito embora aquele clima suburbano sempre tenha sido uma constante. No início de tudo, quando a banda foi fundada em 1993, quais eram os planos e influências?
MANU "JOKER" HENRIQUES: Cara, quando começamos o lance era mais diversão do que qualquer outra coisa. Todos integrantes tinham outras bandas, no meu caso tocava bateria no Nuts, e montamos o então denominado Ganga Zumba para tocar alguns covers que curtíamos. Grupos como Rollins Band, Butthole Surfers, Fugazi, Rage Against The Machine entre outros estavam em nosso repertório e acabaram nos influenciando, uns mais que outros. Com o tempo começamos a compor alguns sons em português e por volta de 96 a coisa ficou mais séria. Lançamos duas demos e em 2002 saiu o primeiro full, “Atitude Lótus” (independente), já com o nome Uganga. Realmente é um trabalho muito diferente musicalmente do que fazemos hoje apesar de, por outro lado, também ter muitas coisas em comum com o Uganga atual. É um álbum muito experimental de uma banda que ainda buscava sua identidade e tinha um processo de composição meio caótico (risos). Pra você ter uma ideia eu entrei no estúdio sendo baterista e saí vocalista (mais risos)! Enfim, mesmo sendo um trabalho um pouco confuso eu ainda o acho um bom álbum e ele precisava sair pra banda não acabar. Antes mesmo de colocarmos o CD na praça o Uganga passou por uma reestruturação total, tanto de integrantes como musical, e de maneira natural fomos pesando nossa música, tocando, ensaiando, compondo e deixando rolar... Quatro anos depois, com nosso segundo álbum, “Na Trilha do Homem De Bem” (Incêndio Discos/2006), traçamos esse rumo que foi ratificado no terceiro trabalho, “Vol. 03: Caos Carma Conceito” (Incêndio Discos/Freemind/2010). Desde então o Uganga vem aprimorando essa fórmula, porém nunca deixando de olhar pra frente e sempre fazendo música livre de amarras. Particularmente foi algo como voltar as minhas raízes de Metal e Hardcore/Punk, mas acrescentando o background adquirido nos primeiros anos da banda. Precisei passar por essa fase, da qual me orgulho muito, pra renovar minhas energias e voltar a fazer o que realmente está no meu sangue.

WOTM: O primeiro nome do Uganga foi Ganga Zumba, certo? Por que essa escolha atípica, e o que levou à mudança de nome?
MANU: O nome Ganga Zumba foi sugerido pelo Leospa, nosso primeiro vocalista. Eu e ele praticávamos capoeira e nas rodas tinha uma ladainha bem legal que falava de Ganga Zumba, líder do Quilombo dos Palmares e tio de Zumbi. Pesquisamos um pouco sobre sua história, achamos interessante e aceitamos batizar a banda assim. Ficamos com esse nome até 99, quando, em meio a várias tretas internas, descobrimos que havia outro grupo detentor desse registro. Se não me engano era uma banda de Reggae da Bahia. Pra não perder a conexão com o primeiro nome eu dei a ideia de mudarmos para U-ganga, inicialmente grafado com hífen. Era uma variação de como as pessoas mais próximas se referiam ao Ganga Zumba, “O Ganga”, porém mudando a letra “o” por “u” de união. Sem união uma banda não se mantém. Uganga não significa nada, mas anos depois descobrimos que a deusa hindu do rio Ganges (Índia) se chama Ganga. Achamos isso bem legal (risos).

WOTM: Geralmente as bandas de Metal, seja lá de qual país sejam oriundas, optam por compor letras em inglês, tanto pela estética da língua se aplicar ao estilo quanto pela presença global da língua, sobretudo no mercado fonográfico. Por que o Uganga optou por compor em português?
MANU: Antes de tudo, não nos vejo como uma banda puramente Metal. Com certeza o estilo é parte da nossa base, das nossas raízes mais profundas, mas o Punk e o Hardcore são igualmente importantes pro som do Uganga. Sobre cantar em português, essa sempre foi nossa opção desde o início. Eu escrevo a maioria das letras e me expresso melhor na nossa língua, apesar de já ter composto e tocado em bandas que optam pelo inglês. No caso do Uganga, é parte da nossa identidade e seguiremos assim independente de onde estiver indo a maioria. Concordo que o inglês é a língua predominante no estilo, mas hoje em dia é comum você ver bandas cantando em finlandês, sueco, espanhol, norueguês, entre vários outros idiomas, e sendo muito bem recebidas em todo o mundo.


WOTM: Que tipo de obstáculos já sentiram, mesmo que de forma implícita, por cantarem em português? Vocês sentem alguma resistência por parte de público ou mesmo mídia?
MANU: Cara, obstáculos para bandas underground são vários, mas em relação especificamente a cantar em português, não me lembro de enfrentarmos resistência. Claro que tem uma parcela do público de música pesada que não aceita nada fora dos clichês, fora do óbvio, e criticam tudo o que não entendem. Porém pessoas assim não nos interessam. Fazemos música para nós seis, antes de tudo. Fora disso gosta quem quiser.

WOTM: A formação do grupo permanece intacta há mais de dez anos, sendo que as alterações não modificaram um por outro, e sim somaram. O que era um quarteto à época do primeiro álbum (“Atitude Lótus”, 2003) é hoje um sexteto. Qual o segredo?
MANU: Sinceramente, não sei (risos). Fazer música, ainda mais música pesada no Brasil, não é algo fácil de explicar. Se for pensar em uma palavra pra definir esse segredo, eu diria que é amor. Se o seu coração não está naquilo, não adianta buscar a fórmula perfeita. O Rock 'n' Roll não é uma ciência exata. Temos uma unidade muito forte e, enquanto for assim, a banda seguirá firme.

WOTM: Em “Atitude Lótus” (2003), a banda tem uma orientação mais leve, posicionada em estilos como Ska e Skate Rock, ainda com íntimos flertes com o Rap. A partir de “Na Trilha do Homem de Bem”, a sonoridade muda quase completamente, situando-se mais no Hardcore, Punk, e isso se desenvolveria até o Thrashcore e Groove Metal atuais. Mudanças naturalmente levam à indagação: por quê? Quais foram os incentivos para uma mudança que altera não apenas a musicalidade em si, mas também o público-alvo?
MANU: Nunca buscamos um público-alvo - isso é fato. Já dividimos palco com Racionais MC’s, bandas de Black Metal ou grupos de Indie Rock (risos). Na real, isso rola até hoje! É claro que se você curte Rock pesado, é mais fácil gostar do Uganga, mas fazemos música para nós mesmos e para quem quiser curtir, independente de tribo, seita ou clã (risos). Nesses mais de 20 anos, nós deixamos a nossa vontade nos guiar e nada mais além disso. Concordo com sua análise sobre o primeiro álbum, ele realmente é bem mais leve que os outros trabalhos e, como disse, é fruto de outra formação e de uma banda que ainda buscava se encontrar. Já no segundo CD, realmente a veia Hardcore/Punk é bem latente, mas nele tem uma faixa como “Procurando O Mar”, que é puramente Thrash Metal. Assim como em “Opressor”, o Hardcore se apresenta forte numa música como “Guerra”. Evolução técnica também é algo que fez nossa música ficar mais trabalhada, talvez mais Metal.  Acho que hoje sabemos condensar melhor nossas diversas influências no som do Uganga e soar de maneira mais uniforme e pessoal. Criar uma assinatura leva tempo.

WOTM: Em “Opressor” (Sapólio Rádio/2014), o Uganga claramente amadureceu bastante; o som ganhou consistência e coerência que se destacam em meio aos discos anteriores, que são excelentes. Por sinal, a capa seguiu o passo, pois é belamente elaborada e conceitual. Qual a mensagem que ela visa transmitir?
MANU: A ideia da capa veio de uma entidade imaginária, o Opressor, algo como uma versão Punk da deusa da destruição Kali (risos). O conceito é esse, uma entidade criada e fortalecida a partir das fraquezas do ser humano, dos vícios, da luxúria, da violência, da corrupção, da fé cega, enfim, de toda essa merda que convivemos dia a dia. A capa foi criada pelo Beto Andrade, um artista de Belo Horizonte, e o encarte ficou por conta do Marco (batera do Uganga e meu irmão). Ambos souberam retratar muito bem o conceito do álbum.


WOTM: O disco apresenta também algumas passagens dialogais, aparentemente extraídas de filmes, entrevistas e afins. Quais as origens desses trechos? As músicas foram compostas em torno deles?
MANU: Desde o início usamos vinhetas de ligação em nossos trabalhos. Não em todas as músicas, claro, mas de forma pontual em determinadas partes. Essas ideias vêm depois das composições finalizadas, quando montamos o tracklist e decidimos onde e o que usar. No “Opressor” temos trechos de filmes nacionais e estrangeiros, uma parte de um documentário sobre nossa área e até instrumentos tocados por nós mesmos, como os atabaques na faixa “Noite”.

WOTM: Quais as referências musicais para o desenvolvimento da sonoridade em “Opressor” (já que é o disco mais Metal da discografia), e que tipos de assuntos influenciaram a composição das letras?
MANU: Eu diria que as nossas referências são as mesmas, porém melhor inseridas em nossa música. Temos gostos musicais variados e estamos sempre ouvindo muita coisa, muita velharia, mas também muita banda nova, depende do integrante. Em se tratando especificamente de Metal/Hardcore/Punk, algumas bandas devem ser citadas quando falamos do Uganga: Black Sabbath, Motörhead, Faith No More, Venom, Exodus, Discharge, Dorsal Atlântica, Suicidal Tendencies, Helmet, Prong, Celtic Frost, Sarcófago, Mayhem, Sepultura, Metallica, Vulcano, Biohazard, entre várias outras são e sempre serão grandes influências pra gente. Sobre as letras, a inspiração desde o início é o que está a minha volta e as minhas percepções, positivas ou não, dessas coisas. No caso do “Opressor”, acho que o planeta vive um momento de imbecilidade muito grande, no qual incluo todos nós, e isso ditou os rumos do texto.

WOTM: Vocês já realizaram duas turnês europeias, algo que nem sempre bandas brasileiras conseguem – e ainda por cima graças a músicas cantadas em português. Como foi a recepção dos europeus nos shows? Como foi serem os gringos da vez?
MANU: Não sei se foi graças a cantar em português que essas tours rolaram, mas com certeza isso não nós atrapalhou em momento algum. A recepção nas duas vezes foi excelente, sem demagogia nenhuma. Claro que sei que a maioria das bandas fala isso quando volta de lá, mas no nosso caso é a mais pura realidade e os vídeos estão aí pra provar isso, assim como nosso CD ao vivo, gravado no “Razorblade Festival” (Alemanha), quando de nossa primeira tour gringa. Tocamos em vários países para casa cheia, casa vazia, de segunda a segunda e pra plateias distintas. Não importa se eram punks, roqueiros das antigas, thrashers, a galera do Metalcore ou 'trues' da velha guarda, nós sempre fomos bem recebidos. Acho que em parte se deve a realmente sermos uma banda energética e verdadeira no palco e as pessoas percebem isso, mas também devemos muito ao caminho pavimentado na Europa pela cena clássica nacional dos anos 80. Bandas como Vulcano, Taurus, Overdose, Dorsal Atlântica, Ratos de Porão, Holocausto, Cólera são adoradas por um público enorme.

WOTM: E o futuro? Há planos para um novo álbum? Um eventual novo disco seguiria a linha de “Opressor” como um ponto de referência conceitual, ou as composições tomam forma de maneira mais natural e livre, como se elas pegassem a mão do compositor e o guiassem – e consequentemente a personalidade Uganga seria resultado inevitável?
MANU: Estamos neste momento focados na composição do próximo álbum que já está bem adiantado. Ainda temos algumas datas da tour do “Opressor”, tocaremos em alguns festivais aqui no sudeste/centro-oeste, faremos duas semanas no nordeste, mas de novembro pra frente vamos parar e nos dedicar 100% a finalizar o novo álbum. Acho que ele será uma continuação natural do “Opressor” porém com três guitarras e algumas novidades, pois zona de conforto não nos interessa. O novo guitarrista, Murcego González, trouxe uma pegada mais clássica que se encaixou muito bem com o estilo mais Thrash do Christian e do Thiago. Será nosso primeiro trabalho como sexteto e está soando muito bem. Com certeza podem esperar um álbum bastante pesado! O CD deve sair ainda no primeiro semestre de 2017 aqui e muito provavelmente na Europa. Antes, porém, a Sapólio Rádio lança até o final do ano um DVD comemorando mais de duas décadas de banda com um documentário e um show bem especial aqui na nossa área .

WOTM: Para finalizar, Manu, informe como o fã pode proceder para adquirir o merchandising oficial da banda.
MANU: É só acessar o site da Incêndio Shop que cuida do nosso merchandise www.incendioshop.com.br. No Facebook do Uganga também tem um link pra loja virtual ou você pode ir direto no site da banda www.uganga.com.br e conferir outras coisas também tipo vídeos, agenda, fotos, etc.

WOTM: Certo! Manu, muito obrigado pelo momento dedicado a essa entrevista. Desejo sucesso à banda, que faz som de qualidade. Que venham novas músicas e novas turnês ao Uganga! O espaço está livre para você deixar uma mensagem aos leitores:
MANU: Eu agradeço a oportunidade de poder falar um pouco, ou bastante, sobre o Uganga (risos). Se cuidem e nos vemos na estrada!

Mais informações:
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Entrevista por:
Walker Marques
Warriors Of The Metal

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